A remarcação para fevereiro de 2027 do julgamento dos três policiais militares acusados de matar o empresário Antonio Vinícius Lopes Gritzbach, de 38 anos, prolonga também a angústia da família do motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, morto naquele dia após ser alvejado nas costas.
"É como se eu tivesse remado sozinha e morrido no mar, quando eu achei que realmente a Justiça seria feita", disse ao Estadão a agente de saúde Simone Dionízio Fernandes Novais, viúva do motorista. "Me sinto indignada, revoltada. É uma sensação de incapacidade muito grande."
Previsto inicialmente para ocorrer ao longo desta semana, o júri foi dissolvido na última segunda-feira, 22, o primeiro dia de julgamentos, por desistência da defesa. A sessão foi marcada por embates entre o promotor de Justiça Rodrigo Merli, do Júri de Guarulhos, e os advogados que representam os PMs acusados pelo crime.
O primeiro dia de julgamento teve embates desde o início da tarde, mas as discussões entre os advogados e Merli escalaram por volta das 19h, enquanto o capitão da Corregedoria da PM Manoel Flavio de Carvalho Barros, sétima testemunha daquele dia, era ouvido em plenário.
A defesa se irritou após uma das perguntas da acusação fazer menção a um ataque a tiros sofrido por um dos advogados do caso, Mauro Ribas Jr, no começo do ano passado em Sorocaba.
"Não tem nenhuma conexão temática com os autos, com o que estava sendo discutido, e nós reagimos", disse o criminalista Claudio Dalledone Jr. Os advogados chegaram a chamar Merli de "covarde" e "fujão", enquanto o promotor disse que um deles estava com mau hálito.
O cancelamento gerou protesto imediato de familiares de Celso contra os advogados dos PMs (vídeo acima). "Vocês reagiram porque queriam cancelar o julgamento. Não é o filho de vocês que está sem o pai dentro de casa", disse Simone. "Estou há dois anos lutando por Justiça."
Ao Estadão, ela disse esperar que "o próximo julgamento seja levado mais a sério". "Nós fomos as verdadeiras vítimas disso tudo: ele (Celso), que perdeu a vida, e eu, que fiquei sozinha com três filhos, tentando lutar, tentando seguir", desabafou. Celso deixou a viúva e três filhos, hoje com 22, 15 e 5 anos.
Uma das maiores demonstrações recentes do poderio bélico do crime organizado, a execução de Gritzbach aconteceu em plena tarde, por volta das 16h, do dia 8 de novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Ele foi atingido por dez disparos de fuzil.
Investigado por lavar dinheiro para a facção, Gritzbach vinha colaborando com o Ministério Público do Estado (MP-SP) em uma das principais investigações contra o crime organizado dos últimos anos. A delação também citava policiais civis. O PCC, então, pôs um prêmio de R$ 3 milhões pela sua cabeça, apontam as investigações.
Três réus são acusados por envolvimento direto no crime: o soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins, apontados como os atiradores, e o tenente Fernando Genauro da Silva, acusado de conduzir a dupla de carro até o aeroporto e depois dar fuga com os outros acusados. A defesa alega inocência.
Além de Gritzbach e Celso, outras duas pessoas - uma passageira que voltava de Salvador e o funcionário de uma terceirizada - ficaram feridas, mas foram liberadas após atendimento. Elas foram justamente as duas primeiras a serem ouvidas no primeiro dia de julgamento, na segunda. Em seguida, veio o depoimento de Simone, a viúva de Celso.
Celso estava perto de voltar para casa antes do ataque
Durante o depoimento, ela relembrou que Celso telefonou para ela cerca de 40 minutos antes do atentado, ocorrido numa sexta-feira. O objetivo era dar a notícia de que já tinha conseguido dinheiro suficiente naquele dia para pagar mais uma parcela do novo carro, um Jeep Renegade. "Era o sonho dele comprar esse carro."
Celso já planejava retornar para casa, mas disse à mulher que ficaria só um pouco mais para fazer dinheiro para comprar comida japonesa naquela noite - um dos filhos, que andava um pouco desanimado, gostava. Foi a última vez que ela falou com o marido.
Ela conta que, depois do atentado, Celso chegou a ligar para ela mais uma vez. "Mas eu não atendi na hora, não vi (tocando)", disse. Depois, Simone atendeu a uma ligação de um amigo dele relatando o ocorrido. Enquanto "corria" para o Hospital Geral de Guarulhos, para onde ele foi levado, recebeu também um vídeo de Celso na ambulância.
Quando ela chegou no hospital, o marido já havia entrado para a sala de cirurgia - a médica disse que ele queria vê-la a todo custo, mas que tiveram que encaminhá-lo para o procedimento. Simone e os filhos só o encontraram depois, já sedado na UTI. "O pequenininho ficou pedindo para o pai levantar. Falava 'pai, levanta. Pai, levanta', chegou a chacoalhar ele", disse. Celso não resistiu aos ferimentos.
Mãe saiu de Brasília só para acompanhar julgamento
Diversos familiares do motorista, incluindo irmã, tia e primos, compareceram ao primeiro dia de julgamento, na segunda. Enquanto Simone prestava depoimento, no começo da tarde, a mãe de Celso, em especial, não conseguia conter a emoção.
Aparecida Camilo de Araújo, de 65 anos, saiu de Brasília com a filha só para acompanhar os desdobramentos do caso. "Meu filho Celso precisa de Justiça", afirmou. Com o cancelamento do júri, ainda não se sabe se elas conseguirão voltar no próximo ano.
Simone contou no depoimento que, desde que foi convocada para o julgamento, em abril deste ano, não conseguiu trabalhar mais. "Precisei passar pela psiquiatria e ela me afastou. Não estou em condições", disse. O adiamento também prolonga essa angústia.
Com a remarcação do júri para os dias 22, 23, 24, 25 e 26 de fevereiro de 2027, todas as testemunhas que prestaram depoimento, incluindo Simone, terão de ser ouvidas novamente. Quando o julgamento foi cancelado, a sétima testemunha, de uma lista de 21, era ouvida.
Denis Antônio Martins e Ruan Silva Rodrigues são denunciados pelos homicídios consumados qualificados de Gritzbach e Novais, e também pelas tentativas de homicídio de Willian Souza Santos e Samara Lima de Oliveira, que sobreviveram após o ataque.
Seriam eles os dois homens encapuzados que avançaram sobre Gritzbach naquela tarde de sexta, em cena que chocou o País. Imagens de câmeras de segurança mostram o terminal 2, um dos mais movimentados do País, tomado por correria com os disparos.
Conforme sentença de pronúncia, o tenente Fernando Genauro da Silva teria recebido a tarefa de conduzir um Volkswagen Gol preto até o local e propiciar a fuga aos atiradores após o crime. Os réus permanecerão no Presídio Militar Romão Gomes. A defesa pretende entrar com novo habeas corpus para soltá-los.
Antes do julgamento, Dalledone Jr afirmou ao Estadão que os três PMs negam envolvimento no caso. Segundo ele, as investigações não alcançam elementos de prova para incriminar os policiais, e a defesa pretendia demonstrar isso em plenário.
O que motivou a execução de Vinícius Gritzbach em Guarulhos
O julgamento se restringe ao núcleo de execução do crime. Outros três denunciados seguem foragidos, incluindo um possível olheiro que estava no aeroporto no dia do crime - Kauê do Amaral Coelho - e dois nomes apontados como os mandantes: Emílio Carlos Gongorra Castilho, conhecido como Cigarreira, e Diego dos Santos Amaral, o Didi, que é primo de Coelho. As defesas dos três não foram localizadas.
A sentença de pronúncia aponta que Gritzbach, que atuava no ramo imobiliário, foi recrutado por membros do PCC para atuar como gestor financeiro, adquirindo imóveis em nome de "laranjas" (terceiros normalmente sem rastros criminais) e investindo o dinheiro do tráfico de drogas em criptoativos.
Segundo as investigações, o problema começou quando membros da facção, os chamados "irmãos", passaram a questionar a ausência de liquidez das criptomoedas e a desconfiar que Gritzbach desviava grande parte do dinheiro em proveito próprio.
Como mostrou o Estadão, Gritzbach teria contratado Noé Alves Schaum para matar Anselmo Bechelli Santa Fausta, o Cara Preta, e Antonio Corona Neto, o Sem Sangue, segurança do traficante. O crime aconteceu em 27 de dezembro de 2021.
Conforme as investigações, Schaum foi capturado pelo PCC em janeiro de 2022, julgado pelo "tribunal do crime" (espécie de Justiça paralela do crime organizado) e esquartejado. Apesar de poupado em um primeiro momento, Gritzbach também entrou na mira da facção - foi inclusive alvo de uma tentativa de execução em apartamento na zona leste -, e buscou recursos para se proteger.
O acordo de delação firmado por Gritzbach com o MP-SP foi homologado em abril de 2024, ocasião em que, além de admitir a lavagem de capitais, ele delatou fatos relacionados à corrupção envolvendo policiais civis e detalhes da atuação do PCC.
Didi e Cigarreira estão entre os mencionados na delação, segundo a sentença de pronúncia. As investigações apontam que os dois, então, teriam entrado em contato com Coelho, que acionou os braços do núcleo de execução. O ataque ocorreu em plena tarde, por volta das 16h, quando Gritzbach voltava com a namorada de Maceió. Ela não se feriu.