'As ruas viraram rios', conta moradora de Ubatuba após chuvas intensas na madrugada

Moradores se uniram em resgates improvisados com prancha de surf e lancha; operação de arrecadação de mantimentos começa neste domingo

22 fev 2026 - 10h49

Ubatuba passou boa parte da noite e da madrugada de sábado, 21, para domingo, 22, debaixo d'água. Em apenas 12 horas, a cidade do litoral norte de São Paulo registrou 126 milímetros de chuva — volume equivalente a toda a média prevista para o mês de fevereiro, segundo a Defesa Civil. O resultado foi uma sequência de cenas de caos que muitos moradores dizem nunca ter visto: ruas transformadas em rios, casas cobertas até o teto e famílias esperando resgate em cima dos próprios telhados.

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"O estrago foi grande. As pessoas se uniram nos resgates às famílias que procuraram abrigo no teto de suas casas para não serem levadas pelas águas", conta Conceição Aparecida de Oliveira, a Cidinha, enfermeira aposentada de 60 anos, nascida e criada no Sertão da Quina — bairro entre a praia de Maranduba e a serra, que foi um dos mais atingidos. "As ruas viraram rios".

Uma enchente que chegou antes da chuva

O que desconcertou quem mora no bairro foi a rapidez e a ordem dos acontecimentos. A água não esperou a chuva. Cidinha descreve ter ido até a margem do rio que dá acesso às comunidades e ficado "abismada com a fúria das águas, que arrastavam troncos e terra, invadindo as residências próximas".

"Não estava chovendo ainda quando o rio já estava cheio. Começou muito de repente, não deu tempo das pessoas saírem das casas — e logo em seguida começou a chover", relata.

Moradores usam lancha para tentar resgatar pessoas ilhadas em enchente em Ubatuba
Moradores usam lancha para tentar resgatar pessoas ilhadas em enchente em Ubatuba
Foto: Reprodução/Redes sociais / Estadão

A explicação está nas serras. Quem mora no Sertão da Quina conhece a cachoeira da montanha, chamada de Água Branca, visível a olho nu do bairro, embora fique a três ou quatro horas de caminhada pela mata. Quando o volume dela cresce visivelmente, é sinal de que algo grande está descendo. "Muitos estavam cientes do que ia acontecer pela Água Branca. Isso nos deixou assustados porque há muito não ocorria tal fenômeno", diz Cidinha. Segundo ela, um evento dessa proporção não acontecia no bairro há aproximadamente 50 anos.

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A noite de resgate

Com as ruas já intransitáveis, moradores apelaram para a criatividade e solidariedade. Nas redes sociais, vídeos que circularam ao longo da noite mostram um morador cruzando a rua em cima de uma prancha de surf. Em outro, uma lancha navega entre as casas para tentar alcançar pessoas ilhadas.

No Sertão da Quina, o nível da água chegou ao topo dos portões em várias ruas. Algumas residências foram cobertas até o teto. O Corpo de Bombeiros trabalhou para retirar famílias que aguardavam nos telhados. A situação era ainda mais perigosa por um detalhe que Cidinha lembra com clareza: "A luz não acabou, e a água estava encostando nos fios. Estava um perigo muito grande."

Um morador afirmou que duas pessoas teriam morrido no bairro Itaguá, próximo ao centro, e que três foram salvas em um resgate do qual ele diz ter participado. A informação, porém, ainda não foi confirmada pelo Corpo de Bombeiros até a publicação desta reportagem.

A manhã seguinte

Neste domingo, 22, a chuva parou e a água começou a baixar. O que ficou foi o rastro do estrago, assim como uma corrente de solidariedade. "Fiquei impressionada e comovida pelas atitudes de hotéis e pousadas que ofereceram abrigo aos desabrigados. Foi muito importante para todos", diz Cidinha.

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Com muitas famílias ainda sem casa, começou neste domingo uma operação de arrecadação de mantimentos, água potável e outros itens essenciais. Escolas do município foram abertas como pontos de apoio e acolhimento, com suporte das equipes de assistência social da prefeitura.

A Defesa Civil orienta que os moradores permaneçam em suas residências sempre que possível, saindo apenas em situações de risco iminente — como estalos em estruturas, rachaduras em paredes ou no solo, inclinação de árvores ou postes e água barrenta descendo de encostas. O alerta segue porque, mesmo com a chuva reduzida, o solo permanece encharcado. O Cemaden mantém Ubatuba em alerta moderado para deslizamentos neste domingo, além de risco de enxurradas e alagamentos em áreas com drenagem insuficiente.

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