Após terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, a campanha de Lula adotou a "estratégia do medo" para o segundo turno, alertando que a vitória da oposição pode extinguir programas sociais. O objetivo é atrair abstenções e indecisos. A mudança decorre de críticas à comunicação atual, vista como distante da população, o que levou à entrada do publicitário Otávio Antunes na equipe e a cobranças para que Lula amplie sua presença nas redes sociais e modernize seu diálogo com os eleitores.
O risco real de sofrer uma derrota na eleição deste ano, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), levou o PT a rever suas estratégias de comunicação na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a aposta no segundo turno é mostrar que programas e benefícios hoje dados como garantidos podem desaparecer com a eleição do candidato de oposição.
A "estratégia do medo", como vem sendo chamada internamente por aliados de Lula, parte de uma fala feita pelo próprio presidente, na noite de segunda-feira, em uma reunião com aliados em um hotel em Brasília. No primeiro encontro da legenda depois de um primeiro turno frustrante, Lula deixou claro que a intenção é enfatizar os riscos para a vida das pessoas que representaria a eleição de seu oponente, contaram fontes presentes à conversa, que pediram anonimato.
A mudança de tática já começou a ser colocada em prática. Nesta terça, uma peça do PT começou a circular nas redes sociais afirmando que "algumas perdas não têm volta", enquanto bilhetinhos com nomes de programas sociais do governo Lula, como Pé de Meia e Mais Médicos -- além do reajuste real das aposentadorias -- voam de uma mão aberta.
O PT busca conquistar eleitores que votaram em outros candidatos no primeiro turno, mas também quer convencer aqueles que não votaram a ir às urnas. A abstenção este ano bateu mais um recorde, chegando a 33 milhões de pessoas. A avaliação é que muitas dessas pessoas não foram votar por desânimo e por não ter preferência por nenhum candidato, mas podem se animar agora para assegurar a manutenção de programas sociais.
No primeiro turno, no domingo, Lula teve 45,16% dos votos válidos, somando 53,9 milhões de votos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 47,03%, com 56,1 milhões de votos.
Procurada, a assessoria da campanha de Flávio não respondeu de imediato a pedido de comentário sobre as acusações do adversário.
Em recente entrevista, o senador disse que, se eleito, vai manter o Bolsa Família e também já disse que vai garantir o reajuste de 15% anunciado por Lula para o programa a poucos dias do primeiro turno eleitoral.
MEA-CULPA NA COMUNICAÇÃO
Para além da mensagem, o mea-culpa petista também passa pela forma de comunicar. Fontes contaram à Reuters que o próprio presidente está desgostoso com a eficácia da comunicação e se queixou que a campanha falhou ao tentar se comunicar com jovens e mulheres, e que muita coisa precisa ser mudada.
Nas discussões internas do PT, aparece um culpado: o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, de acordo com as fontes. O publicitário, que fez a campanha de Lula em 2022, não está efetivamente à frente este ano, mas é seu sócio, Raul Rebelo, que comanda a comunicação da campanha, e Sidônio participa efetivamente das decisões.
A parcela de culpa de Sidônio, dizem fontes, passa pelos discursos de Lula centrados em questões como soberania e minerais críticos, que são considerados temas inacessíveis para boa parte da população. Aliados apontam, por exemplo, que um programa de TV inteiro foi feito sobre terras raras.
Não se fala ainda efetivamente em substituir Rebelo, mas o publicitário Otávio Antunes, que fez a campanha de Fernando Haddad em São Paulo, deve se juntar à comunicação nacional, segundo as fontes. Considerado mais agressivo no seu estilo, Antunes ajudou Haddad a ter a maior votação do PT para o governo do Estado em São Paulo na história, mesmo com o ex-ministro tendo perdido no primeiro turno, o que já era esperado.
PAPEL DE LULA
A mudança, no entanto, também passa pelo próprio Lula. Aliados afirmam que é preciso mudar a fala do presidente e também sua forma de se comunicar. Há uma crescente cobrança para um uso melhor e mais intenso das redes sociais, algo que Lula resiste.
Na reunião de segunda, circulou entre os presentes um vídeo feito para o Instagram por Ana Elisa Silva, eleita deputada federal pelo PT em Minas Gerais com mais de meio milhão de votos. No vídeo, Ana Elisa, de 21 anos, aponta que todos os 10 deputados federais mais votados do país, ela inclusive, baseiam suas estratégias de comunicação nas redes sociais.
"É o momento de deixarmos realmente a ignorância de lado, calçarmos a sandália da humildade e entendermos que com a rede social a gente precisa sim aprender. Não é que não é importante ir para as ruas, é entender que não existe mais separação de redes e ruas. Quem está nas ruas está nas redes", disse a deputada eleita em um vídeo que já teve quase 6 milhões de curtidas e 150 mil compartilhamentos.
Paulo Okamotto, um dos coordenadores da campanha de Lula, afirmou que a campanha vai intensificar o trabalho com influenciadores de esquerda, e a ideia, disse, é montar uma rede com vários nomes que estão se oferecendo para ajudar o partido.
A estratégia de redes, no entanto, esbarra no próprio presidente. Aos 80 anos, Lula nem mesmo carrega consigo um celular, e vive criticando o fato de as pessoas estarem sempre olhando para telas.
Em uma de suas falas na reunião de segunda-feira, Lula disse que vai fazer mais "selfies" -- como chama os vídeos para as redes -- mas ressaltou que também quer falar mais para rádios neste segundo turno.