Brasil vai às urnas mais uma vez sob sombra da polarização Lula-Bolsonaro

3 out 2026 - 19h59
(atualizado às 20h32)
Resumo
A eleição presidencial repete a polarização histórica com o confronto acirrado entre Lula e Flávio Bolsonaro. Tecnicamente empatados nas pesquisas, ambos esmagaram as alternativas de terceira via. Lula busca um inédito quarto mandato destacando conquistas socioeconômicas, enquanto Flávio lidera a oposição de ultradireita, prometendo anistia ao pai. A disputa ocorre em meio a crises no STF e forte peso da rejeição mútua, com a definição caminhando para um segundo turno extremamente apertado.

Mesmos sobrenomes, diferente eleição. Brasileiros voltam às urnas após quatro anos para decidir entre reeleição de Lula e a candidatura de herdeiro de Jair Bolsonaro, em pleito que deve ser decidido pelo peso da rejeiçãoQuatro anos após o duelo entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, os brasileiros vão às urnas neste domingo (04/10) para votar numa disputa presidencial que vai reunir novamente os mesmos sobrenomes e que caminha para ser apertada, de acordo com pesquisas.

Lula e Flávio Bolsonaro. Candidatos repetem o duelo de 2022 entre lulopetismo e bolsonarismo
Lula e Flávio Bolsonaro. Candidatos repetem o duelo de 2022 entre lulopetismo e bolsonarismo
Foto: DW / Deutsche Welle

Apesar de contar com 12 candidatos, a campanha se desenhou desde o ano passado para mais um duelo de duas personalidades que representam dois projetos e visões de Brasil antagônicas: Lula (PT) x Flávio Bolsonaro (PL).

Publicidade

Lula, de centro esquerda e vencedor do tenso pleito de 2022, está novamente na corrida para tentar garantir um quarto mandato, que pode lhe levar a soma 16 anos à frente da Presidência - ficando atrás apenas de Getúlio Vargas, que acumulou 18 anos na história da República.

Já Flávio Bolsonaro (PL), filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, pretende levar novamente a ultradireita brasileira ao poder depois da derrota de 2022 e garantir a libertação do seu pai, em prisão domiciliar desde o ano passado após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.

Uma eventual vitória de Lula pode manter a centro esquerda no poder do maior país da América do Sul, após uma onda de países da região como a Argentina, o Chile, a Colômbia e o Peru elegerem presidentes de ultradireita nos últimos anos. Já a chegada de Flávio Bolsonaro ao Planalto ocorreria no contexto da expansão da influência dos EUA de Donald Trump na região. Desde o ano passado, a Casa Branca, agiu diversas vezes para criar dificuldades para o governo Lula e tentar beneficiar a família Bolsonaro.

Mas os EUA não foram os únicos a lançar uma sombra sobre a eleição. O ciclo eleitoral todo foi dominado por diversas crises, especialmente a do Banco Master, que precipitou uma convulsão no Supremo Tribunal Federal (STF) . Flávio Bolsonaro, apesar de pessoalmente implicado no escândalo Master, ainda assim conseguiu permanecer poucos pontos percentuais atrás de Lula nas pesquisas. As crises também obscureceram a discussão de propostas ao longo da campanha, com o cancelamento do último debate simbolizando a falta de confronto de programas.

Publicidade

Uma campanha sem reviravoltas nas pesquisas

Apesar da revelação de sucessivos escândalos ao longo do último ano, que se acentuaram a partir de setembro, a corrida eleitoral foi marcada por uma persistente estabilidade nas pesquisas, com pouca diferença se abrindo entre Lula e Flávio.

Flávio, após anunciar sua pré-candidatura em dezembro de 2026, já estreou em uma pesquisa Nexus de voto estimulado, no fim de março, com 38%. Lula, por sua vez, apareceu com 41%. Candidatos alternativos somaram apenas 12%.

O cenário se repetiu pelos próximos seis meses, com poucas oscilações e movimentos de eleitores, apontando para mais uma eleição polarizada e que deve ter como fator decisivo a rejeição dos candidatos e o voto útil. Os dois candidatos chegaram a faltar em repetidos debates presidenciais, estratégia comum de líderes nas pesquisas desde a redemocratização do país.

Na pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (03/10), véspera do pleito, Lula apareceu com 45% das intenções de voto válidos, contra 42% de Flávio. Os dois estão tecnicamente empatados. Analistas apostam que a eleição, a exemplo de 2022, deve mais uma vez ir ao segundo turno com uma diferença apertada, e com a maioria dos levantamentos apontando ainda um desfecho incerto na segunda rodada, marcada para 25 de outubro.

Publicidade

Lula em busca do quarto mandato

Nas 10 eleições presidenciais disputadas no período da redemocratização, Lula foi ou tentou se apresentar como candidato em oito delas. Com o presidente se aproximando dos 81 anos, essa pode ser a última disputa presidencial com seu nome nas urnas.

Preso e barrado do pleito de 2018, Lula protagonizou uma das reviravoltas políticas mais dramáticas da história ao derrotar em 2022 o então presidente Jair Bolsonaro e conquistar um terceiro mandato, na que foi a eleição mais apertada desde a redemocratização.

Nos últimos quatro anos, o presidente reposicionou o país no cenário internacional, após os anos de isolamento sob Bolsonaro. Vários indicadores econômicos mostraram sinais de melhora após declínio no final da gestão Bolsonaro. O país registou números recordes de empregabilidade, com uma taxa de desemprego de 5,3%, assim como os menores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica (desde 2012). Entre as promessas cumpridas por Lula desde 2022, estão a aprovação da reforma tributária e da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês.

No entanto, o governo permaneceu sem solucionar problemas como o déficit das contas públicas público e ainda viu índices como inadimplência explodirem. Apesar da melhora de vários índices, houve a persistência de um sentimento negativo entre muitos eleitores em relação ao custo de vida, de forma semelhante ao que ocorreu com o ex-presidente democrata Joe Biden nos EUA em 2024.

Publicidade

Ao longo da campanha, Lula apostou tanto na sua biografia quanto num discurso de defesa da soberania frente às investidas dos EUA. O slogan da campanha foi "O Brasil pronto pra mais". O petista ainda manteve as alianças com antigos rivais, como seu atual vice Geraldo Alckmin (PSB) e as ex-ministras Marina Silva e Simone Tebet.

Na campanha de 2026, Lula se manteve no topo das pesquisas, mas sua popularidade permaneceu distante dos níveis observados em 2010, quando completou seu segundo mandato. Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana mostrou que 49% desaprovam e 48% aprovam o governo de Lula.

Com uma vantagem não muito confortável sobre Flávio, Lula apostou na reta final em "pacotes de bondades", como reajuste no Bolsa Família, distribuição de canetas emagrecedoras no SUS e a proibição das bets, esta última uma medida popular entre a maioria dos brasileiros. Lula também ampliou ataques ao adversário Flávio, afirmando que está enfrentando um "chefe de quadrilha" nestas eleições.

Com 80 anos e prestes a completar mais um aniversário, Lula já havia sido a pessoa mais velha da história republicana do Brasil a tomar posse como presidente em 2022. Apesar da idade avançada, o tema pouco entrou na campanha, com Lula contornando o assunto com intensa participação em comícios e com a publicação de vídeos que o mostravam fazendo exercícios físicos, tudo para demostrar que ele continua com disposição para um novo mandato.

Publicidade

Flávio tenta reabilitar bolsonarismo após derrocada

Senador de 45 anos que substituiu seu pai declarado inelegível, Flávio inicialmente se lançou à Presidência no ano passado no que parecia uma mera manobra política de "troca de moeda" que ainda poderia abrir caminho para outro candidato de ultradireita. Mas ele rapidamente foi bem-sucedido em herdar boa parte do capital político de Jair e se cacifar como o principal desafiante da candidatura à reeleição de Lula.

Apesar de tentar se apresentar como um rosto mais "moderado" do clã Bolsonaro, Flávio não expressou muitas diferenças em relação às políticas do seu pai, que representava uma agenda que mesclava fundamentalismo cristão, desprezo pela separação de Poderes, rejeição a valores progressistas, promoção do armamento da população e flexibilização de regras ambientais. Caso eleito, Flávio, a exemplo do seu pai e outros ultradireitistas latinos, também já deixou claro que deseja redirecionar a política externa do Brasil para os EUA de Trump.

Nos últimos meses, Flávio alimentou dúvidas sobre as urnas eletrônicas - ainda que com menos frequência que seu pai em 2022 - e em alguns momentos desconversou se vai reconhecer uma potencial derrota.

Liderando uma campanha revanchista após a derrocada de Jair, que não se reelegeu e ainda acabou preso e condenado, Flávio prometeu "fazer justiça" pelo pai e anistiar os envolvidos no ataque golpista de 8 de janeiro de 2023.

Publicidade

Sem o poder da máquina pública que seu pai contou na última eleição, Flávio utilizou críticas ao custo de vida, preço dos alimentos, corrupção e situação da segurança pública como alguns temas de campanha.

Mas sua candidatura focou especialmente num discurso "anti": antilulopetista e anti-STF. Flávio tentou mesclar os escândalos envolvendo o Supremo ao presidente, argumentando que ministros da Corte atuam como "agentes políticos do Lula".

No entanto, o próprio Flávio se viu ao longo da campanha envolvido no escândalo Master, especialmente após a revelação que o senador pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do seu pai. Inicialmente, Flávio mentiu sobre o seu relacionamento com o banqueiro caído em desgraça.

Outras situações de tensão ocorreram, como um desentendimento público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado nestas eleições. As articulações da família Bolsonaro, especialmente de Eduado Bolsonaro, junto ao governo Trump, que no ano passado já haviam resultado em sanções contra ministros do STF, também se voltaram em parte contra a candidatura quando os EUA lançaram novas tarifas contra o Brasil em julho, levando Flávio a ficar na defensiva.

Publicidade

O mesmo ocorreu quando o senador se viu envolvido numa polêmica sobre supostos planos envolvendo a retirada do título de Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil para agradar seus eleitores evangélicos.

Ainda assim, a sucessão de turbulências não foi suficiente para levar Flávio a perder força nem mesmo na reta final da campanha. Com a força do sobrenome, Flávio ainda neutralizou rivais de direita que se apresentaram como alternativas na eleição. Apesar de não ter conseguido forjar alianças fora do seu campo no primeiro turno (Flávio disputa com um vice também do PL), a expectativa é que o senador consiga atrair legendas do Centrão no caso de um segundo turno, o cenário provável na véspera da eleição.

O peso da eleição do Congresso

Apesar de a disputa presidencial dominar o noticiário, o pleito de domingo também marca a renovação das 513 cadeiras da Câmara Federal e dois terços do Senado.

A nova composição do Congresso, que nos últimos anos ampliou sua influência, terá impacto direto sobre o espaço de manobra do próximo presidente, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.

Publicidade

A eleição do Senado é vista como especialmente crucial, dado o papel do Senado na aprovação de novos ministros do STF em potencial remoção de membros da Corte. No momento, o tribunal está engolido por uma profunda crise após a revelação do envolvimento de diversos dos seus membros no escândalo Master e brigas internas caracterizadas por atropelo de decisões de ministros, com alguns sendo acusado de agir politicamente.

Nos próximos quatro anos, o próximo presidente poderá indicar quatro novos membros da Corte, ou redesenhar um terço do Tribunal de 11 membros, com potencial de impactar decisivamente o resultado de julgamentos e provocar alterações em jurisprudências.

O tema da crise do STF, incluindo a possibilidade de impeachment de ministros, invadiu debates e sabatinas locais de candidatos ao Senado, tomando o lugar de pautas estaduais. A abertura das vagas no STF foi ainda especialmente explorada ao longo da campanha por Flávio Bolsonaro, que usou o poder presidencial de indicação como um fator para agitar sua base conservadora e antipetista.

Lula também fez apelos para que seu eleitorado também focasse na disputa do Senado. "O que está em jogo é muito sério. Se a gente não fizer maioria no Senado, corremos o risco desse país entrar numa crise sem precedente", disse Lula em setembro.

Publicidade

Uma "terceira via" que não decolou novamente

A um dia do primeiro turno das eleições presidenciais, candidatos que tentaram se apresentar como alternativas à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro amargam desempenho pífio nas pesquisas e indiferença da maior parte do eleitorado.

Somados, os principais nomes da "terceira via" - Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) - apareceram com apenas 11% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha divulgada no sábado. O mais bem-posicionado, Ronando Caiado, tem apenas 4%.

Caso essas porcentagens sejam confirmadas nas urnas, será a segunda eleição seguida em que um candidato descrito como "terceira via" não conseguiu nem mesmo superar a marca de dois dígitos.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Publicidade
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações