Fortes ventos entre São Paulo e o Rio de Janeiro provocaram ao menos cinco mortes, apagões, quedas de árvores e interrupções em serviços essenciais na tarde de quarta-feira (29/07).
Rajadas de vento de mais de 120 km/h foram sentidas no interior de São Paulo, enquanto no Rio a ventania chegou a aproximadamente 100 km/h na capital e o Aeroporto Santos Dumont suspendeu pousos e decolagens durante o período de maior intensidade.
As fortes ventanias constituem um fenômeno conhecido na meteorologia como frente de rajada e foram consequência do grande contraste entre duas massas de ar com características muito diferentes.
O Sudeste enfrentava um período de calor e tempo seco quando uma frente fria começou a avançar pelo Sul do país. Associado a esse sistema, um volume de ar mais frio e úmido seguia em direção à região.
O intenso contraste térmico entre o ar muito quente e seco que predominava, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, com o ar frio e úmido trazido pela frente fria acelerou o ar, causando ventos muito fortes.
"Essa frente de rajada foi provocado pelo que se chama linha de instabilidade, uma linha de tempestades que se forma sobre a própria frente fria e depois começa a avançar mais rapidamente até se desprender dela", explicou o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de operaçãos e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
"É como a rajadas de um dia de verão, quando temos pancadas de chuva, só que como as nuvens estão alinhadas em forma de linha de instabilidade, se forma uma frente de rajada."
Antes da chegada do sistema, as temperaturas estavam elevadas em parte do Sudeste. Na cidade do Rio de Janeiro, a temperatura chegou a 35,8°C durante a tarde, em um dos dias mais quentes registrados para julho desde 2007, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
No litoral paulista, o calor também foi intenso. No Guarujá, a temperatura chegou a 34°C, e, em Santos, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo registrou 35,2°C.
"A diferença de temperatura causada pela frente fria vinda da Região Sul foi muito grande, algo como uma queda de 14 a 15 graus em pouco mais de uma hora", aponta o meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Inmet, para explicar a força dos ventos.
Segundo o especialista, a intensidade das rajas já se normalizou à medida em que as massas de ar se equilibram, mas a frente fria está se movendo para o Espirítio Santo, que enfrenta ventos fortes nesta quinta-feira (30/07).
"Os ventos no Espírito Santo estão menos intensos, na faixa de 70 km/h, mas são causados pela mesma frente fria", diz.
Marcelo Seluchi diz ainda que frentes de rajada são mais comuns em épocas de chuva. "Então podemos ter mais casos a partir de setembro", afirma.
Qual a relação com o El Niño?
Segundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é difícil traçar um paralelo direto entre os fortes ventos registrados em São Paulo e no Rio de Janeiro e o fenômeno El Niño, pois para fazer essa associação seriam necessários mais dados e estudos mais aprofundados.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação da atmosfera e pode influenciar os padrões de temperatura e chuva em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.
Mas de acordo com Seluchi, é possível traçar uma relação indireta.
Segundo o meteorologista do Cemaden, a frente fria que provocou a linha de instabilidade responsável pelos ventos estava estacionária por vários dias na Região Sul, provocando chuvas intensas, granizo, vendaval e outras situações de de severidade. Esse fenômeno, por sua vez, tem uma ligação direta com o El Niño.
"Não é que o El Niño provoque mais linhas de instabilidade ou mais frentes de rajadas, mas ele provoca uma estacionalidade maior das frentes frias na Região Sul que podem levar a situações de severidade, como linhas de instabilidade e rajadas de vento", explica
Francisco de Assis Diniz, do Inmet, explica ainda que o El Niño tende a intensificar os sistemas e, portanto, deixar as temperaturas mais extremas.
"O El Niño deixa as temperaturas mais quentes de maneira mais rápida. Mas estamos no inverno, com frente frias que continuam chegando, e quando elas encontram regiões bastante aquecidas temos o forte contraste de temperaturas que causa os ventos", diz.
O meteorologista afirma ainda que os temporais fortes registrados na Região Sul recentemente e as tempestades em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, no último final de semana, também são sinais da intensificação dos sistemas provocadas pelo El Niño.
Também por isso, Marcelo Seluchi acredita que as chuvas podem se intensificar com o chegada da primavera, à medida em que El Niño também ficará mais intenso.
Ventos de 120km/h e suspensão de voos
No Rio de Janeiro, a ventania chegou a aproximadamente 100 km/h na capital e na Região Metropolitana. No Galeão, foram registrados ventos de 105 km/h durante a tarde.
A força das rajadas provocou interrupções no fornecimento de energia em bairros da cidade, afetou o funcionamento de trens e metrôs e levou ao fechamento temporário da Ponte Rio-Niterói.
O Aeroporto Santos Dumont suspendeu pousos e decolagens durante o período de maior intensidade das rajadas.
Duas pessoas morreram após a queda de um muro em Santa Teresa, na região central do Rio, segundo o Corpo de Bombeiros.
Em São Paulo, a Defesa Civil estadual emitiu durante a tarde um alerta severo para moradores da capital paulista e da Grande São Paulo devido ao risco de quedas de árvores, destelhamentos e interrupções no fornecimento de energia.
Os dois principais aeroportos da região também tiveram impactos. As rajadas de vento afetaram operações no Aeroporto de Congonhas e no Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos, com voos atrasados e alterações na programação.
No Estado, foram registradas rajadas superiores a 100 km/h, incluindo um pico de 124,9 km/h em Itaporanga, no interior paulista.
Tornado no Rio Grande do Sul
Enquanto a frente fria avançava em direção ao Sudeste, áreas da Região Sul enfrentaram um cenário de instabilidade associado a outro conjunto de fatores atmosféricos.
No Rio Grande do Sul, além das chuvas intensas e rajadas de vento, um tornado foi registrado na noite de terça-feira (28/7) nas cidades de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no Noroeste do Estado. Quatro pessoas ficaram feridas e dezenas de casas foram afetadas.
De acordo com a MetSul Meteorologia, o vento pode ter chegado até 300 km/h.
A passagem do tornado também interrompeu o fornecimento de energia elétrica e bloqueou estradas com árvores e destroços.
Imagens registradas após o fenômeno mostram um cenário de devastação, com bairros inteiros atingidos, casas totalmente destruídas, paredes derrubadas, árvores e postes caídos em diversos locais.
Segundo a Defesa Civil do estado, o tornado foi causado por uma supercélula — um tipo de tempestade que tem uma corrente ascendente giratória.
"Supercélulas comumente causam granizo de grande tamanho e rajadas de vento intensas, e em algumas ocasiões tornados."
Diferentemente das rajadas de vento associadas à passagem de uma frente fria, o tornado é um fenômeno localizado, formado por uma intensa rotação do ar dentro de tempestades de grande desenvolvimento vertical, como as supercélulas.
Com o deslocamento da frente fria em direção ao Sudeste, a tendência é de redução gradual das instabilidades no Estado e entrada de uma massa de ar mais seco, favorecendo a melhora do tempo.