A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia marca um ponto de inflexão na política sul-americana. Não se trata apenas da substituição de um governo de esquerda por uma liderança de direita em Bogotá. O resultado revela a consolidação de uma nova fase regional: mais polarizada, mais permeável ao trumpismo e mais exposta à disputa entre Estados Unidos (EUA) e China. Para o Brasil, essa mudança terá impacto direto nas eleições de 2026 e na condução da Política Externa Brasileira (PEB).
Segundo a Americas Quarterly, De la Espriella venceu o segundo turno por margem inferior a 1%, derrotando Iván Cepeda em uma disputa marcada por forte divisão social e participação recorde.
A Colômbia saiu das urnas praticamente dividida ao meio. Esse dado importa porque a eleição colombiana não expressa apenas uma alternância partidária, mas a transformação de disputas eleitorais em confrontos sobre identidade, ordem, soberania e pertencimento político.
A segurança pública foi um elemento decisivo da campanha, mas não surgiu no vazio. A Colômbia enfrenta décadas de conflito armado, narcotráfico, dissidências guerrilheiras, economias ilícitas e disputas territoriais, como na região de Catatumbo, com alto índice de violência.
O mesmo ocorre, com diferenças nacionais, em países como Brasil, Peru e Bolívia.
O Equador, por sua vez, importou a chamada "franquia Bukele", em que longe de ser contida, a violência só aumentou, especialmente os casos de extorsão, sequestro e narcotráfico.
Narrativa eleitoral de medo e ordem
O ponto analítico, portanto, não é relativizar a insegurança, mas compreender como uma crise real de segurança se transforma em ativo político e eleitoral para lideranças que associam ordem, autoridade e identidade nacional. A campanha do candidato De La Espriella combinou símbolos patrióticos, retórica de força, antipolítica e promessa de governar com "mão de ferro".
A partir daí, o caso colombiano ganha relevância regional. De la Espriella não é apenas um candidato conservador vitorioso. Ele se insere em uma rede política transnacional que inclui Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele e José Antonio Kast.
A celebração imediata de sua vitória por Trump, Milei e Kast indica que a direita radical latino-americana deixou de operar apenas em escala nacional. Ela se reconhece como campo político regional, compartilha repertórios discursivos e busca construir uma agenda comum em torno de segurança, soberania conservadora, anticomunismo, liberalismo econômico seletivo e alinhamento com Washington.
Esse movimento altera o entorno estratégico do Brasil. A Argentina de Milei, o Equador de Daniel Noboa, a Bolívia de Rodrigo Paz, o Paraguai e, possivelmente, o Peru de Keiko Fujimori indicam uma América do Sul mais favorável a governos conservadores. Washington passa a encontrar mais pontos de apoio regionais para pressionar governos que busquem maior autonomia diplomática.
Em 2026, a política externa brasileira se tornará um tema de disputa eleitoral. A direita brasileira poderá argumentar que o Brasil estaria isolado em uma região mais conservadora, mais alinhada aos Estados Unidos e mais crítica a governos progressistas. Essa narrativa poderá mobilizar temas como fronteiras, crime transnacional, Amazônia, defesa, anticomunismo e crítica à presença chinesa.
Debates sobre identidade nacional
O campo governista deverá responder a esse novo ambiente regional com a defesa da autonomia, da soberania e da capacidade brasileira de diálogo em um sistema internacional mais fragmentado. Nesse enquadramento, a PEB não seria apresentada como alinhamento ideológico, mas como instrumento de proteção do interesse nacional.
A disputa eleitoral de 2026 tende, assim, a transformar a política externa em debate sobre identidade nacional: o Brasil deve aderir automaticamente à agenda de Washington ou preservar margem de manobra entre diferentes polos de poder?
Essa questão se torna mais urgente porque a América do Sul passa a ocupar, de vez, lugar central na disputa hegemônica e geopolítica entre Estados Unidos (EUA) e China.
A região concentra recursos naturais, alimentos, energia, minerais críticos, infraestrutura, portos, tecnologia e financiamento.
A China consolidou presença econômica por meio do comércio, dos investimentos e de projetos de infraestrutura. Os EUA, sob Trump, tendem a responder com uma estratégia de recomposição de influência política, militar e econômica no hemisfério.
A contradição é que muitos governos sul-americanos podem aderir politicamente ao trumpismo, mas continuam materialmente vinculados à China.
Nesse contexto, dois cenários ajudam a compreender como a política internacional — aqui observada a partir da América do Sul e do trumpismo — pesará nas eleições de 2026 e nos rumos da política eleitoral brasileira após o pleito.
Se Lula vencer, o cenário mais provável será o da autonomia pragmática com contenção regional: preservar relações econômicas com a China, manter canais de diálogo com os EUA e, ao mesmo tempo, defender soberania, Amazônia, fronteiras, integração regional e margem diplomática diante de uma vizinhança alinhada aos interesses norte-americanos.
Se Flávio Bolsonaro vencer, o cenário mais provável será o de alinhamento automático com Trump. Não apenas ideológico, mas também voltado a reposicionar o Brasil como aliado preferencial de Washington na América do Sul, ainda que em tensão com interesses nacionais e com as necessidades de desenvolvimento do país. Esse movimento, porém, encontraria limites na alta exposição brasileira à China no agronegócio, na mineração, na energia, na infraestrutura e no comércio exterior.
Em suma, a vitória de De la Espriella importa porque evidencia esse novo tabuleiro: uma América do Sul mais polarizada, atravessada por redes conservadoras transnacionais e convertida em campo vital de disputa entre grandes potências. A eleição brasileira de 2026 será, portanto, também uma disputa sobre o lugar do Brasil no mundo e sobre o grau de autonomia que o país conseguirá preservar.
Alexandre Ramos Coelho não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.