A estratégia da Ucrânia para proteger trens de ataques russos

19 set 2026 - 15h51
Resumo
A Rússia intensificou ataques com drones contra a malha ferroviária da Ucrânia, visando paralisar o transporte de civis, cargas e grãos. Mais de 500 locomotivas já foram danificadas desde 2022. Para conter os bombardeios e proteger passageiros, o governo ucraniano e a estatal Ukrzaliznytsia adotaram centros de monitoramento aéreo para paradas preventivas, reforço na defesa antiaérea, compra de novos trens internacionais e a integração de rotas com ônibus em trechos de alto risco na linha de frente.

Rússia intensificou bombardeios contra a infraestrutura ferroviária da Ucrânia nos últimos meses. Ferrovias são fundamentais para sistema logístico do país.A Rússia intensificou nos últimos meses os ataques com drones contra locomotivas, estações e infraestrutura ferroviária da Ucrânia. Mais de 1.600 ataques foram registrados nos primeiros oito meses de 2026, segundo Oleh Holovashchenko, da Ukrzaliznytsia, a operadora ferroviária estatal ucraniana.

Em 16 de setembro, um trem que viajava entre a capital Kiev e Mykolaiv, no sul da Ucrânia, foi atingido por um drone russo. No dia anterior, outro trem na região de Volínia foi atacado perto da fronteira com a Polônia.

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Dois dias antes, um drone havia atingido a locomotiva de um trem de passageiros na passagem de fronteira de Yahodyn, a apenas dois quilômetros da Polônia. Ninguém ficou ferido, pois o sistema de monitoramento da Ukrzaliznytsia detectou previamente a ameaça e o trem foi evacuado cerca de 15 minutos antes do ataque. No mesmo momento, o diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), David Petraeus, estava em outro trem na mesma estação.

Um outro trem que transportava vários ex-líderes europeus, entre eles o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson e assessores de segurança, havia parado na estação mais cedo naquele mesmo dia. As autoridades ucranianas acreditam que esse trem diplomático era o verdadeiro alvo do drone, mas esse trem partiu antes do horário previsto.

"Terror de Putin" contra a logística ucraniana

A Rússia danificou ou destruiu mais de 500 locomotivas ucranianas desde que invadiu a Ucrânia, em 2022. Mais da metade desses ataques ocorreu neste ano, segundo uma publicação do ministro do Exterior da Ucrânia, Andrii Sybiha, na plataforma X. Ele afirmou que parte do "terror de Putin" tem como objetivo desestabilizar o sistema logístico da Ucrânia.

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O ministro pediu aos parceiros internacionais que endureçam ainda mais as sanções contra a Rússia e forneçam assistência financeira ao governo ucraniano para a aquisição de mais locomotivas. "As ferrovias da Ucrânia mantêm o país em movimento. Elas possibilitam a rápida evacuação de civis das áreas da linha de frente, transportam cargas essenciais e garantem o fluxo de grãos e outros bens críticos por todo o país", destacou.

A Rússia passou a mirar especificamente locomotivas porque elas são alvos ideais do ponto de vista técnico, afirmou Vasyl Shevchenko, ex-vice-ministro dos Transportes da Ucrânia. "A assinatura térmica de uma locomotiva é muito grande e quase impossível de não detectar", explicou.

"O impacto de um ataque pode ser devastador, porque 50 quilos de explosivos em uma locomotiva a diesel podem causar a detonação de várias toneladas de combustível e destruí-la completamente. Um ataque a uma locomotiva elétrica provocará um incêndio que pode paralisar um trecho inteiro da ferrovia. É por isso que eles visam áreas onde a perda de um único trem pode interromper totalmente o tráfego."

Shevchenko também destacou que as locomotivas não podem ser substituídas imediatamente, pois precisam ser encomendadas com antecedência, processo que pode levar anos. A Ukrzaliznytsia afirma que negociações estão em andamento com diversos parceiros internacionais e que um contrato já foi assinado com a empresa francesa Alstom. A previsão é que essas locomotivas comecem a chegar no próximo ano.

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Enquanto isso, os trens também estão sendo reparados. "Nossas principais prioridades costumavam ser reduzir custos, proporcionar conforto às equipes e garantir que os trens fossem atraentes. Isso mudou", disse Holovashchenko. "O mais importante hoje é que a locomotiva esteja em perfeitas condições técnicas e pronta para transportar passageiros e cargas." Ele acrescentou, porém, que é difícil proteger os trens contra as armas russas.

Zelenski intensifica proteção da infraestrutura crítica

Em 15 de setembro, o presidente ucraniano Volodimir Zelenski realizou uma reunião com o alto comando militar para discutir o reforço da proteção da infraestrutura crítica e da logística.

As principais questões discutidas foram os contratos para a produção de sistemas de proteção para a infraestrutura crítica e a logística. Zelenski acrescentou que há planos para ampliar os recursos de guerra eletrônica, reorganizar a atuação das equipes móveis de defesa e fortalecer as linhas de defesa antiaérea.

Zelenski afirmou ainda que estão sendo tomadas decisões sobre rotas logísticas alternativas nas regiões próximas à linha de frente e que instruiu o Ministério das Finanças do país a buscar recursos adicionais para o setor logístico.

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Segundo Holovashchenko, a Ukrzaliznytsia também procura soluções próprias para enfrentar os novos desafios e planeja desenvolver sistemas de detecção precoce. Ele afirmou que foi criado um centro de monitoramento para acompanhar a movimentação de drones e trens em todo o território ucraniano.

A Rússia começou a utilizar drones do tipo Shahed equipados com motores a jato, muito mais rápidos que os modelos anteriores, o que tornou a resposta mais difícil e reduziu o tempo disponível para agir. "Costumávamos esperar mais tempo para interromper os trens e evacuar os passageiros", contou Holovashchenko. "Agora, há mais paradas preventivas. Mas, em geral, tentamos não entrar em áreas onde haja perigo potencial."

Remoção de passageiros

Ônibus são utilizados em áreas de risco particularmente elevado, e o conceito de "trem mais ônibus" está sendo ampliado em cooperação com as autoridades militares. Os passageiros também recebem instruções sobre como agir em caso de alerta e são orientados a se afastar mais das estações do que era recomendado anteriormente.

A questão mais difícil continua sendo para onde os passageiros devem ser evacuados. Holovashchenko afirmou que os centros de monitoramento têm acesso a mapas com todos os abrigos ao longo das rotas ferroviárias e que se busca parar os trens próximos a esses locais, embora isso nem sempre seja possível. Segundo ele, os funcionários ferroviários recebem apoio psicológico especial para auxiliar os passageiros.

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A Ukrzaliznytsia está atualmente se preparando para o inverno e trabalhando com fundações e outros doadores para garantir que os trens possam ser aquecidos. As evacuações serão ainda mais difíceis com a queda das temperaturas.

"Essa não é uma tarefa simples. Estamos fornecendo cobertores, capas de chuva e equipamentos para que as equipes possam oferecer aos passageiros pelo menos os itens básicos caso o trem fique parado em uma área remota devido a uma tempestade de neve", disse Holovashchenko.

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