Um estudo da Bússola Social concluiu que a sobrevivência das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) no Brasil enfrenta um momento financeiro delicado, que coloca projetos sociais em risco. O levantamento revela que 42% das ONGs analisadas operam com um orçamento anual de até R$ 80 mil. Esse valor limitado mal cobre os custos operacionais básicos, forçando as instituições a trabalharem no limite da capacidade.
Entenda o Estudo da Bússola Social
De acordo com o levantamento, que integra o Panorama Financeiro das OSCs, Mais de 500 organizações de diferentes portes e áreas de atuação em todo o território nacional foram consultadas. Na prática, esse teto orçamentário reduz a estrutura das entidades, que mantêm equipes enxutas e enfrentam dificuldades para profissionalizar processos internos. A escassez de recursos impacta diretamente a qualidade da administração, já que com pouca verba para contratações e projetos sociais, ações continuam cada vez mais limitadas.
Há também o despreparo da equipe, e a falta de possibilidades para contratação de profissionais da área financeira, que poderiam fazer o pouco valor de entrada ser melhor direcionado. De acordo com a análise, uma em cada quatro organizações sociais entrega suas finanças a pessoas sem qualquer preparo técnico ou formação na área.
Além da falta de qualificação, o tempo dedicado ao controle do dinheiro é curto. Cerca de 41% das instituições investem menos de duas horas por semana na gestão financeira. Essa negligência forçada dificulta o acompanhamento contínuo de entradas e saídas, tornando a prestação de contas um desafio constante. As organizações relatam que consolidar dados de fontes distintas e organizar o fluxo de caixa são as tarefas mais críticas. Para Vinicius Schlup, CEO da Bússola Social, muitas entidades ainda enxergam as finanças apenas como um setor de apoio. Ele defende que a gestão deve ser o motor para ampliar o impacto social, garantindo que cada centavo seja otimizado.
"Os dados revelaram um padrão: muitas organizações ainda tratam a gestão financeira como algo de apoio, e não como um motor para sustentar e ampliar o impacto. E isso é crítico, porque em um cenário em que gerar e captar recursos já é um grande desafio, cada centavo importa. É justamente a gestão financeira que permite transformar recursos
escassos em mais eficiência e mais impacto", declara o CEO.
Maturidade financeira
O cenário de dificuldades não desaparece quando a organização cresce; ele apenas muda de forma. Nas ONGs menores, o esforço foca na organização de dados básicos. Já nas instituições maiores, o grande desafio passa a ser o controle de múltiplos projetos e a diversificação das fontes de receita simultaneamente.
Atualmente, a análise identifica três estágios de maturidade financeira no terceiro setor. A maior parte das organizações brasileiras ainda ocupa as fases iniciais. Isso significa que elas possuem uma gestão reativa e baixa previsibilidade, o que limita o planejamento de longo prazo e aumenta a dependência de doações pontuais. Sem uma organização financeira sólida, as OSCs perdem a chance de crescer e manter projetos ativos com consistência. A profissionalização surge como o único caminho para que essas entidades garantam a continuidade de suas atividades e reduzam a dependência de esforços momentâneos de captação.