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Kátia Tapety: primeira vereadora trans do Brasil dá nome à escola de formação política

Iniciativa do Instituto Raça e Igualdade, que foi lançada com presença de Tapety, aposta no protagonismo de mulheres negras, indígenas e LBT's

19 mai 2022 14h02
| atualizado em 25/5/2022 às 17h28
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Cátia Tapety, primeira vereadora trans negra do Brasil
Cátia Tapety, primeira vereadora trans negra do Brasil
Foto: Imagem: Reprodução redes sociais  / Alma Preta

Primeira mulher trans negra a ser eleita vereadora no Brasil - e na América Latina -, Kátia Tapety foi a grande estrela na noite de lançamento da Escola de Formação Política Kátia Tapety, batizada em sua homenagem. O evento foi realizado no último dia 10, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e contou com a presença de lideranças negras, indígenas e LGBTQIA+. A iniciativa promovida pelo Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos (Raça e Igualdade), tem como objetivo formar mulheres negras e indígenas para a disputa do pleito, independente de partido político, priorizando o protagonismo de mulheres trans, lésbicas e bissexuais. 

A ex-vereadora Tapety se emocionou algumas vezes durante o evento. Especialmente quando assistiu à exibição do documentário curta metragem sobre sua vida e história política, gravado na cidade que a elegeu, Colônia do Piauí. O material, que estará disponível no YouTube em breve com legendas em espanhol e inglês, celebra o legado de Tapety na política. 

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Aos 74 anos, após três mandatos de vereadora e um de vice-prefeita em Colônia do Piauí, Kátia tem outra visão da conjuntura política da cidade e não pretende concorrer mais ao pleito. "Hoje em dia não vale mais a pena, a política em Colônia já se corrompeu muito de lá pra cá. As pessoas querem saber do que você tem pra dar, não do seu trabalho, o que você pode transformar com o cargo que ocupa", afirma a ex-vereadora. 

Apesar da conjuntura de sua cidade, Tapety ressalta que é fundamental a presença de minorias representativas nos espaços políticos de decisão no Brasil e envia uma mensagem de esperança para as futuras alunas e candidatas. "Se a gente não estiver lá, não iremos defender nossas pautas e alcançar o que queremos. A gente tem que falar pela gente. Por isso devemos disputar, sim, todos os lugares que tiver", incentiva Kátia Tapety. 

Kátia se tornou vereadora pela primeira vez em 1992, quando o povoado de Colônia do Piauí se tornou município. O reconhecimento do trabalho de Tapety em prol daquele território garantiu-lhe o título de vereadora mais bem votada da cidade. Feito que se repetiu em 1996 e 2000. A piauiense foi, ainda, presidente da Câmara Municipal de Colônia do Piauí no biênio 2001-2002 e eleita vice-prefeita em 2004.

Apesar do pioneirismo político do sertão brasileiro na década de 1990, o país avançou pouco nas discussões e promoções de políticas para LGBTQIA+ em três décadas. Nos últimos 13 anos o Brasil liderou a lista de países que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. A intolerância atinge, também, outras minorias da legenda. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB) em parceria com a Aliança Nacional LGBTI+, uma pessoa LGBT foi morta a cada 29 horas no Brasil, em 2021, sendo as pessoas negras as maiores vítimas. 

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Lançamento da Escola de Formação Política Kátia Tapety no Rio de janeiro (RJ) | Imagem: Ivana Dorali

Este cenário de violência, aliado aos ataques às parlamentares negras no Brasil e à necessidade de maior representatividade e mais visibilidade de candidatas indígenas, negras, trans, travestis, lésbicas e bissexuais é que motiva o Raça e Igualdade para a criação da Escola de Formação Política Kátia Tapety. Segundo o diretor executivo do instituto, Carlos Quesada, o retrocesso político que ocorreu na América Latina com o retorno de governos de direita conservadora, incluindo o Brasil, com o governo de Jair Bolsonaro, exige posicionamento. "É necessário oferecer subsídio e formação para as candidatas, para que tenham ferramentas para fortalecer suas ações dentro dos partidos políticos que atuam, independente de qual seja ", afirma.

Samara Pataxó, assessora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e responsável pelo Núcleo de Inclusão e Diversidade da Secretaria Geral da Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), diz que os indígenas ainda estão sub-representados tanto de forma ativa - como representantes políticos -, quanto de forma passiva - enquanto eleitores. Ela conta que muitos ainda veem a política de forma negativa e, apesar do aumento da participação política indígena em 2018 e em 2020, ainda é inexpressivo o número de povos originários envolvidos com o processo eleitoral brasileiro. "A Escola de Formação Política Kátia Tapety é mais um instrumento que se soma às frentes já existentes, considerando a condição da população indígena no cenário político do Brasil. Espero que sirva de exemplo para outros coletivos", pondera.

"É necessário 'travestilizar' a política", afirma Keila Simpson, mulher negra trans, soteropolitana e Presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). "Isso significa que precisamos transgredir de tal forma a expulsar o capitalismo, o patriarcado, a política de naftalina, o corporativismo", explica a ativista.

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Novas políticas 

De acordo com Rosângela Castro, da Rede Afro LGBT, não há nenhum estudo ou dados sobre a condição das mulheres lésbicas no Brasil. Ela considera que a ausência de negras lésbicas no poder legislativo impacta diretamente na possibilidade de criar mecanismos que permitam mapear o cenário socioeconômico de mulheres homoafetivas e, assim, produzir políticas públicas que ajudem a combater violências e criar condições de vida mais digna para esse grupo. "O dado é não ter dados. A quem interessa a invisibilidade dos corpos lésbicos? É preciso fazer formação, ocupar os espaços políticos, estar presente e propor. Dizer a sociedade quem somos e não o inverso", afirma Rosângela. 

A dica foi acatada por Juliana Lúcio, 43 anos, mulher negra lésbica, mãe de uma menina de 6 anos e futura aluna da primeira turma da Escola de Formação Política Kátia Tapety. Juliana foi acolhida por Rosângela Castro, em um grupo LGBT, aos 22 anos. "O contato com ela me fez querer alçar novos voos e eu comecei a atuar em alguns grupos lésbicos", lembra. Atualmente, a turismóloga tem pretensão de iniciar uma carreira política partidária, ainda que seja para atuação local, como vereadora. "Eu quero ajudar a construir um lugar melhor para minha filha, proporcionar coisas diferentes do que eu vivi para ela. Viver numa sociedade sem rótulos, onde possamos acolher uns aos outros. Onde possa resgatar a ancestralidade e garantir o bem viver", conta a futura candidata.

 

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