Durante décadas, a Tectoy ocupou um espaço especial no coração dos jogadores brasileiros. Foi graças a ela que muita gente conheceu o Master System, o Mega Drive e até versões improváveis de clássicos da Sega totalmente adaptadas ao mercado nacional. Mas no fim dos anos 2000, a empresa resolveu sonhar mais alto: criar o seu próprio videogame.
Em 2009, a Tectoy, em parceria com a gigante dos chips Qualcomm, lançava o Zeebo: um videogame brasileiro que prometia revolucionar o mercado com uma proposta diferente de tudo o que existia na época. Sem mídia física, sem pirataria e totalmente conectado à internet móvel, ele parecia apontar para o futuro.
No papel, o projeto era brilhante; na prática, tornou-se um dos maiores tombos financeiros e estratégicos da história da indústria nacional. Continue aqui conosco do Terra Game On e relembre dessa curiosa história dos games.
Um console sem mídia física
Para entender o Zeebo, é preciso relembrar do contexto da época. Em 2009, o PlayStation 3 já estava na área, mas o PlayStation 2 ainda era o rei absoluto das salas brasileiras devido ao seu preço mais acessível e à pirataria desenfreada, que sufocava os lançamentos oficiais.
A resposta da Tectoy e da joint venture Zeebo Inc. foi audaciosa: um console sem leitor de discos ou cartuchos. Todos os jogos seriam baixados digitalmente através de uma rede de dados móveis própria, a ZeeboNet, que utilizava a tecnologia 3G.
O grande trunfo? O consumidor não pagava nada pela conexão e não precisava de internet banda larga em casa — algo raro no Brasil daquela época. Os jogos eram comprados com uma moeda virtual própria (os Z-Credits) por meio de cartões pré-pagos ou boleto bancário.
Parecia moderno. Talvez moderno até demais para 2009.
Hardware de celular na TV
Se o conceito de distribuição digital antecipava o que veríamos anos mais tarde com o Xbox Series S e o PlayStation 5 Digital Edition, o hardware do Zeebo entregava o oposto dessa modernidade.
Para manter o custo de produção baixo, o console foi construído utilizando a plataforma Qualcomm MSM7201A, essencialmente o mesmo chip que equipava os smartphones topo de linha da época. No entanto, o resultado técnico na tela da TV era desanimador.
O Zeebo tentava rodar jogos de quinta e sexta geração (como ports de Nintendo 64 e PlayStation 1), mas sofria com quedas drásticas de taxa de quadros, serrilhados excessivos e uma resolução que não conversava com as novas TVs de LCD que começavam a invadir o mercado.
Mesmo com o apoio de grandes softhouses, que adaptaram títulos de peso como Resident Evil 4, Crash Bandicoot Nitro Kart 3D, FIFA 09, Quake e Need for Speed: Carbon, as versões do Zeebo eram visivelmente bem inferiores. Trata-se, na verdade, das versões de jogos originalmente desenvolvidos para celulares da época esticadas para a tela da TV.
o Zeebo ganhou um remake exclusivo do clássico Double Dragon
Nenhum problema técnico, no entanto, machucou mais o Zeebo do que o seu preço de lançamento. Prometido como uma alternativa barata para as classes C e D, o console chegou às lojas brasileiras custando salgados R$ 499,99.
A precificação foi um erro de leitura de mercado fatal. Na mesma época, um PlayStation 2 — console com uma biblioteca de milhares de jogos consagrados e gráficos frequentemente superiores aos ports de celular do Zeebo — podia ser encontrado facilmente por valores entre R$ 300 e R$ 400. A conta simplesmente não fechava para o bolso do consumidor brasileiro.
A Tectoy ainda tentou reverter o cenário. Em menos de um ano, reduziu o preço do aparelho para R$ 399 e depois para R$ 299, além de lançar um novo controle com sensores de movimento (o Boomerang) e focar o marketing em conteúdo educativo. Mas a primeira impressão já tinha sacramentado o destino do console.
Um fracasso… mas também um projeto ousado
Em maio de 2011, pouco mais de dois anos após o lançamento, a Tectoy anunciou o fim das operações do Zeebo no Brasil e no México (o outro mercado onde o aparelho foi testado). Estima-se que o console tenha vendido apenas algumas poucas dezenas de milhares de unidades, um número irrelevante para sustentar a infraestrutura da ZeeboNet.
Existe uma certa ironia na história do Zeebo. Muitas das ideias que pareciam estranhas em 2009 acabaram se tornando comuns anos depois. Hoje vivemos em um mercado totalmente digital, com jogos, filmes e música por download, streaming, lojas online e serviços por assinatura. O conceito do Zeebo não era absurdo — ele apenas chegou cedo demais.
Ainda assim, o Zeebo merece ser lembrado não apenas como um fracasso retumbante da Tectoy, mas como um raro vislumbre de ousadia e pioneirismo tecnológico genuinamente brasileiro.