Casares deixa Conselho do São Paulo e aponta direito de defesa 'cerceado' antes de julgamento

Ex-presidente será julgado pela Comissão de Ética e tenta evitar processo com renúncia ao cargo de conselheiro

29 jul 2026 - 18h46
(atualizado às 19h21)

Júlio Casares renunciou ao cargo de conselheiro do São Paulo. O movimento é uma tentativa de evitar o julgamento pela Comissão de Ética, marcado para esta quinta-feira, dia 30. Ele é investigado por gestão temerária e atividades irregulares no seu mandato.

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Júlio Casares deixou a presidência do São Paulo no começo do ano em meio a processo de impeachment.
Júlio Casares deixou a presidência do São Paulo no começo do ano em meio a processo de impeachment.
Foto: Júlia Pereira/Estadão / Estadão

Na carta de renúncia, Casares também fala que deixará o quadro associativo do clube. Entretanto, o artigo 38 do estatuto social diz que não é aceito pedido de demissão de sócios quando o associado "for objeto de procedimento administrativo disciplinar, até a conclusão de tal procedimento".

O advogado Bruno Borragine, que representa Júlio Casares, disse ao Estadão que a renúncia se deu por o ex-presidente são-paulino sofrer um "processo de exceção". Na visão de sua defesa, Casares teve o direito de defesa "cerceado" por não conseguir documentos para compor sua representação na Comissão de Ética do Conselho Deliberativo. Segundo o advogado, a própria comissão não permitiu o acesso.

Júlio Casares deixou a presidência do São Paulo em janeiro, após ter tido seu afastamento aprovado pelos conselheiros. A renúncia, na época, encerrou o processo de impeachment, que seria concluído com uma assembleia de sócios. A tendência era de que ele fosse afastado em definitivo.

O ex-presidente é alvo de investigações do Ministério Público e do próprio São Paulo desde dezembro do ano passado, após o vazamento de um áudio que revelava um esquema clandestino de uso de camarotes no MorumBis. Casares também é alvo de um inquérito sobre supostos saques irregulares dos cofres são-paulinos.

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Desde então, as investigações já passaram por coleta de provas em operações de busca e apreensão e oitivas de suspeitos e testemunhas. Internamente, o São Paulo expulsou Mara Casares e Douglas Schwartzamann, então diretores envolvidos no esquema dos camarotes. Márcio Carlomagno, tido como braço direito de Casares, foi expulso do quadro associativo. Ele também era citado na gravação vazada.

A série de acontecimentos é tida como a maior crise institucional na história do São Paulo, presidido atualmente por Harry Massis, que havia sido eleito como vice de Casares. No fim de 2026, haverá eleição presidencial no clube, que já vive efeitos de articulação entre conselheiros para o pleito.

Veja a carta aberta de Júlio Casares anunciando sua renúncia

Tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Penso que, em uma relação, é necessário haver confiança, respeito e colaboração para uma evolução das duas partes. Por isso, o meu amor pelo São Paulo Futebol Clube nunca vai acabar, mas a minha permanência no quadro associativo termina agora, e isso se dá com respeito e amparo na liberdade de desassociação (artigo 5º, XX da Constituição Federal).

Sei que muitos podem pensar que esse é o caminho mais fácil, ou que se trata de uma estratégia para não enfrentar um problema, ou admissão de culpa. Mas não é isso. Foram dias e dias pensando para tomar essa difícil decisão. Eu tenho a consciência tranquila de que me dediquei ao máximo para o São Paulo Futebol Clube. Aliás, os fatos estão aí e vou tirar qualquer dúvida por meio dos fóruns adequados e imparciais.

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Os oportunistas me abandonaram e aqueles que são interessados em perpetuar o caos e uma guerra pelo poder vão, como sempre, me atacar. Porém, nada melhor do que ter a verdade como aliada.

Como não poderia ser diferente em um ambiente de perseguição política, agora tive os meus direitos totalmente cerceados. Requisitei inúmeros documentos que comprovariam a legitimidade do meu atuar enquanto presidente do São Paulo Futebol Clube, todavia, de maneira imotivada e por meio de afirmações inverídicas, foi-me injustificadamente negado esse direito tão básico (o acesso à documentos públicos da gestão do Clube).

Em nome de uma briga política, não foi aberta a possibilidade, que é constitucional, para a ampla defesa e o sagrado direito ao contraditório, o mínimo de garantias que a nossa Constituição proclama. Tais documentos provam a minha inocência, sem os quais fico impossibilitado de exercer a minha defesa e produzir provas.

Ou seja, estou sendo processado e, ao mesmo tempo, me foi impedido o básico: ter acesso a documentos que suportariam a minha defesa e demonstram a idoneidade do meu comportamento enquanto presidente do São Paulo Futebol Clube.

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A instituição e a comissão de ética não disponibilizaram esses essenciais documentos que estão arquivados no Clube, fazendo dos procedimentos internos um "Tribunal de Exceção". Não posso deixar de lembrar que a comissão de ética que apura as representações, hoje já está em sua terceira formação, e essa instabilidade já provocou indagações públicas. Só olhar as inúmeras matérias jornalísticas a respeito.

Essa disputa insana pelo poder, tenta apagar a minha história no clube, que começou como sócio do São Paulo na década de 90. Minha vida no São Paulo iniciou como busca do que a instituição sempre representou para tantas famílias: convívio, lazer e o orgulho de pertencer ao Clube do meu coração.

Meus filhos cresceram frequentando o COD (Centro de Orientação Desportiva). Depois participaram de várias outras modalidades esportivas com a presença de pais e amigos, e assim construímos memórias lindas que carrego até hoje.

Atuei como voluntário no marketing, fui conselheiro, com recordes de votação, e tive a honra de ocupar a presidência.

Em cinco anos de gestão, disputamos cinco títulos e ganhamos três, incluindo uma conquista inédita, superando rivais como Palmeiras e Flamengo, em decisões memoráveis. Com o apoio da torcida, quebramos recordes de público no MorumBis, acabamos com um amargo jejum de títulos e ganhamos clássicos, até mesmo fora de casa — como quando tivemos o primeiro resultado positivo em Itaquera.

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Vencemos ainda uma Copinha com o sub-20, além do bicampeonato da Copa do Brasil da modalidade, com o comando primoroso do técnico Allan Barcelos, que, infelizmente, não está mais no SPFC. Isso porque, para mim, o trabalho de excelência na formação sempre reputei como fundamental.

Trabalhei muito para ajudar a viabilizar obra do Córrego Antonico. Essa construção de dois gigantes piscinões, que tanto vai contribuir para o Clube, para a região e para a própria infraestrutura do nosso Estádio. Foram diversas reuniões com o governo do Estado e com a Prefeitura da nossa cidade para conseguirmos ver a obra ter início. Ela caminha para sua finalização em 2027.

Acreditava que, com Crespo, que nos deu o título Paulista em 21, teríamos a chance de obter bons resultados esportivamente neste ano. Allan Barcelos e o trabalho da base também poderiam nos render bons frutos. Era o que projetávamos para 2026.

Promovemos melhorias no clube social e obtivemos, apesar de não ter sido aprovado por questões políticas, um balanço em 2025 com a receita recorde superior a R$ 1 bilhão, superávit de R$ 56 milhões e redução da dívida de R$ 110 milhões. Sendo que os balanços de anos anteriores foram amplamente aprovados, até mesmo em caso de déficit.

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Situações como essa do balanço são reflexo de uma guerra fratricida, marcada por perseguições, disputas políticas sobrepostas a qualquer interesse institucional, com ataques, ilações, injúrias, calúnias e difamações impulsionadas pelas redes sociais, atingindo a reputação de uma família digna, com conceito alicerçado no trabalho. Com essa decisão, também quero deixar claro que o mais importante para mim é o bem-estar do Clube, e não o poder ou interesses políticos.

Até mesmo quando estive fora do clube por causa de internação da Covid-19, em 2021, discussões políticas e brigas para tentar assumir o poder de qualquer maneira já surgiram. Ali, começávamos a ter os primeiros sinais de que a sanha pelo poder fala mais alto que o ser humano e a instituição.

Vou esclarecer a minha total inocência de falsas acusações, que serão revisitadas oportunamente, sempre com respeito às autoridades policiais, integrantes do Ministério Público e do Poder Judiciário.

Agradeço de coração às centenas de sócios do Clube que sempre me apoiaram, até com votações históricas que atingiram recordes. Aqueles que conhecem a minha história na instituição sabem que esse clima de tensão, — cuja pressão também atinge funcionários comprometidos e causa instabilidade em todo o sistema com narrativas injustas —, traz dano profundo para mim e para os meus familiares, sem contar a própria saúde, que naturalmente sofre abalo e necessita de prioridade absoluta.

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