Quando parece que todo mundo treina, o cuidado com o corpo pode virar cobrança

Psicóloga analisa como publicações sobre exercícios e consumo de produtos de beleza podem alimentar comparações que desconsideram as condições de vida de quem acompanha

1 out 2026 - 17h10
(atualizado às 17h10)
Resumo
Nas redes sociais, a exibição de rotinas fitness gera uma falsa ideia de perfeição, tornando o autocuidado uma fonte de cobrança e insuficiência. Segundo a psicóloga Maria Klien, o público compara sua vida à soma de fragmentos alheios, ignorando fatores como renda, tempo e contexto. Embora dados do Ministério da Saúde mostrem que a prática regular não reflete a maioria da população, a busca por espelhar padrões irreais desgasta a autoestima e reduz a saúde a uma mera exibição de disciplina.
Maria Klien
Maria Klien
Foto: Divulgação / Esporte News Mundo

No meio dos atletas e praticantes de atividades esportivas, a impressão de que todos encontraram tempo para correr, frequentar a academia e preparar as refeições pode acompanhar quem abre as redes sociais entre uma obrigação e outra. Na sequência de publicações, o treino de uma pessoa se soma à alimentação de outra e à aparência de uma terceira, compondo uma rotina que talvez ninguém consiga manter por inteiro. Para a psicóloga Maria Klien, é nessa combinação que o conteúdo sobre saúde pode se transformar em uma medida de insuficiência para quem está do outro lado da tela.

"Você acompanha fragmentos de várias vidas, mas pode acabar cobrando de si a soma de tudo aquilo. Quer ter a disposição de um, o corpo de outro, a organização de alguém que está em condições que você desconhece. Aos poucos, deixa de considerar o esforço que já faz para sustentar o próprio cotidiano, porque ele parece pequeno diante do que vê. Essa comparação merece atenção quando começa a apagar o reconhecimento da sua experiência", afirma.

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Os dados ajudam a dimensionar a distância entre essa percepção e os hábitos da população. Segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, 42,3% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal alcançavam, em 2024, o equivalente a pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada no lazer. Em 2009, eram 30,3%. Houve crescimento nesse período, mas o resultado está longe de representar uma rotina compartilhada por todos. O indicador tampouco permite classificar os demais como sedentários, pois há movimento no trabalho e nos deslocamentos.

Uma publicação também não permite conhecer a frequência, a duração ou as circunstâncias de uma prática. Quem se exercita pode nunca registrar o momento, enquanto alguém que compartilha cada treino ocupa mais espaço na percepção de seus seguidores. Essa diferença de visibilidade, por si só, não comprova aumento das postagens nem encenação. Para Maria Klien, a discussão pode avançar sem presumir que as pessoas estejam mentindo, observando o que fica fora da imagem e como o público preenche essas lacunas.

A psicóloga estende essa reflexão ao mercado de bem-estar, sobretudo quando a divulgação de um produto aparece associada à aparência de quem o anuncia. Na avaliação dela, atribuir pele, cabelo ou formato corporal a um único hábito pode ocultar uma combinação de recursos, entre acompanhamento profissional, procedimentos e condições de vida que não são apresentados na mesma proporção.

"Quando um resultado é mostrado sem as condições que participaram dele, quem acompanha pode acreditar que basta comprar o mesmo produto ou repetir aquele ritual. Se não consegue chegar àquela aparência, começa a procurar uma falha em si. É uma experiência muito exaustiva, porque a pessoa investiu dinheiro, expectativa e confiança, mas está avaliando o próprio corpo a partir de uma história que recebeu pela metade", analisa.

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A psicóloga Maria Klien chama atenção para a possibilidade de o cuidado se tornar uma tarefa de apresentação. O exercício passa a ser pensado também pelo registro que vai render, a refeição pela imagem que comunica e o descanso pela necessidade de demonstrar equilíbrio. Compartilhar uma conquista pode fazer parte da satisfação de tê-la; a questão, segundo a psicóloga, é perceber quanto a aprovação começa a orientar essas escolhas. "Há um desgaste em precisar parecer bem até nos momentos em que se está tentando encontrar uma maneira de ficar melhor", observa.

Ao abordar o tema, ela propõe que se recoloquem na conversa aspectos que uma fotografia não esclarece, como jornada de trabalho, renda, responsabilidades de cuidado e acesso a espaços para se movimentar. Considerar essas condições permite discutir saúde sem reduzir a rotina de alguém a uma prova de disciplina. Para quem produz conteúdo, isso inclui explicar o contexto de um resultado e os limites do que um produto pode oferecer, dando ao público elementos para compreender o que está vendo.

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