Fábio, a Muralha da China tricolor 

Aos 45 anos, o goleiro atravessa gerações para se consolidar um verdadeiro monumento vivo a favor da história do Fluminense

19 ago 2026 - 14h29
A noite cai em Mendoza, o Rivadavia cai em Mendoza. Menos Fábio… –
A noite cai em Mendoza, o Rivadavia cai em Mendoza. Menos Fábio… –
Foto: Marcelo Gonçalves / Fluminense / Jogada10
Marcelo Gonçalves/Fluminense - Legenda: Fábio. Ou seria a Muralha da China? Difícil separar um do outro
Foto: Jogada10

Por Flávio Almeida

Existem jogadores que desafiam o tempo. E Fábio parece ter feito um acordo com ele.

Publicidade

Aos 45 anos, o goleiro do Fluminense voltou a ser decisivo em uma noite de Libertadores. Diante do Independiente Rivadavia, em Mendoza, defendeu duas cobranças na disputa de pênaltis e conduziu o Tricolor às quartas de final da competição.

Mas talvez a melhor maneira de explicar o que Fábio representa hoje seja olhar para o outro lado do mundo e voltar alguns milhares de anos no tempo.

Imagine, assim, a China do século III antes de Cristo. O território ainda carregava as marcas do período dos Estados Combatentes, uma época de guerras constantes entre diferentes reinos. Havia fronteiras, exércitos e, portanto, ameaças por todos os lados. E, diante da necessidade de proteção, os chineses começaram a erguer fortificações.

A Grande Muralha, portanto, não nasceu de uma única construção, em um único momento. Ela foi sendo formada, ampliada e reforçada ao longo de NOVE séculos. Por volta de 220 a.C., o imperador Qin Shi Huang determinou a ligação de antigas fortificações para, assim, criar um sistema defensivo contra invasões vindas do norte. Séculos depois, outras dinastias continuaram o trabalho, especialmente os Ming, entre 1368 e 1644.

Publicidade

É justamente aí que a história encontra Fábio.

Porque Fábio também não foi construído em uma temporada.

Ele é resultado de décadas de futebol.

Cada defesa difícil, cada pênalti enfrentado, cada erro corrigido, cada título conquistado, cada derrota suportada e cada noite em que precisou salvar sua equipe funcionaram como uma pedra acrescentada à sua própria muralha. Aos poucos, o goleiro foi acumulando experiência até transformar aquilo que um dia era apenas talento em uma fortaleza.

A Grande Muralha atravessou imperadores.

Fábio atravessou gerações de jogadores.

Quando ele começou a carreira profissional, muitos dos adversários que hoje enfrenta sequer haviam nascido. Quando disputou suas primeiras partidas, o futebol era outro. As luvas eram outras. Os treinamentos, porém, eram outros. A preparação física era outra. O jogo mudou várias vezes diante dos seus olhos.

Publicidade

Ele permaneceu.

E essa talvez seja a parte mais impressionante da história.

A muralha chinesa foi construída para resistir às invasões. Fábio construiu a própria carreira para resistir ao futebol. E, assim como a construção chinesa precisou ser constantemente reparada e reforçada para continuar cumprindo sua função, o goleiro também precisou se reinventar para permanecer no mais alto nível.

Aos 45 anos, ele já não depende apenas dos reflexos que possuía aos 20.

Depende da leitura.

Do posicionamento.

Da experiência.

Da capacidade de antecipar o movimento do atacante.

Publicidade

E, principalmente, da tranquilidade de quem já esteve naquele lugar muitas vezes.

Na noite de Mendoza, aliás, isso ficou evidente. Quando a classificação chegou aos pênaltis, Fábio não precisou ser apenas um goleiro. Precisou ser uma fortaleza psicológica. Defendeu duas cobranças e transformou a tensão em classificação.

Há, entretanto, outra coincidência histórica interessante.

A Grande Muralha é, aliás, frequentemente apresentada como uma construção única, monumental, erguida de uma vez para proteger a China. Não foi assim. Sua história, porém, é muito mais complexa: diferentes povos e dinastias construíram diferentes trechos, em épocas diferentes, com materiais e estratégias diferentes.

Com Fábio acontece algo parecido.

O goleiro que vemos hoje é a soma de vários Fábios.

Existe o jovem que começou a carreira. O goleiro que aprendeu com os próprios erros. O campeão. O veterano. O jogador que chegou ao Fluminense e conquistou a Libertadores. E existe, agora, o Fábio de 45 anos, recordista e sobrevivente de uma era inteira do futebol. Ele é todos eles ao mesmo tempo.

Publicidade

Por isso, chamá-lo simplesmente de "paredão" parece pouco.

Fábio é uma muralha.

E não qualquer muralha.

É uma muralha que foi sendo construída enquanto o futebol mudava ao seu redor.

Durante décadas, tornou-se popular a ideia de que a Grande Muralha da China seria a única construção humana capaz de ser vista da Lua. A imagem, porém, é bonita demais para desaparecer: uma obra humana tão gigantesca que poderia ser identificada a centenas de milhares de quilômetros de distância.

Só que não é verdade.

A Nasa já explicou que a Grande Muralha não pode ser vista da Lua a olho nu. Mas talvez possamos guardar o mito por mais alguns segundos.

Publicidade

Porque existe uma muralha que, essa sim, o futebol consegue enxergar de longe.

Ela está no gol do Fluminense.

E tem 45 anos.

Um monumento ainda em atividade.

Siga nosso conteúdo nas redes sociais: Bluesky, Threads,  Twitter, Instagram e Facebook

Fique por dentro das principais notícias de Futebol
Ativar notificações