Duilio Monteiro Alves abre mão de ser sócio do Corinthians: 'Fizeram da minha vida um inferno'

Com possível votação de expulsão à vista, conselheiro vitalício e ex-presidente do clube publica carta aberta em que diz se retirar de forma definitiva do quadro associativo da agremiação

28 mai 2026 - 19h01
(atualizado às 19h15)

Duílio Monteiro Alves, ex-presidente do Corinthians, publicou uma carta aberta nesta quinta-feira, 28, para comunicar que decidiu renunciar ao título de sócio remido do clube. No texto, ele diz que entrega o posto de conselheiro vitalício e se retira "de forma definitiva, do quadro de sócios do Parque São Jorge, para que o Corinthians possa, enfim, cuidar do presente e do futuro".

Publicidade

O cartola é acusado pelo Ministério Público de fazer uso indevido do cartão corporativo do clube, assim como Andrés Sanchez, expulso em votação do Conselho Deliberativo na última segunda-feira, 25.

Ele menciona a acusação em um trecho da carta, em que diz ter feito uso "estritamente institucional" do cartão, com "média inferior a R$ 35,00 por dia". Também diz que "transformaram atos administrativos ordinários em narrativas criminais, sem o devido contexto técnico e contábil."

"Em 2023, eu saí da presidência do Corinthians pela porta da frente, com todas as contas aprovadas, inclusive no último ano, com o balanço fechado e apresentado por opositores ferrenhos. Fizeram da minha vida um inferno, e eu caminho por ele, com a certeza de que tudo vai ser esclarecido", afirma em outro trecho do comunicado.

O dirigente também faz uma série de questionamentos sobre o futuro do Corinthians e expressa categoricamente que "o modelo associativo não tem mais condições de conduzir um gigante de 35 milhões de torcedores". Sugere, inclusive, a possibilidade de que o clube se torne uma SAF.

Publicidade

"Multiplicam-se leituras viciadas e casuísticas de um estatuto velho, que fazem de tudo para não deixar que seja modernizado. A ordem agora é expulsar todo e qualquer opositor antes da próxima eleição", escreve. "A pergunta que fica, para quem presta atenção, já não é apenas se o Fiel Torcedor terá ou não direito a voto. A pergunta é mais dura: o Corinthians será uma SAF com um dono sem voto ou será um clube controlado por interventores jurídicos, também sem voto?"

Relembre o caso do cartão corporativo

De acordo com as investigações da Promotoria de São Paulo, Duilio usou o cartão corporativo do em estabelecimentos comerciais como freeshops, restaurantes, hotéis, salão de cabeleireiro, loja náutica e até mesmo em um site de venda de roupas. De acordo com o MP, as despesas contabilizam R$ 41.822,62.

Além do valor que está sendo cobrado, Cassio Conserino, promotor que conduz o caso, pede que o presidente corintiano pague o valor de R$ 31.366,96 a título de indenização ao clube do Parque São Jorge por danos materiais. Em março, ele se tornou tornou réu pelo crime de apropriação indébita.

Em abril, a defesa do ex-presidente corintiano pediu o trancamento da investigação do sobre supostas irregularidades relacionadas ao uso de cartões corporativos e despesas da presidência do clube. A Corte, entretanto, negou o pedido do ex-dirigente, que comandou o alvinegro paulista entre 2021 e 2023.

Publicidade

Leia a carta aberta de Duilio Monteiro Alves:

Muitos vão comemorar este que considero meu último gesto como sócio do Corinthians.

Em breve, porém, as pessoas racionais perceberão que não há nada a festejar.

Minha renúncia ao título de sócio remido e ao meu espaço como conselheiro vitalício poderá soar como sonho realizado para muitos. Para alguns, talvez até como música.

Não foram poucos os que apontaram que minha expulsão, assim como a de outros, seria a salvação do Corinthians.

Amanhã, no entanto, o sol nascerá, e todos terão de se fazer uma pergunta: quem será o próximo que deveremos expulsar? Ou vocês acham que acabou?

A verdade é que o Corinthians entrou na era da guerra nuclear. Em vez de unir o clube, algo que tentei fazer, não apenas com palavras, mas de forma efetiva, nomeando inclusive opositores como diretores —, o que se vê hoje é um campo minado político, jurídico, midiático e institucional, do qual não pretendo mais fazer parte.

Publicidade

Por tudo isso, o modelo associativo do Corinthians já não tem mais condições de conduzir um gigante de 35 milhões de torcedores. Multiplicam-se leituras viciadas e casuísticas de um estatuto velho, que fazem de tudo para não deixar que seja modernizado. A ordem agora é expulsar todo e qualquer opositor antes da próxima eleição.

A pergunta que fica, para quem presta atenção, já não é apenas se o Fiel Torcedor terá ou não direito a voto. A pergunta é mais dura: o Corinthians será uma SAF com um dono sem voto ou será um clube controlado por interventores jurídicos, também sem voto?

O Corinthians foi o clube em que me criei. Fui apresentado com o título de sócio remido pelo meu avô, Orlando Monteiro Alves, ainda na maternidade, no dia do meu nascimento e respirei os ares da Democracia Corinthiana graças ao meu pai, Adilson Monteiro Alves. Ganhei Paulistas, Brasileiro, Libertadores, Mundial e Recopa, como diretor e fui o presidente que me comprometi a ser. Dediquei muitos anos à vida política do clube, mas jamais imaginei que o custo pessoal, na saúde mental e na física seriam tão caros, a mim e a minha família. É hora, porém, de buscar alguma paz.

A guerra política do Corinthians deixou muita gente cega. O clube se tornou ingovernável. E, em vez de debater regras, responsabilidades e mecanismos de controle, preferiram criminalizar práticas próprias da vida de uma empresa que fatura R$ 1 bilhão, como renegociação de dívidas e o uso de cartão corporativo, no meu caso, com o valor total utilizado nos 3 anos de gestão com média inferior a R$ 35,00 por dia e com uso estritamente institucional, ou seja, transformaram atos administrativos ordinários em narrativas criminais, sem o devido contexto técnico e contábil.

Publicidade

Com minha saída, talvez muita gente finalmente abra os olhos para os três grandes problemas realmente preocupantes do presente, que tantos fingem não enxergar:

  1. A reforma tributária tornará a vida dos clubes associativos mais cara do que a das SAFs.
  2. A dívida que estava controlada em 2023, com três superávits sucessivos nos anos da minha gestão, foi catapultada em mais R$ 1 bilhão nos anos Augusto/Osmar, com aprovação de gente que agora deseja se candidatar.
  3. E a agência de fair play financeiro implementada pela CBF prevê penas como transfer ban e até rebaixamento para clubes que contratam sem pagar — ainda mais para aqueles que se comportam como se não precisassem pagar.

Minha retirada do quadro associativo não resolve nada disso. Mas ao menos comprova que não tenho vaidade, estou desapegado e disposto a ver o Corinthians discutir, de fato, o seu futuro.

Em 2023, eu saí da presidência do Corinthians pela porta da frente, com todas as contas aprovadas, inclusive no último ano, com o balanço fechado e apresentado por opositores ferrenhos.

Fizeram da minha vida um inferno, e eu caminho por ele, com a certeza de que tudo vai ser esclarecido.

Hoje, tenho dúvidas se os próximos presidentes conseguirão cumprir três anos de mandato. Muito menos com três superávits ano a ano, recorde de faturamento e controle responsável da dívida, como prometi e fiz.

Publicidade

Não me arrependo de nada. E me defenderei na Justiça.

O resto, eu deixo para o tempo.

Portanto, renuncio ao meu título de sócio remido, entrego meu lugar como conselheiro vitalício e membro do CORI e me retiro, de forma definitiva, do quadro de sócios do Parque São Jorge, para que o Corinthians possa, enfim, assim espero, cuidar do presente e do futuro.

Vai Corinthians. Sempre.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se