Reunião sobre comércio do G-20 termina com avanço tímido e dissenso entre países

Os países membros não alcançaram consenso em três dos quatro assuntos propostos pelo país anfitrião, os Estados Unidos, em dois dias de reuniões em Milwaukee

1 out 2026 - 20h43
(atualizado às 21h05)
Resumo
Sob a presidência dos EUA, a reunião de comércio do G-20 terminou em dissenso e sem declaração conjunta. Dos quatro tópicos propostos pelo governo americano, houve consenso apenas contra o uso de alimentos como arma de coerção econômica. Temas como excesso de capacidade produtiva, regras da OMC e trabalho forçado geraram atritos com China e Brasil. A condução unilateral de Donald Trump e o veto à África do Sul evidenciaram as divisões do grupo antes da cúpula de líderes em Miami.

ENVIADA ESPECIAL A MILWAUKEE (WISCONSIN) - A reunião ministerial sobre comércio do G-20 terminou com dissenso e resultados tímidos, como esperavam analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast. Em dois dias de reuniões em Milwaukee, os países membros não alcançaram consenso em três dos quatro assuntos propostos pelo país anfitrião, os Estados Unidos.

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Reuniões como a do comércio nesta semana, de finanças em abril e agosto, e de energia em setembro precedem a cúpula de líderes na Flórida. Em dezembro, o presidente Donald Trump receberá, em Miami, os presidentes ou primeiros-ministros dos países participantes para concluir o um ano de trabalho. A falta de consensos ao longo dos 12 meses reduz a resolutividade do grupo e emagrece o principal evento do calendário do G-20.

O resultado em Milwaukee não chega a ser surpreendente, na avaliação de um participante. Uma pessoa a par das discussões relatou que a "mão pesada" na condução das discussões não abria espaço para uma declaração conjunta que agradasse a todos. A agenda proposta pelo anfitrião ilustraria o unilateralismo com que o país tem conduzido seus negócios.

Sem dar continuidade à agenda construída nas últimas presidências do G-20, como a brasileira em 2024, o embaixador Jamieson Greer, que chefia o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), havia proposto o debate sobre quatro tópicos: a eliminação do trabalho forçado nas cadeias de suprimentos globais, a atualização do princípio da Nação Mais Favorecida (MFN, na sigla em inglês), a denúncia da instrumentalização do comércio de alimentos e o enfrentamento do excesso estrutural de capacidade e produção.

Em qual das quatro questões houve consenso

Desses quatro temas, o embaixador Greer conseguiu consenso apenas para a questão dos alimentos. "Após dias de discussões e uma disposição por parte dos membros em agir, estamos satisfeitos por ter alcançado um consenso sobre a declaração do G-20 sobre a utilização de alimentos como arma por meio de ações comerciais coercitivas. Este é um passo importante para garantir que os produtos agrícolas não sejam usados como ferramenta de coerção econômica ou política", declarou Greer antes de abrir a entrevista coletiva desta tarde para as perguntas da imprensa.

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No tema do excesso de capacidade produtiva, participantes entenderam que o alvo principal da pauta era a China, e o debate não andou. A delegação chinesa se pronunciou na reunião ministerial para esclarecer que discordava da colocação. Outros países viram problemas na pauta, questionando o conceito dos EUA para o tema e, como afirmou, ao Estadão/Broadcast, Márcio Elias Rosa, que comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), houve questionamentos sobre como e em que base de dados a capacidade instalada dos países seriam supervisionada.

Um desconforto semelhante entre os países - e que resultou na ausência de uma declaração conjunta do G-20 - foi sobre o tema da eliminação do trabalho forçado nas cadeias de suprimentos globais. Uma parte do tarifaço americano contra produtos brasileiros decorre da alegação pelo governo Trump de que o Brasil tem comércio com países que utilizam trabalho forçado, fato negado pelo governo brasileiro. "O Brasil é signatário de todos tratados internacionais relativos a trabalho", afirmou o ministro do Mdic, ressaltando que a alegação dos USTR para a sobretaxa é falsa e não é baseada em nenhuma evidência.

A proposta de atualizar o princípio do MNF nem chegou a ir para a etapa de busca de um consenso, segundo Greer. Os países se opuseram a discutir o assunto, argumentando que o G-20 não é o fórum adequado para esse debate e que, se fosse o caso de discutir nesse grupo, a participação da Organização Mundial do Comércio (OMC), guardiã desse que é um dos princípios do multilateralismo, seria fundamental.

Em sua declaração à imprensa, Greer contra-argumentou, alegando que o G-20 é representativo o suficiente para discutir esse tema. "Os membros do G-20 representam aproximadamente 85% do Produto Interno Bruto (PIB) global e dois terços da população mundial. Portanto, é um fórum que pode ser usado se os membros estiverem dispostos a identificar e abordar problemas globais. Mas, novamente, o G-20 é um fórum que realmente só é tão relevante e eficaz quanto os membros o fazem", declarou o embaixador americano. Ele ainda pontuou que os membros da OMC já "minam o princípio da MFN na prática".

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G-20, não; na prática, G-19

O "unilateralismo" da presidência americana no G-20 em 2026, como classificou uma pessoa que acompanha de perto as negociações e foi ouvida sob a condição de anonimato, começou antes mesmo de os EUA assumirem o posto. No ano passado, o governo Trump demonstrou que rejeitava a interlocução com a África do Sul, alegando alguns motivos, entre preconceito do governo sul-africano com os Afrikaners.

Por conta disso, em novembro, cancelou a participação americana na cúpula de líderes em Johanesburgo em 2025, quando a África do Sul presidiu o G-20. Neste ano, bloqueou a participação sul-africana do calendário do G-20, negando credenciais para ministros entrarem nos Estados Unidos.

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