Produção industrial no País cai 0,6% em agosto, abaixo do esperado

Analistas ouvidos pelo 'Projeções Broadcast' esperavam desde queda de 0,5% até alta de 0,5%, com mediana positiva de 0,1%; em 12 meses, produção acumula alta de 0,60%

2 out 2026 - 11h46
Resumo
A produção industrial brasileira caiu 0,6% em agosto ante julho, resultado pior que o esperado pelo mercado, segundo o IBGE. A retração foi disseminada por 16 dos 25 ramos pesquisados, puxada principalmente pelo setor de fumo (-23,4%), além de farmacêuticos e indústrias extrativas. Com o recuo mais intenso para o mês desde 2022, o setor acumula perda de 3,4% em quatro meses, refletindo o desaquecimento da demanda e os impactos da política monetária restritiva no consumo e nos investimentos.

RIO E SÃO PAULO - A produção industrial caiu 0,6% em agosto ante julho, na série com ajuste sazonal, divulgou nesta sexta-feira, 2, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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O resultado veio mais intenso do que o piso das expectativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam desde uma queda de 0,5% até alta de 0,5%, com mediana positiva de 0,1%.

Em relação a agosto de 2025, a produção caiu 1,20%. Nessa comparação, sem ajuste, as estimativas variavam de um recuo de 1% até alta de 1,8%, com mediana estável (0,0%).

No acumulado do ano, que tem como base de comparação o mesmo período do ano anterior, a indústria teve uma alta de 0,80%. Em 12 meses, a produção acumula elevação de 0,60%.

Queda da indústria em agosto foi a mais intensa para o mês desde agosto de 2022, segundo o IBGE
Queda da indústria em agosto foi a mais intensa para o mês desde agosto de 2022, segundo o IBGE
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Na passagem de julho para agosto, 16 dos 25 ramos industriais pesquisados pelo IBGE registraram queda. As influências negativas mais importantes foram assinaladas por produtos do fumo (-23,4%), que interromperam quatro meses seguidos de expansão, produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-5,5%) e indústrias extrativas (-0,7%), com o quarto resultado negativo consecutivo.

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Segundo André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) do IBGE, o forte recuo de produtos do fumo chama atenção pelo contraste com o comportamento recente do setor. No período de quatro meses anteriores, a atividade havia acumulado alta de 32,5%. "A queda de agosto praticamente elimina esse ganho", disse.

Ele acrescentou que, embora a atividade pese cerca de 1% na indústria, o impacto negativo em agosto foi relevante "em função da magnitude do recuo", reforçando a contribuição do segmento para o desempenho do setor industrial como um todo.

O gerente observa que movimentos bruscos são relativamente comuns nessa atividade, que já havia registrado uma retração semelhante em outubro do ano passado e um recuo ainda mais intenso em maio de 2024 (-27,9%).

A atividade de produtos do fumo se divide em duas categorias que apresentaram resultados relevantes na margem: folhas de fumo processado (bens intermediários) e cigarros (bens não duráveis). Em agosto, ambas registraram perdas.

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Entre os fatores que podem ter influenciado esse desempenho, Macedo menciona a possibilidade de "algum tipo de antecipação de safra", além de eventuais impactos climáticos em agosto. Ele ponderou, porém, que não é possível afirmar que o reajuste do cigarro a partir de 1º de agosto seja, por si só, a justificativa do resultado, destacando que o recuo reflete a devolução de ganhos acumulados anteriormente.

O IBGE apontou que os demais impactos negativos relevantes sobre o total da indústria vieram de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-4,0%), produtos de borracha e de material plástico (-1,8%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-3,3%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-0,4%), produtos de metal (-1,6%) e outros equipamentos de transporte (-2,9%).

Já entre as nove atividades que mostraram avanço na produção em agosto de 2026, a de produtos alimentícios (1%) exerceu a principal influência positiva, com a segunda taxa positiva mensal consecutiva. O IBGE também destacou as contribuições positivas dos setores de produtos diversos (8,4%), de produtos químicos (0,9%) e de metalurgia (0,8%).

Todas as grandes categorias pesquisadas recuaram no mês. Bens de capital caíram 0,6%, bens intermediários recuaram 0,2%) e bens de consumo tiveram queda de 1,5%, com recuo de 1% nos bens duráveis e de 1,7% no semi e não duráveis.

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Queda no período é a mais intensa desde 2022

A queda em agosto foi a mais intensa para o mês desde agosto de 2022 (-1,4%), segundo Macedo. Entre maio e agosto, a indústria acumulou uma perda de 3,4%. O dado é resultado das quedas de 1% em maio, 1,6% em julho, alta de 0,1% em julho e o recuo de 0,6% em agosto. O resultado, segundo Macedo, elimina parte do ganho de 4,3%, acumulado entre janeiro e abril.

"Há predominância de comportamento negativo no setor industrial nos últimos quatro meses, com um perfil disseminado de taxas negativas. Claramente há perda de dinamismo do setor industrial, especialmente no último quadrimestre", disse em entrevista à imprensa para comentar os resultados.

Questionado sobre a influência de fatores macroeconômicos no resultado, o técnico reconheceu que a política monetária mais restritiva impacta diretamente a demanda doméstica, com o aumento da inadimplência e o endividamento das famílias e empresas, além de fazer com que as companhias adiem decisões de investimentos. "Toda essa conjuntura ajuda no entendimento do comportamento do setor industrial nos últimos meses", disse.

Indústria está acima do patamar pré-pandemia

A produção industrial brasileira encontra-se 1,3% acima do patamar registrado antes da pandemia, em fevereiro de 2020, segundo Macedo. A distância ante fevereiro de 2020 chegou ao pico de 4,6% em abril de 2026. Com os resultados negativos registrados a partir de maio, no entanto, a produção industrial foi se aproximando do patamar registrado antes da emergência sanitária. Em maio, a indústria ficou 3,5% acima do pré-pandemia. Em junho e julho, a distância passou para 1,9%.

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"Antes do resultado de agosto, o saldo era mais positivo. Com a entrada dos resultados negativos a partir de maio, o distanciamento foi diminuindo mês a mês", disse Macedo.

Entre maio e agosto, a indústria geral acumulou uma perda de 3,4%. O resultado, segundo Macedo, elimina parte do ganho de 4,3%, acumulado entre janeiro e abril. Em relação ao patamar mais elevado da indústria, registrado em maio de 2011, o resultado de agosto de 2026 está 15,6% abaixo.

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