A produção industrial brasileira caiu 0,8% em setembro ante agosto, segundo o IBGE, ficando apenas 0,2% acima do patamar pré-pandemia e 16,5% abaixo de seu pico histórico. O recuo foi disseminado entre a maioria das categorias econômicas, puxado principalmente por bens de capital (-1,9%). A política monetária restritiva, marcada por juros altos e crédito encarecido, aliada a incertezas do cenário e chuvas pontuais, explica a desaceleração, que traz viés de baixa para o PIB do 3º trimestre.
RIO - A produção industrial caiu 0,8% em setembro ante agosto, na série com ajuste sazonal, divulgou nesta quinta-feira, 5, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado veio perto do piso das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que era de -0,9%. O teto das estimativas era de alta de 0,3% e a mediana, de baixa de 0,3%.
Em relação a setembro de 2025, a produção caiu 2,5%. No acumulado do ano, que tem como base de comparação o mesmo período do ano anterior, a indústria teve uma alta de 0,4%. Em 12 meses, a produção acumula elevação de 0,2%.
A produção industrial de bens de capital caiu 1,9% em setembro ante agosto. Na comparação com setembro de 2025, o indicador recuou 4,9%. Os dados fazem parte da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF). No acumulado em 12 meses, houve redução de 5,1% na produção de bens de capital.
Em relação aos bens de consumo, a produção registrou queda de 0,8% na passagem de agosto para setembro. Na comparação com setembro do ano passado, houve retração de 4,8%. No acumulado em 12 meses, a produção de bens de consumo caiu 0,1%.
Na categoria de bens de consumo duráveis, a produção aumentou 0,7% em setembro ante agosto. Em relação a setembro de 2025, houve alta de 3,8%. Em 12 meses, a produção subiu 1,1%.
Entre os semiduráveis e os não duráveis, houve redução de 1,2% na produção em setembro ante agosto. Na comparação com setembro do ano anterior, a produção recuou 6,3%. A taxa em 12 meses ficou negativa em 0,4%.
Para os bens intermediários, o IBGE informou que a produção caiu 0,7% em setembro ante agosto. Em relação a setembro do ano passado, houve queda de 1,3%. No acumulado em 12 meses, os bens intermediários tiveram crescimento de 0,7%.
Política monetária restritiva
A política monetária restritiva, com juros em patamares elevados, é um dos principais fatores por trás da perda de dinamismo da indústria, na avaliação de André Macedo, gerente da PIM-PF.
Segundo ele, o custo mais alto do crédito restringe o acesso de famílias e empresas ao financiamento, afeta o consumo e leva ao adiamento de investimentos.
"A taxa de juros mais elevada tem impacto direto sobre as condições do crédito, com o seu encarecimento, restringindo esse acesso ao crédito, com impacto direto também no nível de renda das famílias por conta do alto nível de inadimplência. Por parte das empresas, também há o efeito de adiarem suas decisões de investimento", afirmou.
O gerente também apontou que as incertezas relacionadas ao ambiente externo e ao cenário eleitoral podem ter contribuído para o desempenho industrial. Segundo Macedo, esses fatores vêm trazendo incertezas para a produção doméstica ao longo do ano e ajudam a explicar o movimento de desaceleração observado desde o início do segundo quadrimestre.
Macedo ponderou que fatores pontuais também afetaram a produção em setembro, especialmente as condições climáticas. O maior volume de chuvas prejudicou segmentos como o de derivados do petróleo e biocombustíveis e o de produtos alimentícios, em função dos impactos sobre o processamento da safra de cana-de-açúcar.
O gerente ressaltou, contudo, que esses efeitos específicos não alteram a avaliação sobre o principal fator por trás da perda de dinamismo industrial.
"Essas questões pontuais vão afetando aqui e acolá, mas tem um plano de fundo maior, que é a questão da taxa de juros, da política monetária, que tem aspectos relevantes para o entendimento dessa menor intensidade para a produção industrial", concluiu.
A produção industrial brasileira está 16,5% abaixo do pico histórico registrado em maio de 2011 e apenas 0,2% acima do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020.
Segundo Macedo, a sequência de resultados negativos e de menor intensidade da indústria nos últimos meses vem reduzindo gradualmente a distância em relação ao nível anterior à pandemia. Em abril deste ano, a produção estava 4,5% acima de fevereiro de 2020. O saldo positivo caiu para 3,4% em maio, 1,8% em junho, 1,7% em julho, 1% em agosto e chegou a apenas 0,2% em setembro.
De acordo com o gerente, essa é a menor diferença positiva em relação ao patamar pré-pandemia desde dezembro do ano passado. Ele ressaltou, porém, que o indicador já chegou a ficar no campo negativo em outros momentos, como em maio de 2024, quando a produção estava 1,7% abaixo de fevereiro de 2020.
"Esse distanciamento em relação ao patamar pré-pandemia está em 0,2%. É o menor distanciamento no campo positivo deste ano", afirmou Macedo.
O pesquisador também destacou que a perda de dinamismo recente aumenta a distância da indústria em relação ao recorde da série histórica, alcançado em maio de 2011. Segundo ele, esse afastamento já foi maior em outros períodos, como em 2024, e menor em abril deste ano, mas voltou a crescer diante da sequência de resultados negativos observada nos últimos meses.
Desaceleração mais intensa
Para o economista Leandro Padulla, do ASA, o resultado da produção industrial de setembro reforça a leitura de uma desaceleração mais intensa da atividade doméstica no terceiro trimestre, com sinal negativo para o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre de 2026.
Segundo ele, além da segunda queda mensal consecutiva, a composição do indicador foi desfavorável, com recuo na maior parte das categorias econômicas. O economista pondera, contudo, que a resiliência da indústria extrativa deve amortecer parcialmente a fraqueza dos segmentos mais cíclicos, especialmente diante do desempenho da produção de petróleo.
Ainda assim, Padulla avalia que o conjunto do dado reforça um quadro de atividade mais fraca no trimestre, com riscos inclinados para baixo para a estimativa de crescimento. O cenário do ASA para o PIB já incorpora retração de 0,2% na margem no terceiro trimestre deste ano./Com Letícia Correia