Cuidar de cabelos crespos e cacheados é, no Quilombo Hair, muito mais do que estética. “É política, é memória, é ancestralidade”, afirma Jeferson Rocha que, junto com a esposa Vivian, fundou e administra o espaço.
Criado em setembro de 2022, o salão fica na Bela Vista, em São Paulo, e funciona como um espaço de beleza acessível. Segundo os donos, ele é também como um ponto de resistência contra o racismo estrutural que ainda marca o setor da estética no Brasil.
“Tudo começa pelo cabelo. E não é só sobre cabelo”, diz Vivian, que deixou o diploma em Letras de lado para se dedicar à área da beleza ao lado do marido. O nome do salão, Quilombo, não é à toa: ele evoca um território seguro para pessoas pretas, onde identidade, acolhimento e coletividade caminham juntos.
Brincadeira de criança virou realidade de adulto
Jeferson tem 47 anos, nasceu em Belo Horizonte, mas cresceu em Campo Grande, na zona oeste do Rio. Foi lá que, aos 11 anos, ganhou uma máquina de cortar cabelo do pai e começou a atender amigos da vizinhança. Com refrigerante e doces como pagamento, a diversão de criança virou paixão — e, anos depois, profissão.
Após servir na aeronáutica e concluir o curso de cabeleireiro no Senac Copacabana, Jeferson passou por diversos salões no Rio e em São Paulo, mas ainda distante de sua origem: “Nos salões em que trabalhei, quase não havia clientes negros. Só em 2019 aceitei trabalhar com cabelos crespos e cacheados, após insistência de um dono de salão. Foi um divisor de águas.”
A virada veio mesmo durante a pandemia, quando ele percebeu as condições abusivas impostas por patrões e decidiu abrir o próprio espaço. Começou atendendo na sala do apartamento e, junto com Vivian, estruturou o que viria a se tornar o Quilombo Hair.
De assistente à sócia: a trajetória de Vivian
Natural da zona oeste do Rio, Vivian, de 34 anos, começou como assistente de Jeferson sem nenhuma experiência no setor. Em 2018, desempregada em São Paulo, ela decidiu acompanhar o marido no salão onde ele trabalhava.
“Eu fui mesmo sem saber fazer nada. Mas logo percebi que levava jeito”, conta. Por identificação pessoal e vivências com o próprio cabelo, ela escolheu se especializar exclusivamente em crespos e cacheados. “Sempre foi muito difícil confiar em alguém para cuidar do meu cabelo. Quis ser essa pessoa para outras mulheres.”
Depois de passagens por três salões especializados, Vivian e Jef decidiram abrir o próprio negócio com um modelo diferente: equipe formada majoritariamente por pessoas negras, sem cobrança de porcentagem dos profissionais e com mensalidades fixas para acesso livre aos serviços.
Clube de assinatura
O Quilombo Hair adotou o plano de assinatura CUT ME. Por um valor fixo mensal, o cliente pode frequentar o salão quantas vezes quiser para lavar, cortar, finalizar e tratar os fios. O objetivo é democratizar o acesso ao autocuidado — muitas vezes visto como luxo.
“Sabemos que, para muita gente, cuidar do cabelo ainda é um privilégio. Queremos que todos possam se sentir bem com sua imagem”, afirma Vivian.
Além disso, o salão atua como espaço cultural: promove palestras sobre colorismo em escolas públicas, realiza oficinas de trança e corte em Organizações Não-Governamentais (ONG)s e custeia cursos de inglês, finanças e capacitação para a própria equipe.
“Trabalhar com cabelo crespo é político”
Jeferson afirma que a maior barreira enfrentada é o racismo: “Desde sempre, não fomos considerados padrão de beleza. E isso impacta todo o setor.” Para ele, cuidar de cabelos crespos e cacheados é afirmar pertencimento, romper traumas e oferecer acolhimento. “É também um gesto para as futuras gerações.”
Os relatos emocionados de clientes que passaram a se reconhecer no espelho após um corte ou uma finalização reforçam essa missão. “É muito mais do que estética. É resgate, é identidade”, diz Vivian.
Futuro: aquilombar ainda mais
Com planos de expandir a atuação para dentro de empresas e fortalecer redes de profissionais especializados em cabelos afro, o casal sonha alto.
“Queremos mostrar que competência não depende de padrão visual. Perucas, tranças, carecas, cabelos crespos: tudo isso pode e deve estar presente no mercado formal. O futuro está aí”, conclui Jeferson.