A forma como as empresas inovam está passando por uma transformação estrutural impulsionada pela inteligência artificial (IA). Um movimento crescente tem permitido que profissionais de áreas como marketing, operações e finanças desenvolvam soluções tecnológicas sem depender diretamente de equipes de tecnologia.
Esse fenômeno, conhecido como "vibe coding", consiste na criação de softwares a partir de comandos em linguagem natural, com a própria IA sendo responsável por gerar o código. A prática vem ganhando escala: dados do setor indicam que 63% dos usuários dessas ferramentas não são programadores.
Para o especialista em inteligência artificial Breno Lobato, essa mudança representa uma quebra de paradigma dentro das organizações. "A inovação deixou de ser um processo centralizado na tecnologia e passou a acontecer nas mãos de quem realmente entende o problema", afirma.
A adoção já é significativa no ambiente corporativo. Estimativas apontam que 87% das empresas da Fortune 500 utilizam ao menos uma plataforma desse tipo, enquanto projeções indicam que até o fim de 2026 cerca de 60% de todo novo código será gerado por inteligência artificial.
Mais autonomia e velocidade na inovação
Na prática, o impacto é direto na velocidade e na autonomia das equipes. Profissionais que antes dependiam de longos processos internos para desenvolver soluções agora conseguem criar protótipos em poucas horas, testar ideias e validar demandas antes mesmo de envolver a área de tecnologia.
"O que está acontecendo é uma inversão de lógica. Antes, a inovação passava por um funil que começava no negócio e terminava na TI. Agora, o próprio negócio já chega com soluções testadas, e a tecnologia entra para escalar", explica Breno Lobato.
A ascensão dos "micro apps"
O movimento também tem impulsionado a criação dos chamados "micro apps", aplicações desenvolvidas para resolver problemas específicos do dia a dia. Esses projetos, muitas vezes, não entrariam na fila de prioridades de departamentos de tecnologia, mas passam a ser viabilizados por quem vivencia diretamente as demandas.
Ganhos de eficiência e produtividade
Empresas globais já relatam ganhos relevantes com o uso de inteligência artificial no desenvolvimento interno. Há casos de redução significativa no tempo de criação de ferramentas e economia de milhares de horas de trabalho, reforçando o potencial da tecnologia para aumentar a eficiência operacional.
Apesar da mudança, especialistas destacam que o papel das áreas de tecnologia não desaparece — ele evolui. "A TI deixa de ser gargalo e passa a ser aceleradora. Em vez de desenvolver do zero, ela recebe protótipos já validados e atua para garantir escala, segurança e robustez", diz Breno Lobato.
Um futuro mais acessível para a inovação
Com a ampliação do acesso às ferramentas de desenvolvimento, a expectativa é que o número de pessoas capazes de criar soluções digitais cresça exponencialmente nos próximos anos. Esse cenário tende a impactar diretamente a competitividade das empresas. "A inovação não é mais exclusividade de quem sabe programar, é de quem entende o problema e consegue transformá-lo em solução", conclui o especialista.
Por Ana Carolina Freitas