Endividado em mais de R$ 1 milhão após três falências e buscando uma forma de se reerguer financeiramente, o empresário gaúcho Cleber Gomes vendeu, em 2014, um projeto que sequer existia no papel para o Consórcio Zema, empresa do grupo comandado à época pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema.
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Onze anos depois, a Maestria, criada a partir daquela negociação, movimentou R$ 1,6 bilhão em vendas de consórcios em 2025. Quando apresentou a proposta comercial, Cleber ainda nem tinha empresa formalizada. Ele havia recebido uma oferta para assumir um cargo de gerente, mas decidiu seguir outro caminho.
“Quando percebi que eles queriam expandir o mercado no Rio Grande do Sul, pensei que faria mais sentido criar uma operação terceirizada do que assumir um cargo CLT. Então apresentei um projeto dizendo que minha empresa poderia fazer essa expansão regional. O detalhe é que a empresa ainda não existia”, afirmou.
Depois que a proposta foi aceita, precisou correr para abrir um CNPJ, conseguir um sócio e pegar R$ 50 mil emprestados, pagando juros de 15% ao mês, para colocar a operação em pé. “Eu vendi algo para eles que eu ainda não tinha pronto. Quando eles falaram ‘ok’, pensei: agora preciso fazer acontecer”, disse.
A trajetória até ali, porém, passou longe de ser linear. Cleber começou a trabalhar ainda na adolescência, vendendo refrigerantes e cervejas em jogos de futebol. Mais tarde, ingressou no mercado de consórcios para conseguir pagar a faculdade de Direito. O primeiro contato com o empreendedorismo veio cedo.
Antes de criar a Maestria, acumulou três falências. A última delas, segundo relata, desencadeou uma sequência de problemas emocionais e financeiros. “Eu fiquei deprimido, engordei 30 quilos e me divorciei”, afirmou.
O empresário diz que precisou rever comportamentos e assumir responsabilidade pelos próprios erros para conseguir recomeçar. “Percebi que o problema não era o mercado, a empresa ou outras pessoas. Eu fui irresponsável financeiramente, orgulhoso e não buscava conselho de ninguém.”
A chance de reconstrução surgiu justamente quando decidiu apresentar a proposta comercial ao Consórcio Zema. Após a aprovação do projeto, Cleber convidou Márcio Muller, hoje seu sócio, para estruturar a operação. Segundo ele, o parceiro complementava justamente a área em que mais falhava: gestão financeira e administrativa.
Nos primeiros anos, a Maestria atuava praticamente como uma extensão da Zema. Os parceiros comerciais sequer conheciam a marca da empresa e acreditavam estar lidando diretamente com a administradora de consórcios.
O primeiro grande susto veio entre 2017 e 2018, quando o grupo Zema cogitou vender a operação de consórcios após mudanças internas na companhia. Dependente de um único produto e de um único parceiro comercial, a Maestria voltou a correr risco de quebrar. “Nosso negócio era frágil porque dependíamos 100% da Zema”, afirmou.
A experiência levou a empresa a buscar diversificação e rever processos internos. A virada definitiva, segundo Cleber, ocorreu durante a pandemia. Enquanto muitos parceiros fecharam as portas, a Maestria acelerou a digitalização das operações e conseguiu manter parte da rede funcionando de forma remota. Segundo o empresário, a empresa saiu de um volume médio de R$ 20 milhões mensais em vendas para cerca de R$ 50 milhões durante o período.
Além do aumento das vendas, os custos operacionais despencaram. Gastos com viagens, aluguel e operação presencial diminuíram, permitindo que a empresa acumulasse caixa e expandisse a estrutura digital. “Se fosse o Cleber de 2014, eu teria gastado todo o dinheiro. Mas ali já tínhamos aprendido sobre caixa e gestão”, afirmou.
Hoje, a empresa utiliza ferramentas de automação e inteligência artificial para captar parceiros comerciais, qualificar clientes e agendar reuniões. Segundo o empresário, isso reduziu custos operacionais e aumentou a produtividade da equipe.
“A IA tirou do vendedor tarefas operacionais. Antes ele precisava prospectar, apresentar, vender e cobrar. Hoje conseguimos automatizar parte disso. O mercado mudou completamente depois da pandemia. Antes, o trabalho era quase todo presencial. Hoje, cerca de 70% da operação é digital”, disse.
Segundo ele, a virada de chave da Maestria ocorreu entre 2024 e 2025, quando a empresa decidiu se posicionar oficialmente como marca própria. “Antes, ninguém conhecia a Maestria. Muitos parceiros achavam que trabalhavam diretamente com a Zema.”
Cleber contou que a mudança provocou uma queda inicial nas vendas nos primeiros meses da estratégia. Ainda assim, a empresa conseguiu se recuperar ao longo do ano e registrou crescimento de 40% entre 2025 e 2026.
Em 2024, a empresa movimentou cerca de R$ 1 bilhão em vendas de consórcio. Em 2025, o volume saltou para R$ 1,6 bilhão, segundo o empresário. Para este ano, a projeção é alcançar R$ 3 bilhões em vendas.
A expectativa é que cerca de 30% desse volume venha de escritórios nos quais a empresa possui participação societária.
A companhia afirma ter atualmente cerca de 150 parceiros comerciais e planeja expandir um novo modelo de negócio chamado “Maestria Digital”, no qual passa a se tornar sócia de escritórios parceiros. A meta é chegar a 100 operações compartilhadas até 2030.
Apesar do crescimento, Cleber afirma que a principal lição da trajetória não está nos números, mas na capacidade de pedir ajuda. “Existe um provérbio muito antigo que diz: ‘Na busca de conselheiros está a vitória; na falta deles, a derrota’. Quem busca conselho cresce, prospera e perde menos. Isso vale para quem está começando, para quem já tem um negócio consolidado e também para quem está passando por dificuldades. Hoje eu entendo que ninguém cresce sozinho."