Marselha, na França, vira hub mundial de data centers e expõe dilema social da indústria digital

A cidade de Marselha, à beira do Mar Mediterrâneo, no sul da França, é conhecida por sua herança histórica e suas belas praias. Na última década, graças à sua posição estratégica, a cidade agregou um novo atrativo: tornou-se um hub mundial de data centers. Mas a chegada de gigantes digitais à segunda maior metrópole francesa está longe de agradar a todos.

8 abr 2026 - 09h53

A cidade, situada perto de capitais econômicas europeias como Paris, Frankfurt e Bruxelas e, ao mesmo tempo, porta de entrada para os mercados africano e asiático, tornou-se o sétimo local mais procurado do mundo pela indústria de dados.

Data center MRS3 foi instalado em uma antiga base naval do porto de Marselha.
Data center MRS3 foi instalado em uma antiga base naval do porto de Marselha.
Foto: © Interxion / RFI

Marselha abriga uma dezena de centros de armazenamento de dados, de tamanhos variados. "Por trás dos cabos submarinos, há uma indústria familiar que os fabrica, que produz os repetidores óticos. Tem a indústria marítima que os instala no mar e faz a manutenção. Existe toda uma cadeia de valor que cria empregos em Marselha", defende Guillaume Heras, diretor-geral da empresa de telecomunicações Telsam. "Somos uma empresa de 40 pessoas e há muitas outras como a nossa atuando neste setor", disse ele à RFI.

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Metade desses centros está instalada na zona portuária, onde chegam os 17 cabos submarinos que conectam Marselha a cerca de 50 países. Mas também é ali que se concentra a área mais turística da cidade.

Para muitos habitantes, a invasão dessas megaestruturas, onde cerca de 20 pessoas trabalham em média, gera preocupação. Eles avaliam que esse "boom digital" beneficia sobretudo as grandes multinacionais, como Google, Facebook e Amazon, e não os marselheses.

Seis projetos de gigante americana

A gigante americana Digital Realty, líder do setor, avança em seu quinto projeto na cidade, e um sexto acaba de ser anunciado: serão 26.000 m² de infraestruturas instaladas em um antigo depósito, na entrada do município. Um coletivo de habitantes está mobilizado contra essa expansão.

"Marselha vai ter que lidar com essa sobrecarga em nossa rede elétrica e de água, além do impacto imobiliário. Estamos perdendo acesso ao mar", critica Max, membro da associação. "A água potável está sendo entregue à Digital Realty para resfriar os seus data centers. No entorno do porto, a rede elétrica já está saturada. A luz funciona mal ali nas proximidades", denuncia.

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Pesquisas de Clément Marquet, especialista em impacto social e econômico da indústria digital da Escola de Minas de Paris, constatam que os benefícios da instalação de data centers são, com frequência, invisíveis para as populações locais.

"É difícil argumentar sobre as vantagens para os locais. Acho que um dos problemas é que eles se sentem 'a serviço' de Paris, de um lado, e do resto do mundo, do outro. Ou seja, são um componente de uma cadeia muito maior", afirma o pesquisador. "É como se não importasse muito o que se desenvolve em Marselha: aos olhos dos moradores, eles estão servindo mais à economia mundial, e os benefícios diretos não são vistos por eles."

Consumo de água e energia

Os imensos armários metálicos, conectados a toneladas de cabos, demandam importantes infraestruturas do município para funcionar, principalmente energia e água. Um data center de 3 megawatts, considerado pequeno, consome o equivalente a 1.000 residências. O consumo de água e energia vai disparar com o desenvolvimento da inteligência artificial, mas este não é o único problema.

Moradores como Nadia, consultora em gestão de projetos, lamentam que Marselha esteja contribuindo para uma tecnologia que ameaça milhões de empregos em todo o mundo.

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"Acho que eu poderei muito bem ser substituída pela inteligência artificial amanhã, e é assustador. Por um lado, a gente quer o progresso, mas por outro não quer ser uma vítima dele", salienta Nadia.

O governo francês vê o desenvolvimento de data centers e da IA como estratégicos para o país. Em 2025, Paris anunciou € 109 bilhões em investimentos nesses setores para os próximos anos.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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