O presidente Lula recuou da ideia de limitar o número de cartões de crédito a um por CPF e passou a defender a proibição do envio do produto sem solicitação prévia do cliente, além do combate aos juros abusivos. A proposta inicial havia sido mencionada após conversas com o Banco Central, cujo presidente, Gabriel Galípolo, estuda conter o crédito predatório e o endividamento da população com base em regras internacionais, que focam nos limites de renda e na restrição a ofertas não autorizadas.
BRASÍLIA - Depois de falar na possibilidade de limitar o número de cartões de crédito por pessoa a uma única unidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recuou da proposta nesta sexta-feira, 2, e afirmou que é preciso acabar com o envio dos cartões para clientes que não solicitaram o produto financeiro.
"Ontem falei da preocupação com o cartão de crédito, pois os juros são indecentes. Hoje meus adversários acordam para defender os bilionários donos de operadoras desses cartões. Claro que sei da importância do crédito para a vida das famílias. Cada cidadão tem o direito de ter quantos cartões de crédito quiser", postou Lula em uma rede social.
"O que não aceito é que bancos enviem para a casa das pessoas sem que elas tenham solicitado. Vamos acabar com essa prática e com os juros abusivos no Brasil", completou.
Ontem falei da preocupação com o cartão de crédito, pois os juros são indecentes.
Hoje meus adversários acordam para defender os bilionários donos de operadoras desses cartões. Claro que sei da importância do crédito para a vida das famílias. Cada cidadão tem o direito de ter…
— Lula (@LulaOficial) October 2, 2026
Na quinta-feira, 1º, em entrevista ao podcast Flow, Lula afirmou que estava conversando com o Banco Central sobre a limitação de cartões por CPF.
"Nós estamos discutindo com o Banco Central. Nós vamos proibir os bancos de darem mais de um cartão de crédito para as pessoas", declarou Lula.
Procurado, o Banco Central afirmou que não iria se manifestar.
Nos últimos meses, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, demonstrou preocupação com o que classificou de crédito predatório. Nos últimos meses, ele tocou no assunto durante coletiva do Relatório de Política Monetária, no evento Febraban Tech, organizado pela Federação Brasileira de Bancos, e também em atas do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef).
"Se você tiver uma oferta predatória de crédito, essa a gente precisa pensar em limitações. Uma linha de crédito que é mais cara, e que eventualmente a pessoa poderia ter acesso a uma linha mais adequada para a necessidade dela. É como é que você vai criando consciência ao longo da jornada", afirmou Galípolo.
Em suas falas públicas, o presidente do BC afirmou que o Banco Central vem estudando medidas que já foram adotadas por outros países, como Cingapura e Austrália. Ele afirmou que o Brasil tem 96 milhões de usuários do cartão, e que metade tem dívidas, seja no rotativo ou no parcelamento das compras sem juros.
"Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central mostra que o avanço do acesso ao crédito veio acompanhado de forte uso do cartão de crédito como instrumento de financiamento", diz o texto da apresentação de Galípolo no Febraban Tech.
Em Cingapura, a regra limita o volume de crédito, não o número de cartões. Segundo a Autoridade Monetária de Cingapura (MAS), o cartão só é concedido a partir de uma renda mínima, e o limite é atrelado à renda do cliente. Quem acumula dívida acima de 12 vezes a renda mensal, somando todos os bancos, tem o crédito suspenso.
Na Austrália, o foco está na forma de oferta. Segundo nota técnica do Banco Mundial publicada em setembro, o país proíbe os bancos de enviar crédito pré-aprovado sem solicitação e de aumentar o limite do cartão sem consentimento do cliente. Também é vetada a oferta de crédito que o consumidor não tem condições de pagar.