Os preços de transportes e alimentação pressionaram a inflação ao consumidor no Brasil, que atingiu em março a taxa mais alta em cerca de um ano, em meio às incertezas provocadas pelo conflito no Oriente Médio, levando o índice em 12 meses para mais perto do teto da meta.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) teve em março alta de 0,88%, depois de ter subido 0,70% em fevereiro, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira. Esse foi o resultado mensal mais alto desde fevereiro de 2025, quando a taxa foi de 1,31%.
Nos 12 meses até março, o IPCA acumulou avanço de 4,14%, de 3,81% no mês anterior. A meta contínua para a inflação é de 3,0%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos. Assim, o teto da meta é de 4,50%.
Os resultados ficaram acima das expectativas em pesquisa da Reuters, de altas de 0,77% no mês e de 4,0% em 12 meses.
A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã vem provocando preocupações sobre a inflação diante das altas nos preços globais do petróleo devido ao fechamento do Estreito de Ormuz. Na semana passada, a Petrobras anunciou reajuste de 54,8% nos preços do querosene de aviação para abril.
Em março, os preços dos grupos Alimentação e bebidas e Transportes responderam juntos por 76% do IPCA.
"Quando se fala lá fora em fechamento de Estreito de Ormuz, com efeitos na oferta global, isso cria impacto nos preços dos combustíveis por aqui", disse o gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves.
"Os combustíveis ficaram mais caros com o conflito e isso traz impacto não só nos combustíveis, mas nos alimentos também porque o frete fica mais caro e encarece o produto ao consumidor."
O Banco Central decidiu em março cortar a taxa básica Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75%, pregando cautela diante da guerra no Oriente Médio. A autoridade monetária volta a se reunir no final deste mês.
"Em linhas gerais, esse resultado acima do esperado, somado ao recente conflito no Oriente Médio e à possibilidade de um clima mais adverso no segundo semestre... reforça o viés de alta para a nossa projeção de inflação, atualmente em 4,2% ao final deste ano. E, além disso, esse quadro como um todo acaba corroborando a nossa expectativa de continuidade no ritmo de corte da taxa de juros em 0,25% na próxima reunião", avaliou Julio Barros, economista do Daycoval.
GASOLINA E ALIMENTOS
O grupo Transportes avançou no mês 1,64%, com destaque para a alta de 4,59% da gasolina. Outras altas foram registradas em passagem aérea (6,08%) e diesel (13,90%), embora com menos impacto devido aos menores pesos desses subitens no índice geral.
Segundo o gerente do IBGE, se descartado o resultado dos combustíveis o IPCA seria de 0,68%. Sem gasolina o índice ficaria em 0,64%.
"À medida que a guerra afeta a distribuição global de combustíveis é possível que isso impacte o IPCA com menor oferta e preço maior (nos próximos meses)", completou Gonçalves.
Já Alimentação e bebidas subiu 1,56%, sob os pesos das altas de leite longa vida (11,74%) e tomate (20,31%).
"No grupo alimentação, em especial na alimentação em casa, a aceleração no nível de preços foi mais evidente, com a alta de 1,94%, a maior desde abril de 2022, combinando efeitos de redução de oferta de alguns produtos com altas do frete, em decorrência dos combustíveis mais caros", disse Gonçalves.
Por outro lado, a inflação de serviços, ponto de atenção do BC, desacelerou em março, chegando a 0,53%, de 1,51% no mês anterior.
"A manutenção deste quadro em um ambiente de desaceleração econômica e maior endividamento das famílias pode significar um alívio para o IPCA como um todo ao longo do ano. Todavia, o quadro para a inflação de serviços como um todo ainda preocupa dado o comportamento estacionário em um patamar muito elevado do ponto de vista da política monetária", destacou Matheus Pizzani, economista do PicPay.
O índice de difusão, que mostra o espalhamento das variações de preços, subiu em março para 67%, de 61% em fevereiro.
A mais recente pesquisa Focus do BC mostra que a projeção para o IPCA é de alta de 4,36% em 2026, indo a 3,85% em 2027.
(Edição Fabrício de Castro e Pedro Fonseca)