A inflação ao consumidor brasileiro acelerou mais do que o esperado em fevereiro e atingiu o nível mais alto em um ano diante do impacto das passagens aéreas e do efeito sazonal do aumento das mensalidades escolares.
O aumento da inflação se deu antes do início da guerra no Oriente Médio, que pode provocar novas pressões sobre os preços, mas em 12 meses a taxa mostrou desaceleração, em dados divulgados a cerca de uma semana da próxima reunião de política monetária do Banco Central.
Em fevereiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,70%, contra 0,33% em janeiro, resultado que ficou acima da expectativa em pesquisa da Reuters de alta de 0,65%. Foi a taxa mais alta desde fevereiro de 2025 (1,31%).
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta quinta-feira mostraram que a taxa em 12 meses caiu a 3,81%, de 4,44% em janeiro, mas também ficou acima da expectativa de 3,77%.
A meta contínua para a inflação é de 3,0%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.
"A alta de 0,70% de agora é bem menor do que era em fevereiro de 2025, quando foi de 1,31%. E isso puxou para baixo a taxa em 12 meses", disse o gerente da pesquisa, Fernando Gonçalves.
Os dados foram divulgados a poucos dias da próxima reunião de política monetária do BC, nos dias 17 e 18, para a qual a autarquia havia indicado o início de um ciclo de corte de juros, com a Selic atualmente em 15%.
No entanto, entrou em jogo a intensificação dos conflitos geopolíticos devido à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada no final de fevereiro.
"Embora o IPCA capture efeitos sazonais típicos de fevereiro, os dados indicam deterioração qualitativa, mantendo a atenção sobre os preços de serviços. Esse segmento continua refletindo o dinamismo persistente do mercado de trabalho e permanece como um dos principais focos de atenção na condução da política monetária", disse Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Em fevereiro, a inflação de serviços acelerou com força em e chegou a 1,51%, de 0,10% em janeiro, impulsionada pelos preços de mensalidades e das passaens aéreas. Em 12 meses, acumula alta de 6,01%.
Para Sung, o BC pode adotar uma postura mais cautelosa na reunião deste mês diante da alta do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio, com um corte de 0,25 ponto percentual, embora veja espaço para um movimento de 0,50 ponto.
Apesar da aceleração da inflação diante de efeitos sazonais, analistas consideram que o processo de desinflação no país segue em curso, porém de olho nos efeitos do conflito.
"Há indícios de que a piora observada nas últimas leituras são mais devidas à sazonalidade de alta do que a uma possível reversão do processo de desinflação. Para os próximos meses, os potenciais impactos do conflito no Irã são causa de preocupação", disse André Valério, economista sênior do Inter, citando a alta dos preços do petróleo e dos fertilizantes, entre outros.
MENSALIDADES E PASSAGENS AÉREAS
A maior variação e impacto no mês foram registrados no grupo Educação, com alta de 5,21%. A maior contribuição veio dos cursos regulares (6,20%) devido aos reajustes habitualmente praticados no início do ano letivo. O subitens que tiveram as maiores variações foram ensino médio (8,19%), ensino fundamental (8,11%) e pré-escola (7,48%).
Também destacou-se a alta de 0,74% do grupo Transportes diante do aumento de 11,40% da passagem aérea, com Gonçalvez citando impactos das férias e do Carnaval. Por outro lado, os preços dos combustíveis recuaram 0,47%, com quedas na gasolina (-0,61%) e no gás veicular (-3,10%).
Somados, os grupos de Educação e Transportes representaram aproximadamente 66% do resultado do IPCA no mês. Se retirada a pressão do grupo Educação, o IPCA teria subido 0,41%, segundo o IBGE.
A Petrobras reduziu no final de janeiro os preços de venda de gasolina A para as distribuidoras em 5,2%, para uma média de R$2,57 por litro. No entanto, a guerra no Oriente Médio vem levando preocupações com a inflação devido ao aumento dos preços do petróleo.
Já o grupo Alimentação e bebidas teve leve aceleração de preços, com alta de 0,26% em fevereiro, com a alimentação no domicílio subindo 0,23%. Alguns destaques de alta foram nos preços de açaí (25,29%), feijão-carioca (11,73%), ovo de galinha (4,55%) e carnes (0,58%).
O índice de difusão, que mostra o espalhamento das variações de preços, teve em fevereiro queda a 61%, de 64% em janeiro.
A mais recente pesquisa Focus do BC, a primeira com projeções realizadas após a deflagração da guerra, mostra que a expectativa para o IPCA é de alta de 3,91% em 2026, indo a 3,80% em 2027.