O Ibovespa fechou em forte queda nesta terça-feira, refletindo preocupações com o ritmo da atividade econômica do país em meio a perspectivas de manutenção das taxas de juros em níveis elevados, enquanto permanecem incertezas eleitorais e geopolíticas com potenciais reflexos inflacionários.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 2,5%, a 167.874,64 pontos, mínima de fechamento desde 20 de janeiro. No pior momento, chegou a 167.568,94 pontos. Na máxima do dia, marcou 172.385,51 pontos.
O Banco Central alertou nesta terça-feira sobre eventual disseminação de efeitos indiretos de choques relacionados aos preços do petróleo e a efeitos climáticos, o que demandaria "reação firme" da política monetária.
Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada, quando a taxa Selic foi reduzida de 14,25% para 14% ao ano, o BC também demonstrou preocupação com uma inflação pressionada pela demanda em meio a medidas de estímulo adotadas pelo governo.
O documento foi publicado pouco antes da divulgação do IPCA de julho, que teve variação positiva de 0,07% em julho, desacelerando ante a alta de 0,16% no mês anterior, mas ainda ficando acima de expectativas no mercado (+0,03%).
Estrategistas do JPMorgan cortaram a classificação do Brasil no seu portfólio de ações da América Latina para "neutra" citando entre os argumentos o prognóstico de que o ciclo de afrouxamento monetário no país deve terminar -- mais um corte em setembro e depois "uma longa pausa".
A equipe do banco norte-americano também destacou que o crescimento econômico está desacelerando e que o crédito está piorando, "um cenário pouco favorável para os resultados corporativos daqui para frente".
Na decisão sobre o "downgrade", o JPMorgan também chamou a atenção para as eleições de outubro, que provavelmente aumentarão a volatilidade. "Preferimos ficar à margem a pagar para assumir incerteza", afirmou a equipe do banco.
Uma pesquisa CNT/MDA divulgada também nesta terça mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que soma 39,1%.
Na visão do sócio e advisor da Blue3 Investimentos, Willian Queiroz, as fortes perdas na bolsa nesta sessão refletiram saída de investidores estrangeiros, em meio a uma visão mais cautelosa, somando o quadro doméstico a perspectivas de juro resiliente nos Estados Unidos e aos confrontos no Oriente Médio.
"Tudo isso fez preço e nós reverberamos através da bolsa", afirmou Queiroz.
No exterior, o barril do petróleo sob o contrato Brent voltou a subir, fechando com elevação de 1,36%, a US$88,91, com dúvidas sobre um possível acordo de paz entre os EUA e o Irã alimentando preocupações de continuidade das interrupções no abastecimento do Oriente Médio.
"O apetite a risco está enfraquecendo globalmente, juntamente com a alta dos preços do petróleo, que alimenta as expectativas de inflação mundial", afirmou a analista sênior Ipek Ozkardeskaya, do Swissquote, em nota a clientes.
DESTAQUES
• BTG PACTUAL UNIT caiu 5,8%, pior desempenho do setor bancário no Ibovespa, mesmo após o maior banco de investimento da América Latina reportar lucro líquido ajustado de R$5,14 bilhões no segundo trimestre, crescimento de 22,6% ano a ano, com receita consolidada recorde de R$10,37 bilhões. O BTG afirmou que tem adotado padrões bastante conservadores para a concessão de crédito, vendo um ambiente macroeconômico desafiador.
• ITAÚ UNIBANCO PN fechou em queda de 3,51%, acompanhado de BRADESCO PN, que encerrou com declínio de 2,27%, e BANCO DO BRASIL ON, que cedeu 3,74%. Na contramão, SANTANDER BRASIL UNIT valorizou-se 0,92%.
• PETROBRAS PN recuou 1,35% e PETROBRAS ON perdeu 1,44%, sucumbindo ao movimento vendedor na B3, sem acompanhar a recuperação dos preços do petróleo no exterior.
• VALE ON caiu 2,02%, também pressionada pela aversão no pregão paulista, revertendo os ganhos de parte da sessão, mesmo com alta dos futuros do minério de ferro na China. O contrato mais negociado na Bolsa de Mercadorias de Dalian encerrou o pregão diurno com alta de 1,26%, a 721,5 iuanes (US$106,96) por tonelada.
• NATURA ON subiu 1,49%, entre as poucas altas do dia, um dia após divulgar o resultado do segundo trimestre com tombo de 82% no lucro ante igual período do ano passado, para R$35 milhões. O Ebitda encolheu 5,9%, para R$620 milhões, enquanto a receita líquida caiu 9,1%, para R$5,2 bilhões. A Moody's manteve o rating da companhia em Ba2, mas cortou a perspectiva para negativa. Na teleconferência sobre os resultados, a companhia estimou uma recuperação gradual ao longo do segundo semestre.
• USIMINAS PNA recuou 7,54%, tendo ainda como pano de fundo relatório do Itaú BBA cortando a recomendação das ações para "market perform" e o preço-alvo de R$11 para R$8. "Acreditamos que uma postura mais conservadora em relação à ação se justifica diante da falta de tração do mercado de aço e de uma dinâmica de preços mais fraca do que o esperado na indústria brasileira de aço plano", afirmaram os analistas.
• JBS, que tem as ações listadas nos EUA, cedeu 2,91%, após a maior processadora global de carnes divulgar na segunda-feira prejuízo líquido de US$102 milhões no segundo trimestre, com o segmento bovino nos EUA ainda registrando margens negativas e uma oferta maior de frango que reduziu os preços, além de diversos itens não correntes.