Trump sinaliza que guerra está próxima de acabar, mas Irã diz que Teerã determinará o fim; o que aconteceu na guerra até agora

Preço do petróleo caiu após disparar no dia anterior e países estudam alternativas para evitar uma crise devido ao choque de preços.

9 mar 2026 - 06h51
(atualizado em 10/3/2026 às 11h22)
Israel segue atacando o Líbano nesta terça-feira
Israel segue atacando o Líbano nesta terça-feira
Foto: EPA / BBC News Brasil

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que esta terça-feira (10/03) será o dia "mais intenso" de ataques americano contra o Irã até agora — com "o maior número de caças, o maior número de bombardeiros, o maior número de ataques".

Segundo Hegseth, as forças iranianas dispararam o menor número de mísseis em um período de 24 horas desde o início da guerra.

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O secretário de Defesa afirmou ainda que "seria sábio" que o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, acatasse a mensagem dos EUA e não buscasse dedenvolver novas armas nucleares.

As declarações de Hegseth parecem ir na direção oposta da mensagem dada por Donald Trump na noite de segunda (9/3), quando o presidente disse que o conflito no Oriente Médio — desencadeado por ataques dos EUA e Israel ao Irã no final de fevereiro — pode terminar "em breve".

"Acho que a guerra está praticamente concluída", disse Trump em entrevista à CBS News.

Ele afirmou que os EUA estão "muito à frente do cronograma", acrescentando que o Irã "não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea" e alega que seus mísseis estão "reduzidos a um número disperso".

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Mas pouco após os comentários de Trump na segunda-feira (10/3), a Guarda Revolucionária do Irã respondeu dizendo que será o Irã que "determinará o fim da guerra".

A Guarda Revolucionária disse que Teerã não permitirá a exportação de "um litro de petróleo" da região se os ataques dos EUA e de Israel continuarem, segundo a agência de notícias Reuters.

Os preços do petróleo têm oscilado em meio ao aumento das tensões sobre o Estreito de Ormuz, que é crucial para o mercado global de energia, já que cerca de um quinto do petróleo mundial passa por essa estreita passagem.

Na segunda-feira, os preços do petróleo dispararam e bolsas no mundo todo, incluindo no Brasil, caíram.

Mas logo após a fala de Trump, os mercados reagiram. O Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro, recuperou 180 mil pontos no final da tarde, fechando em alta de 0,86%, ao passo que o dólar fechou o dia com queda de 1,5% em relação ao real, sendo cotado a R$ 5,16.

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Já os preços do petróleo WTI e Brent, que chegaram a ultrapassar os US$ 100 por barril no início da segunda-feira, se moderaram ao longo do dia, estabilizando-se na faixa dos US$ 90.

No final do dia, Trump concedeu uma entrevista coletiva na qual reafirmou que a guerra vai terminar "muito rapidamente", sem mencionar datas, e sinalizou na outra direção, ao dizer que os EUA "não ganharam o suficiente" no Irã.

O barril de petróleo ultrapassou a marca de US$ 100 pela primeira vez em quatro anos mas caiu em seguida
Foto: Foto de Brandon Bell/Getty Images / BBC News Brasil

Guerra continua

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta terça-feira (10/3) que a ação militar de Israel contra o Irã está "quebrando seus ossos".

Ele disse que o objetivo de Israel é libertar o povo iraniano da "tirania" do regime atual, mas diz que "em última análise, depende deles".

"Não há dúvida de que, por meio das ações tomadas até agora, estamos quebrando seus ossos e ainda estamos ativos", disse ele em publicação na conta oficial do seu gabinete.

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Na noite de segunda para terça-feira, os ataques conjuntos entre EUA e Israel ocorreram principalmente em partes de Teerã e na cidade vizinha de Karaj.

Moradores da capital relataram à BBC o impacto dos ataques israelenses e americanos.

"Eles atacaram com força ontem à noite. Tudo o que se vê em nossa casa são rachaduras nas paredes. Dormir se tornou a coisa mais difícil do mundo", disse um homem à BBC Persa, serviço em persa da BBC.

No Líbano, Israel ordenou a evacuação urgente do sul do país, enquanto continua bombardeando a região com ataques aéreos.

O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF), Avichay Adraee, afirma que Israel está agindo "com firmeza" contra o Hezbollah ao sul do rio Litani devido às atividades do grupo na região.

Outros países do Golfo relataram nesta terça que seguem interceptando ataques iranianos.

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A Arábia Saudita afirma ter interceptado um míssil balístico e cinco drones de ataque durante a noite. As forças armadas do Kuwait afirmam ter interceptado e abatido com sucesso seis drones.

O Bahrein acionou suas sirenes de alerta e pediu aos moradores que se abrigassem, após a morte de uma mulher de 29 anos em um ataque à capital, Manama, na noite de segunda-feira.

O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes anunciou na manhã de terça-feira que continua interceptando "ameaças de mísseis e drones" do Irã e que mobilizou sistemas de defesa aérea e caças. Os Emirados Árabes também informaram que seu consulado em Erbil, no norte do Iraque, foi alvo de um ataque com drone, que causou danos, mas não deixou feridos.

Reunião de emergência sobre petróleo

Diante dos possíveis impactos do conflito sobre a distribuição de petróleo, os ministros dos países do G7 se reuniram na segunda-feira em caráter emergencial, mas não chegaram a um consenso sobre uma possível liberação conjunta de reservas de petróleo para conter a alta dos preços.

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As reservas de petróleo são coordenadas pela Agência Internacional de Energia (AIE), com 32 membros do grupo detendo reservas estratégicas como parte de um sistema coletivo de emergência concebido para crises nos preços do petróleo.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ofereceu ajuda para aliviar a situação com o fornecimento de petróleo e gás, inclusive para países europeus.

Em um pronunciamento televisionado diante de autoridades e executivos do setor de petróleo e gás, ele alertou que a produção de petróleo, que dependia das entregas pelo Estreito de Ormuz, poderia em breve parar completamente.

Em conversa telefônica, Putin e Trump falaram sobre "a atual situação internacional", envolvendo principalmente o Irã e a Ucrânia. Segundo Yuri Ushakov, assessor de política externa de Vladimir Putin, a conversa durou cerca de uma hora e foi "profissional, franca e construtiva".

Mais tarde, em comunicado nas redes sociais, Trump ameaçou um ataque "20 vezes mais forte" se o Irã fizer qualquer coisa que interrompa o fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz.

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"Além disso, vamos destruir alvos facilmente elimináveis que tornarão praticamente impossível para o Irã se reconstruir como nação — morte, fogo e fúria reinarão sobre eles — mas espero, e rezo, para que isso não aconteça", afirmou o presidente americano.

A grave interrupção no fornecimento de energia da região ameaça provocar aumento de preços para consumidores e empresas em todo o mundo.

Cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo costuma ser transportado pelo Estreito de Ormuz. Mas o tráfego por essa estreita passagem praticamente parou desde o início da guerra, há mais de uma semana.

O analista Adnan Mazarei, do Instituto Peterson de Economia Internacional, afirmou que o aumento nos preços do petróleo era esperado, considerando a paralisação da produção em alguns países do Golfo e os sinais de um conflito prolongado na região.

"As pessoas estão percebendo que isso não vai acabar tão cedo", disse ele, acrescentando que objetivos apresentados pelos EUA estão "se tornando cada vez mais irrealistas".

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Trump, que fez campanha eleitoral prometendo reduzir o custo de vida para os americanos, minimizou as preocupações com o aumento dos preços do petróleo.

No domingo, ele publicou em sua plataforma Truth Social: "Os preços do petróleo a curto prazo, que cairão rapidamente quando a destruição da ameaça nuclear iraniana terminar, são um preço muito pequeno a se pagar pela segurança e paz dos EUA e do mundo. SÓ OS TOLOS PENSARIAM DIFERENTE!"

Seu secretário de Energia, Chris Wright, disse a emissoras americanas que Israel, e não os EUA, estava mirando a infraestrutura energética do Irã, em meio a certa preocupação com o aumento dos preços da gasolina nos EUA causado pela guerra.

Dados da associação de motoristas AAA mostraram que o preço médio da gasolina comum nos EUA subiu 11% na semana passada, chegando a US$ 3,32 (R$ 17,28) por galão.

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Beirute foi novamente atacada nesta segunda-feira.
Foto: Houssam Shbaro/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

Nova liderança do Irã

No domingo, o Irã nomeou Mojtaba Khamenei para suceder seu pai, Ali Khamenei, como Líder Supremo, sinalizando que, mais de uma semana após o início do conflito, a ala linha-dura continua no comando do país.

Mojtaba Khamenei foi escolhido sucessor do aiatolá Ali Khamenei, assassinado no primeiro dia do conflito que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irã.

Ao contrário de seu pai, Mojtaba, de 56 anos, é discreto. Ele nunca ocupou um cargo no governo, nem fez discursos ou concedeu entrevistas públicas, e apenas um número limitado de fotos e vídeos dele foi publicado.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não deve aceitar a escolha. Embora tenha sinalizado que estaria aberto à possibilidade de alguém ligado à antiga liderança assumir o poder, Trump deixou clara sua oposição a Mojtaba Khamenei.

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"O filho de Khamenei é inaceitável para mim", disse Trump no início desta semana.

A escolha de Mojtaba Khamenei pode se provar controversa dentro do próprio Irã. A República Islâmica foi fundada em 1979, após a queda da monarquia, e sua ideologia se baseia no princípio de que o líder supremo deve ser escolhido por sua posição religiosa e liderança comprovada, e não por sucessão hereditária.

No fim de semana, os Estados Unidos e Israel lançaram ondas de ataques aéreos no Irã, atingindo vários alvos, incluindo depósitos de petróleo.

Enquanto isso, o Irã atacou a infraestrutura energética em países vizinhos do Golfo. Durante a noite, a Arábia Saudita afirmou ter interceptado e destruído duas ondas de drones que se dirigiam a um importante campo petrolífero.

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