Em seminário da FGV Ibre e Estadão, economistas alertaram que os juros altos prolongados no Brasil funcionam como um remédio com efeitos colaterais severos. O descompasso entre a política fiscal expansionista e o controle monetário força a manutenção de taxas elevadas, levando a economia à desaceleração e proximidade da estagnação. O déficit público e a falta de credibilidade agravam o quadro, enquanto o cenário externo de juros longos nos EUA continua sendo um obstáculo para os emergentes.
RIO - Para ilustrar o impacto dos juros altos sobre o Brasil, a economista Silvia Matos comparou a situação ao tratamento de uma doença: "É como se a gente tivesse que tomar uma dose de antibiótico por um tempo muito maior para controlar uma infecção. E a gente sabe que tem efeitos colaterais negativos", concluiu.
A coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) participou de debate sobre a economia durante o III Seminário de Análise Conjuntural, realizado pelo FGV Ibre e pelo Estadão, nesta sexta-feira, 18. Participaram, também, Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital; José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre; e Samuel Pessôa, pesquisador macro do BTG Pactual e pesquisador associado do FGV/Ibre.
Senna, ex-diretor do Banco Central, analisou o impacto da estratégia do BC americano, o Federal Reserve (Fed), de buscar uma estratégia equilibrada para frear a inflação sem paralisar o crescimento econômico.
Ele considerou a postura positiva para o Brasil, ao indicar um cenário de juros internacionais mais moderados, mas, mesmo assim, será uma "pedra no sapato" para economias emergentes. "Eles querem reduzir a inflação, mas não têm intenção de desacelerar a atividade econômica e produzir desemprego", analisou. "O Fed, pelo visto, não lançará mão de uma estratégia do tipo 'arrasa-quarteirão', e isso é bom para o Brasil. Mas o comportamento dos juros reais longos continuará sendo uma pedra no sapato das economias emergentes, e do Brasil em particular."
Entre os emergentes, em especial o Brasil, o ambiente de juros reais longos tende a persistir. Isso deve se dar por dois fatores: o déficit público elevado, inclusive nos Estados Unidos, e a forte demanda por crédito impulsionada pela tecnologia. No cenário brasileiro, avalia, o quadro prejudica a condução da política monetária pelo Banco Central.
Um dos desafios, na análise de Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital, é o fato de o Brasil enfrentar uma crise fiscal e um endividamento semelhantes aos de países desenvolvidos, mas com a desvantagem de ainda não ter a credibilidade das grandes economias globais.
Equilíbrio fiscal exige cautela sobre o câmbio
O quadro é agravado por um impulso parafiscal relevante, que atinge cerca de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), disse Xavier. O montante, explicou, resulta da soma do déficit público com estímulos via crédito, programas governamentais e elevação de gastos públicos.
"Quando se coloca o que a gente chama de parafiscal na conta, (o impulso) foi muito maior. A gente está fazendo um esforço adicional do parafiscal de cerca de 1,8% do PIB", afirmou.
Para Xavier, o País perfaz uma trajetória fiscal perigosa. Ele é contra propostas de cortar os juros "na marra" e usar reservas internacionais para controlar a taxa de câmbio. A medida, classificada como um "beijo da morte", causaria pânico entre investidores estrangeiros e detentores de ativos, provocando fuga de capitais e o surgimento de mercados paralelos de dólar.
Um 'cabo de guerra' entre gastos e controle
Silvia Matos ressaltou que, no Brasil, a política fiscal expansionista, somada a uma dívida pública elevada, mantém os juros reais nas alturas por um longo período, devido a um "cabo de guerra" entre as políticas fiscal e monetária.
"Estamos vendo hoje um juro real muito elevado com esse cabo de guerra da política fiscal com a política monetária, que é mais prejudicial do que positivo para a economia", afirmou,.
A economia brasileira desacelera
Com previsão de crescimento abaixo de 2%, apesar dos estímulos fiscais do governo, a economia brasileira já dá sinais de desaceleração, afirmou Silvia Matos. A economista destacou que os indicadores do terceiro trimestre já evidenciam a fraqueza da atividade. Ela projetou o crescimento do PIB em 1,7% no ano de 2026, podendo oscilar levemente para mais ou para menos, o que caracteriza uma atividade "muito próxima da estagnação".
Matos acrescentou que setores que tiveram forte contribuição nos anos anteriores, como o agronegócio, podem não manter o mesmo ritmo por fatores como o El Niño. "A principal mensagem é que a desaceleração econômica já chegou ao Brasil", afirmou.
Embora costume responder com maior atraso, o mercado de trabalho também aponta para uma menor criação de empregos no terceiro trimestre, o que deve fazer a massa de rendimentos apresentar uma trajetória menor de crescimento, disse. A demanda, por sua vez, apresenta perda de ritmo devido ao elevado endividamento de famílias e empresas.
Um mundo endividado e entusiasmado com a IA
"Se não houver uma maneira de acertar as contas públicas no mundo desenvolvido, nos próprios Estados Unidos, e de conter o entusiasmo com inteligência artificial e data center, nós muito possivelmente continuaremos com juros reais elevados no mundo, de maneira bastante expressiva", afirmou Senna.
O economista considerou a recente decisão do Fed de elevar os juros compatível com o cenário e as projeções apresentadas pelo próprio banco central para os indicadores macroeconômicos dos EUA. Ele citou que as previsões indicam que a economia americana continuará crescendo no ritmo atual, com estabilidade no desemprego e queda da inflação de 3,7% para 2,3%.