A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quinta-feira, (07/05) mais uma fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) está entre os alvos de mandados de busca e apreensão, segundo informações obtidas pela BBC News Brasil.
Nogueira é presidente nacional do Progressistas (PP) e ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro (PL).
Em nota, a PF confirmou que são cumpridos 10 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nos estados do Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal.
A decisão judicial autorizou, ainda, o bloqueio de bens, direitos e valores no valor de R$ 18,85 milhões.
A operação foi autorizada pelo ministro do STF André Mendonça, relator do caso no Supremo.
Em sua decisão, o magistrado cita investigações que apontam possível atuação de Nogueira em favor de Daniel Vorcaro e do Banco Master.
A BBC News Brasil procurou a defesa do senador, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
O documento assinado por Mendonça também autoriza um mandado de prisão temporária contra Felipe Cançado Vorcaro, primo do dono do Master.
A atual é a quinta fase da Operação Compliance Zero e foi deflagrada na mesma semana em que a defesa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, entregou à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de acordo de delação premiada. A oferta ainda está sob análise dos investigadores.
Como parte da investigação que levou à prisão de Vorcaro em março, a Polícia Federal obteve uma série de trocas de mensagens que deixaram clara a teia de relações que o dono do banco Master mantinha com as mais altas autoridades da República.
Entre os trechos de conversas particulares que estavam no celular de Vorcaro, obtidas pela BBC Brasil, há mensagens que mencionam relações e encontros com autoridades, entre elas o senador Ciro Nogueira.
Nogueira é um dos principais nomes do Centrão, bloco de partidos com menor identidade ideológica e que tende a negociar apoio aos governos de acordo com interesses políticos e cargos.
'Recebimento de vantagens econômicas indevidas'
Na decisão que autorizou a operação desta quinta, André Mendonça aponta a identificação, pela PF, de "suposta conduta do Senador Ciro Nogueira Lima Filho em favor do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, em troca do recebimento de vantagens econômicas indevidas".
O magistrado cita descobertas feitas a partir de investigações, análises de trocas de mensagens obtidas no celular de Vorcaro e da confirmação de "aquisição de participação societária com expressivo deságio, pagamentos mensais da ordem de R$ 300 mil ou mais, além de outras transações atípicas atribuídas à estrutura vinculada ao parlamentar."
O documento ainda aponta que Nogueira teria apresentado no Senado uma proposta de emenda elaborada pela assessoria do Master e que foi entregue a ele em um envelope.
Trata-se de uma emenda à PEC 65/2023, que aumentava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
O texto da emenda teria sido elaborado pela assessoria do banco e reproduzido integralmente pelo parlamentar. A proposta, segundo o relatório da PF, "sextuplicaria" o negócio da instituição financeira e provocaria uma "hecatombe" no sistema financeiro".
"O conteúdo da versão entregue é 'reproduzido de forma integral pelo parlamentar' ao Senado, tendo Vorcaro afirmado, logo após a publicação da proposta de Emenda, que o ato legislativo 'saiu exatamente como mandei', ao passo que interlocutores do banco registraram que a medida 'sextuplicaria' o negócio do Master e provocaria verdadeira 'hecatombe' no mercado", descreve Mendonça na sua decisão.
Ainda segundo o magistrado, o texto elaborado pela assessoria do Master teria sido "impresso e entregue em envelope endereçado a 'Ciro' em seu endereço residencial".
'Grande amigo'
Em uma das conversas obtidas pela PF no celular de Vorcaro, o banqueiro fala com a namorada, Martha Graeff, em maio de 2024, sobre o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
O banqueiro diz querer apresentá-la ao político, "muito amigo meu". "Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida", diz.
Três meses mais tarde, Vorcaro fala sobre um "projeto de lei" apresentado por Nogueira.
"Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro!".
"Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco."
Graeff comemora o projeto, e Vorcaro diz: "Kkk todo mundo me ligando. Sentiram o golpe."
Naquele mês de agosto, na discussão da PEC (proposta de emenda à Constituição) sobre a autonomia do Banco Central, Nogueira apresentou uma emenda para aumentar a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A proposta não foi para frente.
As liquidações do Master, em novembro, e do Will Bank — que pertencia ao Master —, em janeiro, geraram um rombo de aproximadamente R$ 47 bilhões ao FGC, uma associação privada que funciona como um tipo de "seguro" e que prevê o reembolso em caso de liquidação de investimentos de até R$ 250 mil.
As mensagens ainda mostram Vorcaro falando sobre planos de ir ao casamento da filha de Nogueira, Duda, com a namorada.
Além dessas conversas sobre Ciro, a Polícia Federal também teria encontrado mensagens do próprio senador a Vorcaro, segundo reportagem do Estadão, mas que ainda não foram reveladas. Também haveria ordens do banqueiro para pagamento a uma pessoa de nome "Ciro", citado sem o sobrenome.
Na época em que as mensagens foram reveladas, a BBC News Brasil procurou o senador para questionamentos, mas não obteve resposta.
*Esta reportagem está em atualização