Banco Central Europeu recebe apoio para moeda digital que desafia gigantes dos pagamentos

O projeto do euro digital deu um passo decisivo nesta terça-feira (23) após receber o apoio da Comissão de Assuntos Econômicos do Parlamento Europeu, aproximando a União Europeia da criação de uma moeda eletrônica emitida pelo Banco Central Europeu (BCE). O euro digital funcionará como uma versão eletrônica da moeda comum europeia, com o mesmo valor das notas e moedas em circulação.

23 jun 2026 - 13h14

A iniciativa busca reduzir a dependência do bloco em relação a sistemas de pagamento controlados por empresas norte-americanas, como Visa, Mastercard, PayPal e Apple Pay, em um momento de crescente tensão nas relações entre Europa e Estados Unidos.

Na foto, página do site do Banco Central Europeu sobre o euro digital exibida em um celular, em Bruxelas, em 10 de fevereiro de 2026. O Banco Central Europeu recomendou à União Europeia, em 6 de fevereiro de 2026, que avançasse rapidamente com a adoção do euro digital, alertando que atrasos deixariam o continente dependente de grandes empresas de tecnologia estrangeiras.
Na foto, página do site do Banco Central Europeu sobre o euro digital exibida em um celular, em Bruxelas, em 10 de fevereiro de 2026. O Banco Central Europeu recomendou à União Europeia, em 6 de fevereiro de 2026, que avançasse rapidamente com a adoção do euro digital, alertando que atrasos deixariam o continente dependente de grandes empresas de tecnologia estrangeiras.
Foto: AFP - NICOLAS TUCAT / RFI

Após seis anos de estudos e preparativos, o euro digital ganhou impulso político desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. As tarifas comerciais impostas pelo governo norte-americano até mesmo a aliados históricos da Europa reforçaram temores de que Washington possa, no futuro, utilizar sua influência sobre as redes globais de pagamento como instrumento de pressão econômica ou política.

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O euro digital funcionará como uma versão eletrônica da moeda comum europeia, com o mesmo valor das notas e moedas em circulação. Diferentemente das criptomoedas, o sistema será totalmente garantido pelo BCE. Os usuários poderão abrir uma carteira digital por meio de bancos ou instituições autorizadas, transferindo recursos de contas bancárias convencionais ou realizando depósitos em dinheiro. Os pagamentos poderão ser feitos em lojas físicas, pela internet ou entre pessoas, utilizando cartões, aplicativos bancários ou smartphones.

Segundo a proposta em discussão, o novo sistema não substituirá o dinheiro em espécie nem os meios de pagamento já existentes, mas oferecerá uma alternativa adicional aos consumidores. O BCE argumenta que a medida ampliará a soberania financeira da zona do euro ao criar uma infraestrutura de pagamentos genuinamente europeia.

Dependência representa vulnerabilidade estratégica

Atualmente, cerca de dois terços das transações realizadas com cartões na zona do euro são processadas por empresas de fora do continente. Além disso, 13 dos 21 países que utilizam a moeda única não possuem sistemas nacionais próprios para pagamentos eletrônicos cotidianos. Para os defensores do projeto, essa dependência representa uma vulnerabilidade estratégica.

A discussão ganhou força após episódios recentes envolvendo sanções impostas pelos Estados Unidos contra autoridades estrangeiras. Um dos casos mais citados na Europa foi o de magistrados do Tribunal Penal Internacional que tiveram restrições de acesso a serviços financeiros vinculados a empresas norte-americanas, alimentando preocupações sobre a autonomia dos sistemas de pagamento europeus.

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O BCE também promete elevados padrões de privacidade. De acordo com o projeto, as transações não permitirão a identificação direta dos usuários e haverá até mesmo um modo offline com nível de confidencialidade semelhante ao do dinheiro em espécie. A instituição trabalha ainda no desenvolvimento de funcionalidades adicionais para o comércio eletrônico, como pagamentos condicionados à entrega de produtos ou parcelamentos automatizados.

Resistência de bancos

Apesar do avanço político, o euro digital enfrenta resistência do setor bancário. As instituições financeiras temem perda de receitas e redução dos depósitos mantidos em contas correntes, já que parte dos recursos poderia migrar para as carteiras digitais vinculadas ao BCE. Um estudo divulgado pela Federação Bancária Europeia estima que a adaptação ao novo sistema poderia custar cerca de € 18 bilhões (aproximadamente R$ 115 bilhões) ao setor. O BCE, por sua vez, calcula despesas bem menores, entre € 4 bilhões e € 5,8 bilhões (entre R$ 25,6 bilhões e R$ 37,1 bilhões).

Os bancos também argumentam que a nova ferramenta pode concorrer diretamente com iniciativas privadas de pagamento desenvolvidas na Europa, como a plataforma Wero. O Banco Central Europeu rejeita as críticas e afirma que o projeto foi desenhado para evitar retiradas massivas de depósitos e preservar a estabilidade financeira, mesmo em cenários de crise.

Com a aprovação na comissão parlamentar, os legisladores europeus devem iniciar no próximo mês negociações com os governos dos países-membros e com a Comissão Europeia. O objetivo é concluir a tramitação da legislação até o final deste ano. Caso isso aconteça, o BCE pretende lançar uma fase de testes a partir do segundo semestre de 2027, seguida por um projeto-piloto de 12 meses. A expectativa da autoridade monetária é que o euro digital esteja disponível para toda a população da zona do euro em 2029.

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Entidades de defesa do consumidor receberam positivamente o avanço da proposta. A Organização Europeia das Associações de Consumidores afirmou que o texto aprovado pelos parlamentares fortalece garantias relacionadas à privacidade e assegura a gratuidade do sistema para os usuários finais.

Se aprovado em definitivo, o euro digital representará uma das maiores transformações do sistema financeiro europeu desde a criação da moeda única, marcando uma nova etapa na busca da União Europeia por maior autonomia econômica e tecnológica.

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