Para driblar a ditadura militar, Dias Gomes adaptou sua peça censurada "O Berço do Herói" e transformou o protagonista militar em Roque Santeiro, um falso mártir cultuado pelo povo. Mesmo com a mudança temática para a fé popular, a novela da Globo foi vetada às vésperas da estreia em 1975. A trama só foi liberada e exibida em 1985, tornando-se um marco da televisão brasileira com sua crítica à manipulação política e à exploração comercial em torno da criação de falsos mitos.
A história de Roque Santeiro, uma das novelas mais marcantes da televisão brasileira, começou muito antes de a produção chegar à Globo. A trama criada por Dias Gomes teve origem em uma tentativa do autor de levar para a televisão uma história que já havia enfrentado a censura durante a Ditadura Militar.
A inspiração veio de O Berço do Herói, peça escrita por Dias Gomes e proibida em 1965. Na obra original, o protagonista era um militar que havia sido considerado herói após supostamente morrer em combate. A história, porém, apresentava uma visão crítica sobre a construção de heróis e os interesses políticos e econômicos por trás do mito.
Dias Gomes tentou esconder a origem da história
Quando decidiu transformar a ideia em uma novela, anos depois, Dias Gomes sabia que precisaria encontrar uma maneira de evitar que os censores percebessem imediatamente a ligação com a peça que havia sido proibida.
A solução encontrada pelo autor foi alterar justamente a identidade do protagonista. Em vez de um militar, o personagem passou a ser apresentado como um homem ligado à religiosidade popular.
Assim nasceu Roque Santeiro, um artesão de santos de barro que teria morrido como um mártir ao defender a cidade de Asa Branca. A população passa a venerá-lo como santo e transforma sua suposta morte em uma verdadeira indústria de fé.
A mudança não era apenas estética. Ao trocar o militar por um santo, Dias Gomes tentou afastar a nova obra da temática considerada problemática pela censura.
A peça havia sido proibida em 1965
A origem da história remonta ao primeiro ano da Ditadura Militar. O Berço do Herói tinha uma crítica direta à construção de figuras heroicas e ao uso político dessas imagens.
Na peça, o personagem central era um cabo da Força Expedicionária Brasileira que supostamente havia morrido durante a Segunda Guerra Mundial, lutando contra os nazistas na Itália. Em sua cidade natal, ele era transformado em herói e, posteriormente, em uma espécie de santo.
O problema é que o militar não estava morto. Ele reaparecia anos depois, colocando em risco toda a estrutura construída em torno de sua imagem. A volta do personagem ameaçava os interesses de pessoas que lucravam com o mito criado ao seu redor.
A peça foi proibida pela censura poucas horas antes de sua estreia no Rio de Janeiro, em julho de 1965.
O militar virou um santo na versão para a TV
Uma década depois, Dias Gomes apresentou à Globo uma nova versão da história. Para tentar evitar que os censores identificassem a ligação com O Berço do Herói, o autor modificou elementos importantes da narrativa.
O antigo militar foi substituído por Roque Santeiro, um personagem associado à fé popular. Na nova versão, sua suposta morte dá origem a um poderoso mito em Asa Branca.
A cidade passa a explorar comercialmente a imagem do homem considerado santo. Comerciantes, políticos e outras figuras influentes se beneficiam da crença popular, enquanto a população mantém viva a história de seu suposto mártir.
Mesmo assim, a censura descobriu a estratégia
Apesar das mudanças feitas por Dias Gomes, a tentativa de esconder a verdadeira origem da trama não foi suficiente.
A primeira versão televisiva de Roque Santeiro chegou a ser produzida pela Globo em 1975, com nomes como Francisco Cuoco, Betty Faria e Lima Duarte no elenco. No entanto, a novela foi proibida pela censura na véspera da estreia.
A Globo foi pega de surpresa e precisou encontrar uma solução emergencial para preencher o horário. A emissora exibiu um compacto de Selva de Pedra enquanto acelerava a produção de Pecado Capital.
Novela só chegou ao público dez anos depois
O público brasileiro precisou esperar até 1985 para finalmente assistir a Roque Santeiro. Uma nova produção foi realizada pela Globo, dessa vez com José Wilker no papel principal, Regina Duarte como Viúva Porcina e Lima Duarte novamente interpretando Sinhozinho Malta.
Na trama exibida em 1985, Roque retorna à cidade 17 anos depois de sua suposta morte e ameaça todo o sistema construído em torno de sua imagem.
A volta do personagem coloca em risco os negócios e o poder daqueles que lucravam com a existência do "santo", transformando a novela em uma sátira à exploração da fé popular e aos interesses políticos e comerciais associados ao mito.
Uma história marcada pela censura
A trajetória de Roque Santeiro acabou se tornando tão curiosa quanto a própria história contada na novela. A produção que se tornou um dos maiores sucessos da televisão brasileira nasceu de uma obra teatral censurada e passou por uma primeira tentativa frustrada de chegar às telas.
Ao trocar o militar por um santo e modificar a estrutura da história, Dias Gomes tentou contornar as restrições impostas pelo regime. Ainda assim, a censura identificou a origem da trama e impediu sua exibição em 1975.
Dez anos depois, finalmente liberada, Roque Santeiro chegou à televisão e se transformou em um clássico da dramaturgia brasileira, mantendo justamente a crítica à exploração da fé, dos símbolos populares e da construção de falsos heróis.
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