“Me chamaram de fascista, fui para-raios de extremistas”, diz Bonner sobre ataques

Apresentador relata os sacrifícios por ficar no meio da guerra ideológica entre direita e esquerda

6 fev 2026 - 07h18
(atualizado às 07h18)

A vida de William Bonner mudou a partir de 2013. O grau de hostilidade na internet e, eventualmente, em ambientes públicos, o tornou um alvo no meio da guerra ideológica.

“Fui chamado de fascista, teve xingamentos com palavrões”, relembrou em coletiva de imprensa na sede da Globo em São Paulo. A coluna estava presente.

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“A história que antes era de um lado do espectro político começou a se manifestar também no outro”, relembra.

“A extrema esquerda e a extrema direita agiram com intolerância deliberada. A Globo é símbolo do jornalismo no Brasil. O Jornal Nacional é um símbolo do jornalismo da Globo e eu era o símbolo do Jornal Nacional. Então eu era um para-raio desse tipo de ação.”

Como já se sabia, o apresentador desistiu de usar a ponte-aérea para se preservar. “Evitei aviões em voos curtos porque eu não queria passar por constrangimento.”

Em dois momentos delicados na família, ele preferiu dirigir quase 1.000 km por semana a enfrentar o provável clima tenso nos aeroportos.

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“Meu pai doente, ao longo de um ano, eu fiz viagens semanais do Rio a São Paulo, vinha no sábado e ia embora no domingo. E depois, com a doença da minha mãe, que durou menos tempo, cinco meses”, recorda.

A beligerância contra Bonner envolveu o vazamento criminoso de dados sigilosos de parentes e até um episódio de intimidação em uma padaria. Ele perdeu parte relevante da liberdade de ir e vir.

William Bonner agora ouve "muito obrigado" por sua atuação no 'JN' ao invés de hostilidade constante: "Não sei se os haters me odeiam menos"
William Bonner agora ouve "muito obrigado" por sua atuação no 'JN' ao invés de hostilidade constante: "Não sei se os haters me odeiam menos"
Foto: Thiago Bokel/TV Globo

Segundo afirma, a situação está melhor. Voltou a frequentar o Santos Dumont e Congonhas. “O país passou por uma tentativa de golpe de Estado, pessoas envolvidas nesse processo estão sendo punidas, algumas já estão presas, e eu tenho a impressão de que os haters da extrema direita envolvidos nisso, que pudessem querer me hostilizar, andam mais tranquilos”, analisa.

“Eu não sei se eles me odeiam menos agora, eu acho que não é bem isso, mas acredito que há um clima no país que não favorece esse tipo a hostilidade manifestada publicamente por um integrante da extrema direita contra um jornalista, não daria uma boa repercussão.”

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Bonner afirma que sua saída do ‘Jornal Nacional’, em novembro de 2025, produziu uma sensação curiosa. “Eu sinto como se tivesse falecido.”

“Porque quando alguém famoso morre, e a imprensa publica os perfis daquele morto, em geral pega um pouco mais leve, destacam os fatos mais positivos. Fiquei muito surpreso com o que publicaram ao meu respeito”, afirma.

“Eu disse para a minha mulher: ‘é como se eu tivesse morrido’. Gente que me criticava, era ácida nas notas, foi super generosa. Havia ali respeito. Um respeito que, muitas vezes, ao longo de muitos anos, eu não vi ninguém ter a preocupação de manifestar.”

O jornalista relata que as pessoas que o encontram pedem “foto, abraço”. Ele lembrou de um episódio em Sintra, Portugal, quando foi cercado por turistas brasileiros.

Segundo contou, está ouvindo com frequência: “gosto de você”, “não deveria ter saído do Jornal Nacional”, “está certo em aproveitar a vida”.

“Ouvi ‘muito obrigado’. ‘O país deve a você’. Eu ouvi isso de pessoas muito simples e também de um ex-presidente de uma estatal que fumava alegremente um charuto numa rua de Lisboa”, relata.

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“E adoro dizer para as pessoas: ‘olha, esse seu muito obrigado é simbolicamente para uma categoria profissional inteira, porque eu não fiz nada sozinho nem no JN, nem na Globo, nós somos muitos no Brasil brigando pela mesma causa, o respeito à Constituição e a preservação da democracia.”

Desde a despedida da bancada do telejornal, Bonner fez viagens a Campos do Jordão, Nova York, Paris e Bahia. Recuperou um ativo cada vez mais valioso: o tempo.

“No meu dia, eu só não estava ligado na Globo e no Jornal Nacional nas horas que eu passava dormindo. E dormia cada vez menos. Nunca tive problema de sono, mas vinha dormindo 5 horas e meia, 6 horas”, conta.

“Eu estava exausto o tempo todo, estava saturado. E não é culpa do Jornal Nacional, a culpa é dos tempos da gente, que não consegue se afastar de um celular e ignorar uma mensagem”, explica.

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“Eu não conseguia mais ler um capítulo de um livro por dia sem interromper para ficar vendo mensagem. Mas chega uma hora que a conta se apresenta.”

A partir de 20 de fevereiro, William Bonner poderá ser visto toda sexta-feira no comando do ‘Globo Repórter’ ao lado de Sandra Annenberg. Além de apresentar, ele fará matérias especiais. “Sem a urgência do factual”, ressalta.

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