Quais as razões da fúria da Band contra o governo Bolsonaro

Editorial lido no principal telejornal da emissora chama Eduardo Bolsonaro de "irresponsável" e o chanceler Ernesto Araújo de "idiota"

21 mar 2020 - 11h51

Causou espanto e gerou ruidosa repercussão o editorial apresentado na edição de sexta-feira (20) do Jornal da Band. Em tom acima do habitual, o âncora Eduardo Oinegue — jornalista experiente com muitos anos de revistas Veja e Exame — abriu fogo verbal contra o deputado federal e filho presidencial 03, Eduardo Bolsonaro, e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

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A crítica contundente girou em torno da participação de ambos na crise diplomática com a China por conta de post do parlamentar, no qual responsabilizou o governo de Pequim pela pandemia global de covid-19. Sem meias palavras, a Band disparou virulência inédita nessa cobertura jornalística do novo coronavírus.

Eduardo Bolsonaro foi chamado de "deputado irresponsável" e "imaturo" por fazer uma "provocação desnecessária" ao principal parceiro comercial do Brasil. A Ernesto Araújo coube as classificações de "chanceler idiotizado", "lamentável" "incapaz", "despreparado", "inepto" e "idiota".

Raras vezes, nos quase 70 anos de televisão brasileira, uma emissora de TV manifestou de maneira tão enfática sua contrariedade contra um membro do governo (o chanceler Ernesto Araújo) e uma pessoa do círculo íntimo do presidente da República, sendo também do parlamento (o deputado Eduardo Bolsonaro).

O que está por trás de tal atitude da Band? Pode-se listar algumas possibilidades. A primeira é ressaltar sua isenção em relação ao governo. A família Saad, proprietária do Grupo Bandeirantes, demonstra fazer questão de não ter proximidade ideológica de Jair Bolsonaro, ao contrário do que se vê em relação ao comportamento de Silvio Santos, dono do SBT, e Edir Macedo, da RecordTV.

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O âncora Eduardo Oinegue deu voz à insatisfação da família Saad em relação ao governo de Jair Bolsonaro
O âncora Eduardo Oinegue deu voz à insatisfação da família Saad em relação ao governo de Jair Bolsonaro
Foto: Reprodução/Band

No ar desde 1967, a Band enfrenta uma de suas piores crises financeiras. A dificuldade do governo federal em acelerar o crescimento da economia é um dos entraves à recuperação da emissora. Já nos tempos do saudoso Ricardo Boechat, âncora anterior do Jornal da Band morto em acidente de helicóptero em fevereiro de 2019, o jornalismo do canal já lançava críticas e cobranças à Presidência.

Nesse campo, a Band parece determinada a ganhar mais relevância editorial diante da postura chapa-branca de concorrentes. Sinaliza não estar disposta a aliviar a pressão contra o governo na expectativa de receber fatia maior da disputada verba publicitária da Presidência, dos ministérios e das estatais. Resta aguardar a reação do Palácio do Planalto — e conferir se o canal do Morumbi, agora na mira da artilharia bolsonarista, vai manter esse jornalismo combativo.

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