A desistência de Pedro no ‘BBB26’ aconteceu após uma sequência de episódios que escalaram dramaticamente diante das câmeras e culminaram na acusação de assédio feita por Jordana, que afirmou ter sido alvo de uma tentativa de beijo sem consentimento.
O caso, grave por si só, funcionou como estopim de uma trajetória marcada por desordem, provocação e um ambiente de tensão que se consolidou dia após dia dentro da casa.
Antes mesmo da denúncia, Pedro havia se notabilizado por atitudes que cruzaram a linha do conflito saudável. Houve episódios de intolerância religiosa contra Ana Paula, tentativas explícitas de instrumentalizar a polarização política para incendiar discussões, simulação debochada de crise de ansiedade e um comportamento reiterado de desrespeito às regras básicas de convivência, como pegar objetos pessoais de outros competidores sem autorização.
O incômodo também se materializou em situações constrangedoras e aparentemente gratuitas: cantar de forma repetitiva até exaurir os colegas, gritar sem motivo enquanto corria pelo jardim, criar cenas que mais pareciam testes de tortura psicológica. A casa reagia com desconforto. O público, nas redes, manifestava perplexidade. A sensação era a de que o caos havia virado método.
Para além do confinamento, Pedro provocou desgaste ao repetir incontáveis vezes que havia traído a esposa, transformando um tema íntimo em mantra vexatório, sem considerar o impacto humano da confissão fora do programa.
O efeito foi duplo: alimentou a rejeição dos telespectadores e aprofundou o mal-estar entre os confinados, que passaram a enfrentar uma narrativa obsessiva e autocentrada.
Diante desse histórico, a responsabilidade da Globo não pode ser relativizada. A emissora deveria ter agido para neutralizar a desordem do rapaz — seja ela originada por uma questão de caráter, saúde mental ou da combinação de ambas.
A inação prolongou um quadro que poderia ter resultado em algo pior. Não à toa, Babu chegou a relatar temor de que Pedro pudesse usar alguma faca da cozinha, um alerta que jamais deveria ser ignorado em um ambiente de confinamento total.
Faltou à Globo compreender que, diante da explícita escalada de descontrole de Pedro, o caminho não era apenas o silêncio ou a espera pelo desfecho imprevisível.
O apresentador Tadeu Schmidt poderia — e deveria — ter sido acionado como mediador simbólico para abordar, de forma responsável, o tema da saúde mental, que há muito deixou de ser periférico e se tornou indissociável do ‘BBB’.
Um posicionamento objetivo, pedagógico e humano ajudaria a contextualizar o comportamento do rapaz, traria suporte aos demais confinados e sinalizaria aos telespectadores que sofrimento psíquico não é entretenimento, mas um assunto sério que exige intervenção e cuidado.
A essência do formato do reality show são os conflitos variados entre os competidores. Quem assiste quer ver confusão. Mas há limites inegociáveis, sobretudo quando a integridade física e psicológica das pessoas está em risco — inclusive a do próprio participante supostamente disfuncional.
Ao colocar alguém no programa, a emissora assume 100% de responsabilidade pelo que ocorre ali dentro. Quando o espetáculo ameaça virar um dano ao bem-estar físico e psíquico, o dever de preservar os participantes deve falar mais alto que o entretenimento sádico em nome da audiência e do lucro.
Após uma experiência tão mal-sucedida como a vivida no 'BBB26', é fundamental que Pedro seja avaliado por um profissional de saúde mental, seja um psiquiatra ou um psicólogo, não como punição ou estigmatização, mas como medida de proteção.
A passagem por qualquer reality show pode potencializar fragilidades, agravar quadros pré-existentes e gerar novos traumas, sobretudo quando há rejeição, conflitos intensos e acusações graves. Um acompanhamento especializado é o caminho responsável para compreender o que houve, tratar eventuais transtornos e possibilitar a retomada da vida.