'Sentia vergonha de falar russo depois da guerra', diz escritor ucraniano na Flip 2026

Andrei Kurkov, autor de 'Ucrânia: Diário de Uma Guerra', dividiu mesa com a escritora ucraniana radicada no Canadá Maria Reva, autora de 'Extinção', livro que se passa durante o início da guerra com a Rússia

24 jul 2026 - 04h06

PARATY - Linguagem, identidade, deslocamento e a escrita em meio à devastação da guerra foram temas da mesa que uniu os ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov no início da tarde desta quinta, 23, na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), com mediação de Laura Capelhuchnik. Ambos os autores, de diferentes maneiras, escreveram livros sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já passa dos quatro anos de duração.

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Kurkov, de 65 anos, é romancista nascido na Rússia, mas cresceu na Ucrânia. Em 24 de fevereiro de 2022, dia dos primeiros ataques russos, acordou com barulhos de explosão e viu os primeiros momentos da guerra em sua janela. No dia seguinte, ele e a mulher deixaram sua casa para uma cidade no oeste do país, próximo à fronteira, onde seus filhos passavam férias. Não sabia naquele momento que passaria quatro meses como refugiado na casa de uma senhora que não conhecia até então. E que abrigaria no mesmo local outras pessoas, que também fugiam do estopim da guerra.

Kurkov interrompeu seu trabalho como ficcionista. "Eu esqueci que era escritor. Acho que todos esqueceram o que eram naquele momento", disse. Foi então que começou seu diário. Primeiro, como uma maneira de explicar a si mesmo por que não conseguia escrever ficção: "Você não consegue escrever ficção e nem ler ficção porque isso é um prazer. E sentir prazer [durante a guerra] parece algo imoral."

Os escritores ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov dividem mesa na Flip 2026.
Os escritores ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov dividem mesa na Flip 2026.
Foto: Walter Craveiro/Flip 2026/Divulgação / Estadão

Até que começou a registrar o dia a dia, a solidariedade, as pequenas histórias dos ucranianos naquele momento. Seus registros deram origem a Ucrânia: Diário de Uma Guerra, publicado no Brasil pela Carambaia com tradução de Márcia Vinha e Renato Marques. "De alguma forma, a Ucrânia sempre sobrevive. Temos muitas tragédias na histórias da Ucrânia e essa guerra é mais uma dela", afirmou o escritor. "Essa guerra mostra que os ucranianos são capazes de resistir."

Durante a conversa, Kurkov disse que a cultura ucraniana "ainda é parcialmente desconhecida do resto do mundo", algo que atribuiu à história imperial, pela dominação soviética, que "escondeu" muito do país. Por conta disso, grande parte dos ucranianos, especialmente nas maiores cidades, são falantes do russo. O escritor, que também é fluente em ucraniano e inglês, mas usa o russo no dia a dia, sofreu com o idioma no início da guerra: "No início da invasão, eu queria 'calar a boca', porque sentia vergonha do idioma russo."

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A questão do idioma e, consequentemente, da linguagem, também foi uma questão para Maria Reva, de 37 anos. "Tenho que me lembrar que a língua que você fala em casa não é a mesma coisa que sua filiação política", disse ela, cujo idioma materno é o russo. Ela vive em Vancouver, no Canadá, para onde se mudou aos sete anos. Alguns de seus familiares, incluindo seu avô, ainda moram no sul da Ucrânia. "É como ter uma realidade dividida em duas. Você tem um pé na sua vida e outro pé na vida dos seus familiares", explicou.

Maria é autora de Extinção (publicado pela DBA com tradução de Gisele Eberspächer), um romance peculiar que acompanha Yeva, uma cientista que trabalho com caracóis em extinção e, para financiar sua pesquisa, trabalha como "noiva" em uma agência de casamentos internacionais. Duas irmãs que trabalham na mesma agência, Nastia e Sol, são infiltradas que pedem a ajuda de Yeva para sequestrar alguns dos pretendes, numa tentativa de expor a indústria que transforma mulheres em mercadoria.

O plano está traçado, até que os primeiros bombardeios em Kiev acontecem, mudando a trajetória do livro. Foi mais ou menos o que aconteceu na vida real: Maria tinha um romance desenhado, mas o início da guerra pausou seus planos. "Naquela época, escrever ficção não parecia relevante. Como eu poderia escrever um livro enquanto aquilo estava acontecendo na vida real?", disse.

Largou o livro por um tempo, até que decidiu inserir o conflito dentro da narrativa. Maria vira quase personagem da história, quebrando a quarta parede e questionando o leitor sobre o que ela própria está narrando. "É moralmente errado transformar guerra em arte, transformar toda essa dor em arte? Queria levar o leitor para esse enigma comigo", explicou.

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A Flip 2026 segue até domingo, 26, na cidade histórica fluminense, com presença de autores nacionais e internacionais, como Milton Hatoum, Katie Kitamura e Zadie Smith. As mesas da programação oficial são transmitidas ao vivo pelo YouTube da Flip.

*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026

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