'Relação entre filosofia e ciência é recíproca e simbiótica', diz intelectual americana

Filósofa e escritora Rebecca Goldstein, convidada do São Paulo Innovation Week, fala sobre filosofia no mundo contemporâneo, IA e 'desigualdade de importância' nos EUA

11 abr 2026 - 05h41

A filósofa e escritora americana Rebecca Goldstein, de 76 anos, defende que filosofia e ciência mantêm uma relação "recíproca e simbiótica". Para ela, à medida que a tecnologia avança, novos dilemas emergem, ampliando o campo de reflexão filosófica e reforçando o diálogo contínuo entre as duas áreas.

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A intelectual nascida em Nova York, que já foi agraciada com a Medalha Nacional de Humanidades pelo ex-presidente Barack Obama na Casa Branca, é uma das palestrantes confirmadas no São Paulo Innovation Week.

O evento de inovação, tecnologia e empreendedorismo reunirá mais de mil convidados brasileiros e internacionais, entre os dias 13 e 15 de maio, na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Admiradora de Sartre e Simone de Beauvoir, a autora é referência em aproximar filosofia e literatura, tendo escrito dez livros, entre ficção e não ficção. Três deles foram editados no Brasil: 36 Argumentos para a Existência de Deus (Companhia das Letras), Platão no Googleplex: Por que a Filosofia Não Vai Acabar (Civilização Brasileira) e Incompletude (Companhia das Letras). Seu trabalho mais recente, The Mattering Instinct (ainda sem tradução no País), aborda o conceito do "instinto de importância".

Rebecca possui doutorado em filosofia da ciência pela Universidade de Princeton e lecionou em Yale, Columbia e NYU, além de ser pesquisadora Associada no Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard.

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Leia abaixo trechos da entrevista.

A senhora é conhecida por ser um filósofa que é aliada da ciência. Acredita que o progresso científico pode ser sustentado pela filosofia?

Eu acredito que um sustenta o outro. É uma relação recíproca e simbiótica. Quanto mais filosofia há, mais se empurra a ciência para frente. A ciência, por sua vez, está sempre levantando mais perguntas para os filósofos. Nos dias atuais, um dos itens mais discutidos é a inteligência artificial. Essas máquinas realmente estão pensando, elas vão nos substituir, qual vai ser o papel da humanidade e da criatividade por causa da IA? Essas são perguntas muito filosóficas que o progresso científico e tecnológico está forçando sobre os filósofos.

Como a IA está transformando a filosofia?

Acabei de escrever um artigo sobre isso que vou publicar em breve. Eu não acho que a IA vá nos substituir, mas acho que todos os trabalhadores do conhecimento estão preocupados com isso, incluindo jornalistas. Há maneiras de a IA ajudar nosso pensamento, mas eu não acho que vá substituí-lo.

Em seus livros, a senhora frequentemente conecta filosofia e narrativa. A ficção e a literatura revelam verdades filosóficas que a argumentação formal não consegue?

Acho que sim. Penso especialmente na parte da filosofia que tem a ver com nossa dimensão existencial. O que a minha vida significa? Qual é o propósito da existência humana? Tudo está caminhando para a destruição, então como lidamos com isso? Isso pode ser capturado frequentemente na narração de histórias. Nossas emoções estão muito envolvidas nesse aspecto existencial da filosofia. Não é surpreendente que os grandes filósofos existencialistas Sartre, Camus e Simone de Beauvoir tenham escrito ficção assim como filosofia.

Tendo sido professora em algumas das universidades mais importantes do mundo, qual é sua principal responsabilidade com seus alunos?

Em primeiro lugar, fazê-los perceber suas responsabilidades, de pensar bem o que enriquecerá suas próprias vidas. Há muito em que pensar, e há muito a aprender. Eu nunca tive um momento de tédio em minha vida. O tédio é muito doloroso. Nós agimos com base em nossas crenças, então você tem que estar constantemente avaliando criticamente suas crenças. Isso é uma responsabilidade moral e cívica em uma democracia.

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Acredita que a filosofia ainda tem um papel prático na vida cotidiana das pessoas ou ela se tornou excessivamente acadêmica?

Ela se tornou excessivamente acadêmica e eu me rebelo contra isso. Toda a minha carreira tem sido uma rebelião contra manter a filosofia apenas na academia. É por isso que escrevo romances e livros para o grande público. Escrever artigos que apenas outros filósofos conseguem entender me entedia completamente. Acho isso autoindulgente. A filosofia tem a responsabilidade de se tornar acessível, compreensível e emocionalmente envolvente para as pessoas em geral que querem enriquecer suas vidas. A filosofia é boa demais para ficar restrita à academia.

Eu gostaria que a senhora explicasse o conceito do 'instinto de importância'. Esse conceito pode ser considerado uma base universal para a moralidade ou depende de um contexto cultural e individual para se desenvolver plenamente?

Os dois aspectos são muito importantes. Esse é o tema do meu último livro, publicado há dois meses nos EUA. Todos nós queremos que nossa própria vida tenha importância. É incutido em nossa própria identidade que temos que sentir que importamos para poder perseguir nossas vidas. Posso relatar que nos EUA existe uma grande desigualdade no sentido de que algumas pessoas parecem importar muito mais do que outras. E isso é determinado por quão ricas, poderosas e famosas elas são, deixando um monte de outras pessoas sentindo como se não importassem muito. Isso é um sentimento muito doloroso e pode se tornar um problema político e social. Isso pode levar a grande insatisfação, indignação, ressentimento. O anseio por importar em grande escala pode refazer a história, então é algo a que se prestar atenção.

À luz do seu livro '36 Argumentos para a Existência de Deus', a senhora acredita que Deus é mais uma necessidade psicológica humana do que uma conclusão racional?

Há uma maneira na qual a crença em Deus, de fato, é uma das formas mais poderosas de responder ao instinto de importância: sentir que você é importante para Deus. Quase todas as religiões acreditam que somos importantes para Deus. Então, [a crença em Deus] não é totalmente racional, mas é racional tentar de alguma forma ministrar nosso anseio de sermos importantes. Todas as maneiras de responder ao instinto de importância podem ser criativas ou destrutivas.

E, por último, gostaria de falar sobre sua participação no São Paulo Innovation Week. Como a senhora acredita que pode inspirar os empreendedores e os profissionais que estarão lá?

Estou ansiosa para ir ao Brasil. Há muito a ser dito para líderes. Um líder digno é alguém que está sempre ciente da necessidade que todos nós temos de importar. Não é ser um bom líder tratar aqueles sob sua liderança como se fossem fungíveis e não reconhecer o quanto é importante para eles o próprio senso de importância. Queremos sentir que nosso curto tempo de vida, de alguma maneira, importa, e isso é o que um bom líder confere àqueles que lidera.

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