As maldades e a frieza de Pilar, vilã de Isabel Teixeira em "Quem Ama Cuida", levantam dúvidas sobre um quadro de psicopatia. A psiquiatra Jéssica Martani explica que, embora a megera exiba traços como manipulação e falta de empatia, crueldade e crimes não configuram um diagnóstico automático. Na psiquiatria, a condição exige padrões consistentes e análise profunda, enquanto a ficção costuma dramatizar atitudes para fins narrativos e para ilustrar relações tóxicas e abusivas.
As armações e o rastro de perversidade deixados por Pilar, vivida por Isabel Teixeira em Quem Ama Cuida, novela das nove da Globo, têm despertado discussões intensas entre o público. A conduta fria e calculista da megera levantou o questionamento se a antagonista se enquadra clinicalmente no perfil de uma psicopata.
Manipulação e frieza de Pilar em 'Quem Ama Cuida'
Contudo, a fronteira entre a perversidade pura e uma condição clínica exige cautela e análise detalhada. A crueldade demonstrada em tela costuma ser associada rapidamente pelo público a distúrbios de personalidade, dada a ausência de escrúpulos da personagem.
"Quando observamos uma personagem como Pilar, de 'Quem Ama Cuida', que manipula pessoas, utiliza mentiras para conseguir o que deseja e chega ao ponto de planejar a morte de alguém para proteger os próprios interesses, é natural que o público associe essas atitudes à psicopatia. Mas precisamos entender que ser uma pessoa cruel, manipuladora ou cometer um crime não significa, automaticamente, ser psicopata. Na psiquiatria, a psicopatia é um conceito relacionado a um conjunto de características de personalidade e padrões de comportamento, como falta de empatia, ausência de remorso, manipulação, insensibilidade emocional e desrespeito persistente pelos direitos dos outros. Não estamos falando simplesmente de alguém que perde a paciência ou toma uma decisão ruim, mas de características que podem se manifestar de maneira consistente ao longo da vida", diz a psiquiatra Jéssica Martani.
O perfil da vilã e os limites do diagnóstico
Além disso, a especialista ressalta que o comportamento da megera interpretada por Isabel Teixeira chama a atenção pela forma como ela trata os demais como meros obstáculos em seu caminho. "No caso de Pilar, alguns comportamentos apresentados na novela chamam a atenção. Ela parece utilizar as pessoas como instrumentos para alcançar seus objetivos e, quando percebe que alguém pode ameaçar seus interesses, passa a enxergar essa pessoa como um obstáculo que precisa ser eliminado. Esse tipo de comportamento pode lembrar traços associados à psicopatia, principalmente quando existe uma combinação de manipulação, exploração dos outros e aparente indiferença diante do sofrimento causado. Entretanto, não seria correto afirmar que a personagem é psicopata apenas com base nessas atitudes. Mesmo sendo uma personagem fictícia, uma análise psiquiátrica mais cuidadosa precisaria considerar toda a sua história, a frequência desses comportamentos, suas motivações e a maneira como ela estabelece relações", ressalta.
Diante disso, é essencial diferenciar o conceito clínico de transtorno antissocial das definições usadas no meio jurídico e comportamental. "Uma questão importante é a diferença entre psicopatia e transtorno de personalidade antissocial. Embora os conceitos estejam relacionados, eles não são sinônimos. O transtorno de personalidade antissocial é um diagnóstico reconhecido pela psiquiatria e envolve um padrão persistente de desrespeito e violação dos direitos alheios, avaliado a partir de critérios clínicos específicos. Já a psicopatia é um conceito utilizado principalmente em contextos entais. Além disso, nem toda pessoa com transtorno de personalidade antissocial apresenta níveis elevados de traços psicopáticos, e nem toda pessoa com esses traços necessariamente comete crimes violentos", explica.
Charme sedutor e o mito do criminoso violento
Sendo assim, o poder de atração e a habilidade social da vilã também servem como ferramentas de dominação. "Outro aspecto que merece atenção é a forma como essas pessoas podem se relacionar com os outros. Em alguns casos, indivíduos com traços psicopáticos conseguem demonstrar charme, segurança e até uma aparente preocupação com alguém, mas utilizam essas habilidades para manipular situações e obter vantagens. Isso não significa que toda pessoa sedutora, ambiciosa ou emocionalmente reservada tenha algum transtorno. O que diferencia um comportamento isolado de um padrão preocupante é justamente a repetição, a intensidade e o prejuízo provocado nas relações", pontua.
Por outro lado, o senso comum costuma associar equivocadamente o transtorno de personalidade ao ato de tirar vidas. "Também existe uma ideia equivocada de que todo psicopata é um assassino ou de que pessoas que cometem crimes violentos necessariamente apresentam psicopatia. Isso não corresponde à realidade. A violência pode estar relacionada a diferentes fatores, e não podemos estabelecer um diagnóstico psiquiátrico apenas pela gravidade de um crime. Da mesma forma, é importante não confundir transtornos mentais com periculosidade, porque a grande maioria das pessoas que enfrenta problemas de saúde mental não apresenta comportamento violento", adverte.
O desejo de controle e o exagero da ficção
Portanto, as motivações da vilã encenada por Isabel Teixeira parecem girar em torno do medo da perda do poder e da exposição de seus segredos mais obscuros. "Na história de Pilar, chama a atenção o fato de que suas atitudes parecem estar relacionadas à necessidade de manter o controle, preservar interesses pessoais e evitar que seus segredos sejam revelados. Quando alguém reage a uma ameaça com comportamentos cada vez mais agressivos, podemos discutir mecanismos como baixa tolerância à frustração, hostilidade, desejo de vingança e dificuldades em reconhecer os limites do outro. Mas esses elementos, isoladamente, não permitem concluir que exista uma condição psiquiátrica específica", enfatiza.
Para a médica, o folhetim das nove cumpre o papel de abrir o debate sobre relações tóxicas na sociedade. "A novela traz uma oportunidade interessante para discutir como a manipulação e a ausência de responsabilidade afetiva podem aparecer nas relações humanas. Na vida real, o mais importante não é tentar diagnosticar alguém como psicopata, mas reconhecer comportamentos que representam riscos, como ameaças, violência, chantagem, humilhação e tentativas constantes de controle. Ninguém precisa receber um diagnóstico psiquiátrico para que suas atitudes sejam consideradas abusivas ou perigosas", analisa.
Dessa forma, a construção da vilã reflete o recurso dramático clássico da teledramaturgia, sem necessariamente firmar um laudo médico definitivo na ficção. "Por isso, quando me perguntam se Pilar é psicopata, eu diria que ela apresenta comportamentos que podem ser discutidos à luz de características associadas à psicopatia, mas não temos elementos suficientes para afirmar que ela se enquadra nesse perfil. A ficção costuma intensificar determinados traços para construir grandes vilões, enquanto a realidade clínica é muito mais complexa. O fundamental é compreender que crueldade não é, por si só, um diagnóstico, e que a avaliação de um transtorno de personalidade exige muito mais do que observar algumas atitudes, por mais graves que elas sejam", conclui Jéssica Martani.