A revista cultural Télérama destacou a capacidade de Jatahy e Moura de imaginar uma sequência para a obra de Ibsen, que mantém viva a reflexão sobre os conflitos entre interesses econômicos, questões ambientais e o bem comum. Para a revista, o público é privilegiado de acompanhar o embate entre visões de mundo opostas representadas pelos irmãos Thomas e Peter Stockmann.
Já a revista Le Nouvel Obs ressaltou o desempenho de Wagner Moura, descrevendo o ator como um convincente "denunciante", figura central da trama. Na crítica, o veículo lembra que "Um Julgamento" retoma a história no ponto exato no qual Ibsen a encerrou, transferindo-a para a América do Sul contemporânea. Thomas Stockmann, agora brasileiro, enfrenta um tribunal popular após denunciar a contaminação das águas que garantem a economia de sua comunidade.
Segundo a revista, a peça aborda temas de grande relevância atual, como corrupção, negacionismo, fake news, crise ambiental e o isolamento enfrentado por denunciantes que desafiam interesses econômicos poderosos. Embora faça algumas ressalvas ao ritmo de determinadas passagens do espetáculo, observando que "a encenação se mostra por vezes estranhamente monótona, e as falas, alternadas entre português, inglês e francês, podem se tornar cansativas", a crítica insiste que o trio de protagonistas sustenta o interesse do público. Le Nouvel Obs salienta ainda a interpretação "febril e combativa" de Wagner Moura.
"Máquina teatral"
Os elogios mais entusiasmados nesta primeira semana de apresentações vieram da revista Les Échos Week-End, que descreveu a peça como uma "formidável máquina teatral" e afirmou que o espetáculo "conquistou Avignon". A publicação destacou como Christiane Jatahy transpõe a ação para o Brasil contemporâneo sem perder a força original do texto de Ibsen. "É teatro de alto nível, elevado pela presença magnética e intensa de Wagner Moura", avalia.
Como a Nouvel Obs, Les Échos Week-End chama a atenção para a inserção de vídeos no palco, apontando que "a osmose teatro-cinema é perfeita". A publicação sublinha um dos elementos que considera mais originais da montagem: o julgamento acontece ao vivo e o veredito pode mudar a cada apresentação, já que 11 espectadores, escolhidos por sorteio, formam o júri responsável por decidir se Thomas Stockmann é ou não um "inimigo do povo".
Segundo a revista Les Échos Week-End, o aparato cênico ajuda a abordar tanto o fortalecimento das chamadas "verdades alternativas" e a manipulação dos regimes democráticos, quanto os desafios de comunicar e fazer aceitar verdades que incomodam. A revista lembra ainda que o espetáculo foi criado no Brasil e a experiência do governo Bolsonaro "certamente teve um impacto em sua concepção".