O 14º álbum de Morrissey, Make-Up Is a Lie, encontra o cantor vestindo todas as suas máscaras favoritas: o romântico eterno, o resmungão incansável, a velha alma frágil, o mártir da liberdade de expressão, o guardião nostálgico do rock e o miserabilista celestial. Ele afirma que anos de declarações políticas controversas tornaram difícil encontrar uma gravadora para lançar o disco, seu primeiro em cinco anos. No fim, ele acabou na Sire Records, selo que lançou os discos dos The Smiths e seus primeiros trabalhos solo. "Quero me afastar daqueles que passam o dia inteiro olhando para telas/Quero me manifestar e não ficar preso pela censura", canta sobre o brilho de guitarras de rock alternativo oitentista em "You're Right, It's Time" — um dos vários momentos em que uma autoindulgência desajeitada atrapalha o que poderia ser uma música bem boa.
O ponto mais baixo é o pálido "shitpost" disco "Notre Dame", no qual ele sugere a teoria conspiratória xenófoba de que o incêndio de 2019 que destruiu a catedral de Notre-Dame Cathedral teria sido resultado de um ataque terrorista não investigado. (Ele tornou a letra um pouco mais vaga em comparação com a versão que apresentou ao vivo, mas a intenção ainda parece bastante óbvia.) No geral, porém, ele evita temas espinhosos e aposta em composições autobiográficas consistentes. "Zoom Zoom the Little Boy" combina dois temas clássicos de Moz — defesa apaixonada dos direitos dos animais e profunda misantropia — com uma música divertida de clima "Swinging Sixties". Várias faixas retornam aos amores musicais mais profundos de sua infância. "Lester Bangs" é um tributo ao crítico de rock dos anos 1970 Lester Bangs, cujas resenhas de New York Dolls e Roxy Music mudaram sua vida quando ele era um adolescente triste — "este nerd se agarra a cada palavra sua". "The Night Pop Dropped" retorna ao choque da morte de David Bowie para homenagear sua grandeza, e Morrissey entrega com carinho um cover vibrante de "Amazona", faixa menos conhecida do Roxy Music.
Essas reflexões sobre a paixão juvenil contrastam fortemente com o estado atual de autopiedade de Mozzer. Em "Boulevard", a única coisa com que ele consegue se identificar é uma rua solitária, pisoteada e abusada sem sentido. "Cocô de pássaros/ Cuspe de colegial/ Bem em cima de você", ele lamenta. Recentemente, ele precisou cancelar algumas datas de turnê por causa de problemas de saúde, e em "Headache" oferece uma avaliação da mortalidade que é bastante sombria até para seus padrões: "O homem nascido de mulher tem pouco tempo para viver/E ainda assim é tempo demais", entoa o artista de 66 anos. Para muitas pessoas — até mesmo fãs de longa data — lidar com Morrissey virou uma dor de cabeça. Este álbum não deve fazer muito para mudar seu lugar estranho no mundo, mas a dor dele também é real.
Nota: ★★/2