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Zuenir Ventura, jornalista e escritor, morre aos 95 anos

Imortal da Academia Brasileira de Letras e jornalista por mais de seis décadas, Zuenir Ventura cobriu importantes acontecimentos políticos e sociais do Brasil

22 set 2026 - 12h01
Resumo
O jornalista, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro, vítima de pneumonia. Com mais de seis décadas dedicadas à imprensa e ao ensino, destacou-se pela cobertura política e social do país. Autor de obras marcantes como "1968 - O Ano que Não Terminou" e "Cidade Partida", venceu os prêmios Esso, Vladimir Herzog e Jabuti, consolidando uma trajetória fundamental na história do jornalismo brasileiro e na defesa dos direitos humanos.

Jornalista, escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), autor de 1968 - O Ano que Não Terminou (1989) Zuenir Ventura morreu, nesta terça-feira, 22, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela ABL, onde será velado na quarta-feira, 23.

Zuenir Ventura no Roda Viva (Reprodução/TV Cultura)
Zuenir Ventura no Roda Viva (Reprodução/TV Cultura)
Foto: Rolling Stone Brasil

Ao longo de mais de seis décadas de carreira no jornalismo, Zuenir Ventura construiu uma trajetória marcada pela cobertura de acontecimentos políticos e de importantes questões sociais do país. Ele deixa a mulher, Mary Ventura, os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura, além dos netos Alice e Eric.

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Vida e obra de Zuenir Ventura

Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, no sul de Minas Gerais, Zuenir Carlos Ventura passou a infância em Ponte Nova, onde estudou em um colégio religioso. A expectativa da mãe era que o filho seguisse a carreira religiosa, mas o jornalista costumava brincar que, como Bentinho, personagem de Dom Casmurro (1899), a vocação para o sacerdócio era dela — não dele.

Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, também em Minas Gerais. Por lá, acompanhou o pai no trabalho como pintor de paredes, foi contínuo em diferentes estabelecimentos e jogou basquete. Bolsista em uma escola particular, começou a dar aulas para alunos mais novos e descobriu o interesse pelo ensino.

Mais tarde, foi para o Rio de Janeiro em busca de formação no magistério e cursou Letras Neolatinas na então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre os professores estavam nomes ilustres como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.

A carreira no jornalismo começou ainda durante a faculdade, no Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, onde trabalhou como arquivista. No início dos anos 1960, passou uma temporada em Paris, onde fez formação em jornalismo. De volta ao Brasil, construiu uma trajetória por alguns dos principais veículos de imprensa do país, entre eles Correio da Manhã, Jornal do Brasil e as revistas O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Visão, Veja e IstoÉ.

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Conhecido como Mestre Zu por ex-alunos e colegas, o escritor também nunca deixou de ensinar e se tornou responsável pela formação de diferentes gerações de jornalistas.

Nunca tive medo de deixar um jornal e ficar desempregado. Quando ficava meio chateado, ia pra outro.

O reconhecimento veio também por meio de importantes prêmios do jornalismo. Em 1989, recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog pela série O Acre de Chico Mendes, publicada no Jornal do Brasil. Em 1995, conquistou o segundo lugar na categoria reportagem do Prêmio Jabuti com Cidade Partida (1994).

A relação com a literatura também ganhou espaço em sua produção. Em 2005, publicou Minhas Histórias dos Outros, livro em que reuniu histórias de personalidades com quem conviveu, como Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade. A obra também conta a história de Genésio Ferreira da Silva, testemunha do assassinato de Chico Mendes, que Zuenir conheceu no Acre e acolheu em sua casa, no Rio de Janeiro.

Em 2012, lançou Sagrada Família, romance inspirado nas próprias memórias de infância e adolescência e marcado pela influência de Nelson Rodrigues.

Alguns anos depois, em outubro de 2014, Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O jornalista ocupou a cadeira que havia pertencido a Ariano Suassuna, consolidando uma trajetória que transitou entre o jornalismo, a literatura e a formação de novos profissionais da imprensa.

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De fora há essa imagem de que é uma chatice, são 40 velhinhos que se reúnem toda semana para tomar chá, mas é muito divertido. É agradável e tem muito humor. Nós velhinhos temos muito humor" afirmou Zuenir sobre as reuniões da ABL

1968 - O Ano que Não Terminou (1989)

Vinte anos após a implementação do Ato Institucional n° 5 (AI-5), o jornalista Zuenir Ventura publica 1968 - O Ano que Não Terminou. A obra tem como principais temas a resistência à ditadura, os intensos debates das esquerdas em relação às formas de luta contra o regime, o movimento estudantil, a opção pela luta armada e a resistência dos artistas da época.

No livro, Zuenir trouxe à público a ata da 43ª sessão do Conselho de Segurança Nacional, até então desconhecida do público, ondefoi aprovado o AI-5. Na ocasião, Jarbas Passarinho, então Ministro do Trabalho, pronunciou a célebre frase: "Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência".

A obra também ultrapassou as páginas do livro, sendo uma das inspirações da minissérie Anos Rebeldes (1992) produzida pela TV Globo.

O Acre de Chico Mendes

Em 1989, publicou no Jornal do Brasil a série de reportagens "O Acre de Chico Mendes", que lhe valeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog. Além dos prêmios, Zuenir ganhou com a reportagem uma história pessoal que ele costumava citar como uma das heranças mais marcantes daquela experiência.

O jornalista contou ao público que acabou assumindo a tutela de Genésio, então principal testemunha do assasinato de Chico Mendes, o foco de suas reportagens. O menino, de 13 anos, permanecia sob proteção policial, mas continuava ameaçado pelos responsáveis pelo crime. Segundo Zuenir, havia um plano para matá-lo. Após conversar com um coronel e buscar uma solução para garantir sua segurança, levou o garoto para viver com sua família. "Um dia, cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos. Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos", relembrou.

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Cidade Partida (1994)

Obra que levou o jornalista ao segundo lugar na categoria reportagem do Jabuti de 1995, Cidade Partida (1994) tornou-se uma das obras mais marcantes do autor, onde ele examina a violência, a desigualdade e a profunda divisão social do Rio de Janeiro a partir de sua experiência em Vigário Geral, cenário da chacina que matou 21 pessoas em 1993.

Zuenir também recebeu da ONU, junto com Caco Barcellos, Henfil, José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho, um troféu especial por ter sido um dos jornalistas que "mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos".

Antes de sua morte, em abril de 2026, Zuenir Ventura também ganhou um retrato nas telas com o documentário Mestre Zu (2026) dirigido por Zelito Viana. O filme reúne jornalistas, familiares e amigos que conviveram e trabalharam com o escritor para revisitar histórias de sua vida e carreira.

Ambientado a partir de um encontro na casa do imortal, o documentário recupera memórias de redação, bastidores da imprensa e episódios marcantes da vida de Zuenir, além de discutir sua produção literária. Entre relatos pessoais e lembranças de quem acompanhou sua carreira de perto, Mestre Zu apresenta um retrato do jornalista cuja obra esteve diretamente ligada a acontecimentos que marcaram a história recente do Brasil.

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Rolling Stone Brasil
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