Tudo soa grandioso em um show de The Weeknd

Com estética de culto, transições impecáveis e uma intimidade rara com o público brasileiro, Abel Tesfaye transformou o Morumbis na sua segunda casa

1 mai 2026 - 10h09

Sabe aquela sensação de que o cantor guarda a melhor música para o final? Aquele grande hit que fica escondido até o último momento, para a catarse chegar nos segundos finais, criar expectativa e fazer o público voltar para casa com a faixa na cabeça? Essa sensação não existe nos shows de The Weeknd. Qualquer música poderia ser a última.

The Weeknd em São Paulo
The Weeknd em São Paulo
Foto: Mauricio Santana/Getty Images / Rolling Stone Brasil

Desde o primeiro momento em que o cantor subiu ao palco do Morumbis, na noite da última quinta-feira, dia 30 — com a máscara de olhos vermelhos e brilhantes que abre a turnê —, a sensação foi de estar dentro de algo tão grandioso que a palavra "show" não dá conta. O cenário que sustenta esse universo é tão elaborado quanto a música: um telão central gigantesco domina a base do palco, ladeado por dois painéis menores, além de uma estrutura em formato de cruz, com uma cidade destruída abaixo do telão — uma Gotham pós-apocalíptica em miniatura que reforça a estética distópica da turnê. Nos braços da cruz, arcos iluminados completam a silhueta do palco. E, no centro de tudo, Soraya — a figura robótica que acompanha The Weeknd na turnê — sempre de olhos voltados para ele. E, onde quer que você olhe, tem algo acontecendo: dançarinas, a banda, Abel se movendo pela passarela, Soraya ao fundo, a plateia com pulseiras brilhantes, o telão reproduzindo imagens que completam o que a música já diz. Tudo conversa entre si e amplia a experiência de quem assiste ao espetáculo.

Publicidade

O show começa com três faixas de Hurry Up Tomorrow (2025), álbum que encerrou a trilogia iniciada em After Hours (2020) e continuada em Dawn FM (2022). É uma escolha que funciona como apresentação de personagem: Abel entra mascarado, apresenta sua fase mais recente e só então revela os hits que o mundo já conhece de cor.

Com uma mixagem diferente do streaming, as músicas chegaram ao Morumbis mais encorpadas, mais grandiosas, com solos de guitarra aqui, sintetizadores acolá e vocais de apoio que preenchem cada canto do estádio. O som ao vivo tem uma dimensão que a gravação não captura. Entretanto, vale registrar que, em vários momentos, The Weeknd optou por não cantar os agudos, entregando versões mais contidas de músicas que, nas gravações, chegam a alturas impressionantes. Ao que parece, sua nova fase deve ser assim.

As transições entre cada faixa são tão naturais que o show parece um fluxo contínuo, sem costuras. A abertura com "Wake Me Up", "After Hours" e "Starboy" estabelece o tom: épico desde o primeiro segundo. Na sequência, "Cry for Me" abre espaço para um momento mais dançante, com a entrada de Anitta em "São Paulo" e na inédita "Rio". Já na segunda metade, "Take My Breath" e "Sacrifice", com uma chuva de fogos atrás do palco, escalaram a animação do público. Depois disso, vieram "How Do I Make You Love Me?", "Timeless", "I Was Never There", "The Hills" com o palco todo vermelho e "Creepin'" num momento de puro R&B.

Mas o que diferencia o show de The Weeknd no Brasil de qualquer outra data da turnê é a relação que Abel construiu com o público brasileiro ao longo dos anos. Em "Out of Time", por exemplo, ele desceu do palco, cantou com uma fã na grade e foi cumprimentando quem conseguia alcançá-lo. Antes disso, ao tirar a máscara, era possível ver um sorriso dividindo espaço com lágrimas de alegria — uma admiração mútua entre o público e Abel. "Me sinto em casa quando estou em São Paulo", disse. E foi além: afirmou que Hurry Up Tomorrow foi feito para o público brasileiro. Pode soar como cortesia de palco, mas a entrega da noite sugeria que ele realmente acreditava nisso.

Publicidade

O trecho final foi de antologia. "Call Out My Name", "Save Your Tears" e "Less Than Zero" prepararam o público para o que viria: "Blinding Lights", com um encerramento messiânico e, no bis, "Moth to a Flame", acompanhada de ainda mais fogos de artifício.

No fim, o que torna um show de The Weeknd grandioso não é só a produção, é a entrega. E, no Brasil, essa entrega ganha uma camada extra. Abel não esconde a admiração que tem pelo país, e o público não esconde a admiração de volta. É uma troca que poucos artistas conseguem construir ao longo dos anos e que transforma cada passagem por aqui em algo maior do que uma data de turnê. Foi a terceira passagem da mesma turnê pela cidade, e o estádio respondeu como se fosse a primeira.

Rolling Stone Brasil
Fique por dentro das principais notícias de Entretenimento
Ativar notificações