Os próprios Titãs concordam que Cabeça Dinossauro, seu terceiro e mais cultuado álbum, segue atual. Logo, faz sentido que seja celebrado em uma turnê de 40 anos. "Não há panfletarismo gratuito ali: é questionador, sem um lado messiânico", reflete Sérgio Britto, um dos responsáveis pela obra com os remanescentes Branco Mello e Tony Bellotto, os ex-membros Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Nando Reis e Charles Gavin e o saudoso Marcelo Fromer.
Neste disco, o octeto abraçou de vez seu lado punk sem descartar flertes com reggae, pós-punk, funk e por aí vai. Nas letras, há críticas a diferentes poderes, instituições e sistemas. Virou clássico. Quatro décadas depois, Sérgio, Branco e Tony falam sobre cada uma das 13 faixas em entrevista à Rolling Stone Brasil.
Titãs comentam músicas de 'Cabeça Dinossauro'
1) "Cabeça Dinossauro"
(vocal: Branco Mello)
(composição: Paulo Miklos, B.Mello, Arnaldo Antunes)
Criada como uma brincadeira no ônibus, é o reflexo principal do espírito anárquico dos Titãs.
Sérgio Britto: Pare pra pensar: um artista pop, fazer uma música que entra com um trítono [intervalo musical notório por sua sonoridade tensa] e uma letra sintética. Acaba com uma frase irregular, inspirada nos rituais cerimoniais dos índios. E mesmo assim faz sucesso.
https://www.youtube.com/watch?v=KKiOoc6aBqY
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2) "AA UU"
(vocal: Sérgio Britto)
(composição: Marcelo Fromer, S.Britto)
Reflexão sobre estar preso na rotina. Fez Renato Russo questionar Sérgio Britto certa vez: "vocês estão loucos de lançar essa música como primeiro single do álbum?"
Sérgio: A Legião Urbana estava lançando "Tempo Perdido", uma música radiofônica, bonita e forte. Éramos amigos, todos do rock nos falávamos, queríamos que todos dessem certo. Ele disse algo assim e eu respondi: "escolhemos essa porque queríamos entrar chutando a porta". Acho que foi Noel Gallagher quem falou sobre Jimi Hendrix: "as pessoas não sabem o que querem, então você tem que oferecer de tudo a elas". Às vezes, você pode se surpreender. Hoje em dia, isso é feito cada vez menos. Só apostam no certo.
Branco Mello: As crianças adoram justamente as músicas mais estranhas do álbum: "AA UU", "Cabeça Dinossauro" e "Bichos Escrotos" — uma censurada!
https://www.youtube.com/watch?v=J6s2BRLUEic
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3) "Igreja"
(vocal: Nando Reis)
(composição: N.Reis)
Controversa crítica às instituições religiosas que chegou a dividir a banda — Arnaldo Antunes deixava o palco na hora dessa música.
Tony Bellotto: Com o tempo, o Arnaldo entendeu. É delicado. A música aponta mais para uma crítica à instituição que explora a fé e impõe códigos morais dentro da política. Não é uma crítica à crença ou espiritualidade. Nos favoreceu Caetano Veloso ter cantado essa música conosco na TV, dando aval. Dona Canô, mãe do Caetano, ficou louca dele ter cantado essa música e deu uma bronca nele! [Risos.]
Sérgio: Dizer "eu, eu, eu" relativiza a questão. É uma música do Nando e ele diz o que acredita. Não significa que a religião como um todo não tenha valor.
https://www.youtube.com/watch?v=N-myyS3jbdw
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4) "Polícia"
(vocal: S.Britto)
(composição: Tony Bellotto)
Nascida diretamente das prisões de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes por porte de heroína em 1985. Desde então, pouco mudou.
Sérgio: Abuso é algo inerente ao poder público. Não escaparemos disso, em qualquer lugar do mundo. Óbvio que precisa existir polícia, senão a barbárie impera. É uma música muito precisa — não é só o tema, é a maneira como você fala. Você vê policiais entendendo esse ponto de vista. Tem gente que diz "está falando mal da polícia, mas você precisa da polícia", mas está tudo dito ali. Se eu precisar, eu conto com a polícia.
https://www.youtube.com/watch?v=KHlS5kwvdsE
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5) "Estado Violência"
(vocal: P.Miklos)
(composição: Charles Gavin)
Criada com base em uma melodia criada nos tempos de Gavin com o Ira!, mas também inspirada no episódio que levou à concepção de "Polícia".
Tony: Vejo mais como uma crítica aos Estados autoritários, totalitários, algo vivenciado hoje. É intrínseco à natureza humana. O mundo parecia caminhar para um entendimento harmonioso, mas novamente há essas ameaças. Até os Estados Unidos ficam com a democracia ameaçada.
Branco: Acho que o Charles fez isso muito por causa da prisão do Arnaldo. Foi o Estado que encarcerou nosso colega. Uma interferência brutal.
https://www.youtube.com/watch?v=Tr01eQnyQvo
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6) "A Face do Destruidor"
(vocal: P.Miklos)
(composição: Arnaldo Antunes, P.Miklos)
Um hardcore dilacerante de 34 segundos que quase foi excluído do álbum — ainda bem que a mantiveram.
Tony: Essa é um enigma, né? Vai explicar essa música!
Sérgio: Nunca ficávamos totalmente satisfeitos com o resultado. Não sei exatamente por quê. Resolvemos experimentar e não sei de quem foi a ideia — talvez do Paulo — de gravar e tocar a base ao contrário. Ele cantou por cima da base invertida. Aí bateu. "Agora ficou louco de verdade."
https://www.youtube.com/watch?v=SaR6ghb1TrQ
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7) "Porrada"
(vocal: A.Antunes)
(composição: A.Antunes, S.Britto)
Crítica aos beneficiados pelo sistema que, segundo alguns relatos, deixou Roberto de Carvalho atordoado ao acompanhar o processo de criação.
Sérgio: Foi no apartamento do Arnaldo. Estava eu, ele e o Roberto. Começamos a tocar e fizemos um pouco da música na frente dele. Entramos na loucura de tocar uma coisa sem parar, gritando, falando, repetindo. Ele ficou meio de lado. Mas não foi nada demais!
https://www.youtube.com/watch?v=QaXuta1VeG8
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8) "Tô Cansado"
(vocal: B.Mello)
(composição: A.Antunes, B.Mello)
O retrato do saco cheio — de tudo. Mesmo sem crítica específica, encapsula o sentimento que permeia o álbum.
Branco: Estávamos Arnaldo e eu na casa do Lobão, no Rio. Jogamos pingue-pongue e tocamos a noite inteira. De manhã, chegamos exaustos no hotel e não conseguíamos dormir, empolgados. Pegamos o violão e… "tô cansado — de tudo". Veio pronta.
https://www.youtube.com/watch?v=L08tBEQWhk0
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9) "Bichos Escrotos"
(vocal: P.Miklos)
(composição: A.Antunes, N.Reis, S.Britto)
Existia desde 1982, mas só foi gravada pós-ditadura. Mesmo assim, acabou censurada — e os radialistas topavam tocá-la e pagar a multa.
Tony: Foi composta antes da gravação do primeiro álbum e cogitamos inserir nele, assim como outra música que nunca gravamos, "Charles Chacal", mas não sabíamos se passariam na censura.
Sérgio: Estávamos gravando a demo que usamos para conseguir contrato com gravadora, com "Go Back", "Sonífera Ilha", "Toda Cor", "Marvin". Certo dia, todos foram embora do estúdio, na Rebouças, e ficamos eu, Arnaldo e Nando meio… alterados. Começou esse papo de bicho. Andamos até a casa do Paulo na Pompeia, onde havia janelas dando para a rua, e começamos a cantar a música. Uma hora ele abriu a janela e falou: "P*ta que pariu, me deixem em paz!". E ele acabou sendo o cantor da música!
https://www.youtube.com/watch?v=bPp8tcy1nSo
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10) "Família"
(vocal: N.Reis)
(composição: A.Antunes, T.Bellotto)
Um dos maiores cavalos de Troia da história do rock. Sua letra ligeiramente ácida é introduzida ao público em um reggae afável. Foi até tema de um programa familiar da TV Globo nas tardes de domingo.
Tony: Não sei se é Nelson Rodrigues quem diz que: para falar de família, você fala ou pela tragédia ou pela comédia. Há tem um lado cômico de brincar com coisas que toda família tem: neném doente, filha que quer sair de casa, medo de barata. Vimos que a música era boa — e ela já nasceu como reggae, porém mais lento e pesado. Queríamos fazê-la mais rápida, para ficar mais pop e ao mesmo tempo próxima do restante do álbum. Acho que o Britto e o Marcelo implicavam com a nova versão, mas ficou interessante, pois ela, "Dívidas" e o "O que" fazem um contraponto.
https://www.youtube.com/watch?v=EIdEVpSS9d0
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11) "Homem Primata"
(vocal: S.Britto)
(composição: Ciro Pessoa, M.Fromer, N.Reis, S.Britto)
Começou a nascer ainda na fase anterior, mais "alegre". Os integrantes brincam que foi composta pensando na possibilidade (quase irreal) de Lulu Santos gravá-la.
Sérgio: Era uma das nossas loucuras. Fazíamos isso: "essa aqui podia ser legal para o Lulu Santos". Quando fizemos "Sonífera Ilha", falávamos de fazê-la para Jessé cantar. Mas não era nada sério. Era uma brincadeira, tentar "chegar lá" de algum jeito.
Tony: Por um tempo, ficamos em dúvida entre o título do disco ser Cabeça Dinossauro ou Homem Primata.
Sérgio: Quando o álbum saiu, algum jornalista falou que "Homem Primata" era um pastiche pop, desmerecendo a música no meio do disco. Mas sempre achei uma música esperta: a crítica ao capitalismo, ao consumo, que pode ser também boba, entra no "capitalismo selvagem". Dizer que nem toda atividade humana deve ter como único fim o lucro. Óbvio que a sociedade capitalista é assim, mas a ideia de fazer tudo em função disso é muito nociva.
https://www.youtube.com/watch?v=5OrdXHiO1Qo
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12) "Dívidas"
(vocal: B.Mello)
(composição: A.Antunes, B.Mello)
Talvez uma das mais atuais, porque independentemente de momento, governo ou qualquer outra coisa, as dívidas sempre apertam.
Branco: Ela é tão atual. Na época, éramos realmente duros. Tem um pouco de reggae meio branquelo nela, meio The Clash. Acho que eu a entendo hoje melhor do que na época.
Sérgio: Tem um som muito legal. Acho o arranjo dela muito "titânico", porque ela é harmonicamente muito simples, mas tem módulos que se repetem de um jeito irregular. A repetição nunca é igual.
https://www.youtube.com/watch?v=GmrycWoyaV4
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13) "O Que"
(vocal: A.Antunes)
(composição: A.Antunes)
O grande experimento. A música que, segundo os membros, teve a maior contribuição do produtor Liminha ao resultado final.
Sérgio: Nos abrimos para a experimentação. Nunca tínhamos usado bateria eletrônica. Liminha fez o beat e sugeriu fazer uma jam, pois poderia render mais. Ficamos uns dois ou três dias indo ao estúdio só para ficar curtindo. Todos ficavam tocando em cima, com o Arnaldo cantando, até chegar no formato final. Abriu uma porta para o álbum seguinte, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987), pois nele há um lado de música eletrônica. Nosso interesse começou aqui.
https://www.youtube.com/watch?v=TwxG7ENCch8
https://www.youtube.com/watch?v=9eFWVZMUtRA
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