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The Hives Conquista o Rock in Rio Com Uma Hora de Garage Rock

Banda sueca estreou no festival com clássicos, músicas recentes e Pelle Almqvist comandando a participação do público

5 set 2026 - 18h43
Resumo
No Rock in Rio 2026, o The Hives conquistou o Palco Mundo com uma hora intensa de garage rock direto e preciso. Liderado pelo carismático vocalista Pelle Almqvist, que usou humor, teatralidade e frases em português para engajar a plateia, o grupo uniu faixas recentes a clássicos como "Hate to Say I Told You So" e "Tick Tick Boom". Superando um palco visualmente subutilizado, a banda sueca transformou um público inicialmente disperso em participantes ativos de uma performance enérgica e memorável.

The Hives entrou no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 às 19h diante de uma plateia numerosa, mas ainda em formação. Parte daquele público certamente conhecia a banda, enquanto outra parcela ocupava o gramado esperando Rise Against e Foo Fighters, atrações que apareceriam mais tarde. Em vez de tratar essa diferença como obstáculo, os suecos construíram o show ao redor dela. Durante uma hora, Pelle Almqvist trabalhou para transformar espectadores em participantes, usando as músicas, as pausas e a própria personalidade como ferramentas de convencimento.

A abertura com "Enough Is Enough" foi uma escolha bastante reveladora. O grupo poderia buscar segurança imediata em "Hate to Say I Told You So" ou "Main Offender", mas preferiu começar pelo álbum "The Hives Forever Forever The Hives", lançado em agosto de 2025. Logo depois, "Main Offender" mostrou como uma composição do início dos anos 2000 consegue dividir espaço com o repertório atual sem parecer relíquia de outra formação. O som permaneceu seco, rápido e direto, com guitarras cortadas em blocos curtos e uma bateria que empurrava cada faixa para a próxima antes que a energia pudesse cair.

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Pelle Almqvist Usa a Fala Como Parte da Música

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DopamineBlur)
The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DopamineBlur)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Há vocalistas que conversam entre as canções e há Pelle Almqvist, que transforma essas interrupções em extensão da apresentação. Ele pede palmas, corrige a resposta, exige mais participação, provoca quem permanece imóvel e espera alguns segundos até receber o resultado desejado. Esse intervalo cria uma tensão semelhante àquela construída dentro das próprias músicas: a banda segura, Pelle conduz a atenção e o próximo ataque de guitarras chega com a plateia já preparada para reagir.

O português ajudou bastante nesse processo porque Pelle não tentou parecer fluente. As frases carregavam sotaque, pausas e certo exagero calculado, características que tornavam cada tentativa parte de seu personagem. Ele sabia exatamente o efeito produzido ao dirigir ordens simples em português para uma multidão brasileira e explorou isso durante o set. Uma bandeira do Brasil apareceu próxima ao palco e entrou naturalmente nessa troca, enquanto o vocalista ocupava passarelas, se aproximava das primeiras fileiras e transformava cada resposta maior do público em motivo para pedir mais.

Essa postura funciona porque a arrogância do The Hives sempre teve uma camada de comédia. Pelle fala da banda como se estivesse apresentando a maior atração já produzida pela humanidade, enquanto os outros músicos mantêm uma seriedade visual que amplia a piada. O próprio material oficial do grupo conserva há anos essa autocelebração exagerada, e "The Hives Forever Forever The Hives" praticamente transforma a ideia em manifesto. O personagem depende da convicção: Pelle precisa parecer sinceramente convencido de que qualquer pessoa ainda parada simplesmente não entendeu a grandeza do que está acontecendo.

A Banda Sabe Exatamente Quando Apertar e Quando Parar

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VictorCarvalho)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Por trás do teatro existe uma banda extremamente precisa. As guitarras de Nicholaus Arson e Vigilante Carlstroem trabalham muito mais com ataque e repetição do que com solos longos, criando riffs que entram e desaparecem antes de perder força. Chris Dangerous mantém uma bateria seca e acelerada, enquanto o baixo sustenta a estrutura sem procurar protagonismo desnecessário. Essa economia faz com que o The Hives consiga tocar músicas de épocas diferentes sem alterar drasticamente sua presença sonora.

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O set também evita aquela divisão comum em shows de artistas veteranos, quando as faixas novas funcionam como período de espera até a chegada dos clássicos. "Hooray Hooray Hooray", "Paint a Picture", "Legalize Living" e "Enough Is Enough" pertencem ao disco mais recente e aparecem com a mesma urgência reservada a "Main Offender" ou "Walk Idiot Walk". Há uma permanência estilística evidente nessa discografia, o que pode limitar quem procura grandes reinvenções entre um álbum e outro. No palco, entretanto, essa continuidade permite construir uma hora de show sem mudanças bruscas de temperatura.

"Bogus Operandi", do álbum "The Death of Randy Fitzsimmons", reforçou essa capacidade de transformar repetição em tensão. O riff pesado oferece outro peso em relação às músicas mais aceleradas, e Pelle utiliza os espaços existentes no arranjo para controlar ainda mais a plateia. O repertório não trabalha variedade como coleção de gêneros; trabalha pequenas diferenças dentro de uma linguagem muito delimitada. É garage rock tratado como disciplina, com cada faixa procurando um jeito próprio de chegar ao mesmo objetivo físico.

Hate to Say I Told You So Quebra a Última Resistência

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@Mangabeira)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

A resposta da plateia aumentou gradualmente, e "Hate to Say I Told You So" marcou uma mudança evidente. O riff inicial possui um reconhecimento imediato que dispensa apresentação, fazendo com que muita gente que acompanhava o show de maneira mais distante passasse a cantar. Pelle percebeu a mudança e aumentou ainda mais sua cobrança sobre o público, transformando familiaridade em combustível. A partir daquele ponto, a distância entre fãs declarados e curiosos ficou bem menor.

Esse crescimento é importante porque revela uma qualidade que números de streaming não conseguem medir. O The Hives consegue tocar para pessoas que não sabem o nome de metade das músicas porque a performance oferece instruções muito claras sobre como participar. Bater palmas, pular, responder, abaixar, levantar e cantar uma frase simples tornam-se parte do espetáculo. A banda não pressupõe devoção prévia; cria condições para que alguém entre no show mesmo chegando sem repertório decorado.

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"Tick Tick Boom" levou esse método ao limite. A própria composição é construída por interrupções, retomadas e explosões, permitindo que Pelle manipule o tempo antes das entradas da banda. No Palco Mundo, o vocalista conduziu a multidão fisicamente e usou a pausa como ferramenta para tornar o retorno das guitarras maior. A música se transformou menos em execução de um hit e mais em demonstração prática de quanto controle o grupo já havia conquistado sobre aquele gramado.

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A Brincadeira Com o Foo Fighters Revela Segurança

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DopamineBlur)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

A presença do Foo Fighters no encerramento da noite também virou material para Pelle. Ele sabia que parte considerável da plateia estava guardando posição para Dave Grohl e companhia e preferiu trazer essa realidade para dentro do show. As provocações funcionaram porque o vocalista tratou a condição de banda intermediária com segurança, como se a melhor forma de lidar com alguém esperando outro artista fosse obrigá-lo a se divertir enquanto espera.

Esse humor evita que o show ganhe qualquer ressentimento por ocupar uma posição anterior ao headliner. The Hives parece confortável com a própria história e com o lugar que ocupa numa noite dedicada ao rock. A banda não tenta aumentar artificialmente sua importância dentro do evento, embora Pelle passe sessenta minutos fingindo exatamente o contrário. Essa contradição sustenta boa parte da graça.

O efeito também favorece a narrativa da apresentação. No início, Pelle precisava pedir participação repetidamente porque a reação ainda era desigual. Na segunda metade, já conseguia brincar com o público a partir de uma cumplicidade criada ao longo da hora. O show, dessa forma, teve progressão: começou tentando conquistar e terminou celebrando a conquista.

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O Palco Gigante Expõe Uma Limitação Visual

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VictorCarvalho)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

A produção visual é o ponto em que a apresentação deixa espaço evidente para crescimento. The Hives aposta nos ternos coordenados, detalhes luminosos, logotipo inflável e principalmente na movimentação dos integrantes. Em salas menores, essa linguagem pode preencher completamente o ambiente; diante da nova fachada gigantesca de LED do Palco Mundo, parte do espaço permanecia subutilizada. O tamanho da estrutura pedia imagens e soluções gráficas capazes de conversar de maneira mais inventiva com a personalidade visual da banda.

Essa simplicidade nunca comprometeu a apresentação porque Pelle ocupava o vazio com facilidade. Ainda assim, existe diferença entre dispensar excesso de efeitos e deixar possibilidades cênicas sem uso. O The Hives possui identidade gráfica forte, uniforme visual reconhecível e uma mitologia própria que poderiam render um desenho de palco muito mais elaborado. Para uma banda tão cuidadosa na construção de personagem, a direção visual pareceu conservadora.

O contraste chega a ser curioso. Musicalmente, o grupo domina o formato curto porque sabe retirar tudo que considera dispensável. Visualmente, essa mesma economia acaba parecendo pequena diante do palco em alguns momentos. O show sobrevive porque depende muito mais dos corpos em movimento do que das telas, mas uma camada gráfica mais trabalhada poderia ampliar a experiência de quem estava distante.

Uma Hora Bastou Porque Não Houve Espaço Para Distração

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@Mangabeira)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Com apenas 12 músicas, o show deixou faixas conhecidas de fora, algo inevitável diante de um catálogo que já passa de três décadas. A duração curta também impede maiores desvios, improvisos ou mudanças profundas de andamento. O lado positivo aparece no ritmo: não há trecho claramente descartável e nenhuma apresentação individual quebra a sequência. O The Hives utiliza a limitação de festival a seu favor e concentra sua personalidade em uma hora muito compacta.

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O encerramento com "The Hives Forever Forever The Hives" resume toda a apresentação porque leva a autocelebração da banda até o título da música. Depois, quando "Nobody Does It Better", de Carly Simon, tomou o sistema de som, a despedida completou a piada construída desde a entrada. Após sessenta minutos dizendo ao público que o The Hives era uma banda extraordinária, sair ao som de uma música chamada "ninguém faz melhor" parece menos uma escolha musical e mais a conclusão lógica daquele personagem coletivo.

O mérito está em conseguir sustentar a brincadeira sem permitir que ela encubra a música. Pelle Almqvist pode ser o rosto mais evidente da apresentação, mas o personagem perderia força em poucos minutos se a banda atrás dele não tocasse com tamanha precisão. Os riffs chegam limpos, a bateria mantém pressão constante e cada pausa solicitada pelo vocalista é retomada no instante correto. A teatralidade funciona porque existe disciplina por baixo dela.

A estreia do The Hives no Rock in Rio 2026 terminou, assim, muito distante do ponto em que começou. A plateia inicialmente dividida entre fãs, curiosos e pessoas guardando lugar para outros shows acabou envolvida pela insistência de um vocalista que parecia considerar a apatia uma ofensa pessoal. O grupo não precisou convencer todo mundo de que realmente é "a melhor banda ao vivo do planeta", como gosta de brincar em sua própria mitologia. Bastou fazer uma hora de Palco Mundo parecer pequena demais para cinco suecos vestidos de preto e branco.

The Hives | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VansBumbeers)

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

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