Após um show histórico em São Paulo para 50 mil pessoas em 2024, o Bring Me The Horizon retorna ao Brasil para se apresentar no Rock in Rio. O vocalista Oliver Sykes, casado com uma brasileira e morador de Taubaté, destacou a forte conexão com o país e prometeu uma apresentação ampliada. O músico também refletiu sobre como a recente paternidade mudou suas prioridades e celebrou o projeto de regravar o álbum de estreia da banda, permitindo uma reconexão com suas origens no metal extremo.
O Bring Me The Horizon prova que é sempre possível se superar. Com um show histórico no Allianz Parque em 2024 - o maior da banda como headliner, para 50 mil pessoas ensandecidas -, os britânicos mostraram que havia muito mais para conquistar - e bastante espaço na música para o metal extremo.
Menos de dois anos depois, o grupo retorna ao Brasil. Desta vez, tem como destino a cidade maravilhosa, no Rock in Rio. Neste sábado, 5, dia em que titãs como Avenged Sevenfold e Sepultura também se apresentam, a banda promete trazer uma união de diferentes estilos que celebram a sua história dentro da música pesada.
O vocalista da banda, Oliver Sykes, conversou com o Estadão antes do festival e relembrou a catarse desencadeada pelo último show do grupo em solo nacional. De acordo com ele, os fãs do Bring Me The Horizon que vão ao Rock in Rio podem esperar uma apresentação que guarda semelhanças com a de São Paulo, mas em escala ampliada por conta da infraestrutura que o festival oferece, o que deve proporcionar um resultado único.
"Fizemos aquele show enorme em São Paulo, que foi simplesmente incrível. Então, até certo ponto, ainda estamos tocando o mesmo show, mas sabíamos que queríamos fazer algo diferente para o Rio. Por isso, estamos levando algo que, na verdade, não podemos fazer fisicamente em nenhum outro show. Vai ser tipo uma evolução do que as pessoas viram em 2024?.
A conexão do Brasil com Bring Me The Horizon
O show na capital paulista segue como o maior do Bring Me como headliner - e não estava nos planos da banda. "Para falar a verdade, o Brasil que nos escolheu", comentou o artista. "Não chegamos pensando tipo: 'vamos tocar num estádio no Brasil'. O promotor brasileiro disse: 'queremos vocês como atração principal'. E pensamos: 'vocês ficaram loucos?'.
Apesar de mais de vinte anos de estradas, uma base de fãs sólida e grande reconhecimento, a banda não estava tão confiante a respeito da performance. "Achávamos que ia ser um desastre, que o promotor estava louco, mas embarcamos nessa. Então, esse foi o motivo pelo qual pensamos: 'bom, este é o primeiro e talvez o único estádio em que vamos tocar na vida [como headliners]'."
Mas para além desse marco importante, o Bring Me The Horizon possui uma íntima ligação com o Brasil: Sykes é casado com a brasileira Alissa Sales. Juntos desde 2016, em 2025 deram as boas vindas aos gêmeos Grey e Zélia. E a conexão do cantor com o País não se restringe aos laços do matrimônio. Em 2021, ele chegou a comprar uma casa em Taubaté, interior de São Paulo, e tirar o seu próprio CPF.
Na conversa, Sykes destacou a vida no Brasil e a rotina mais calma que pode levar no País, em comparação com aquela de seu país natal. "Talvez o clima não seja tão bom [na Inglaterra]. Talvez seja só a mentalidade das pessoas lá, mas o fato é que parece que fico trabalhando o tempo todo quando estou lá", refletiu o músico, que também revelou ter problemas ao separar o profissional do pessoal em solo britânico. "Talvez eu só esteja profundamente enraizado na cultura de lá e tudo mais... é simplesmente difícil. Quando venho para cá, ainda trabalho e consigo fazer o que preciso, mas é como se houvesse uma maneira mais fácil de... talvez por eu não ser deste país, me sinto um pouco como um estranho. É quase como se fosse fácil me desligar do mundo ao meu redor."
"As pessoas são muito mais felizes, amigáveis, comunicativas e têm menos vergonha de errar ou falar algo errado", continuou. "São simplesmente pessoas mais autênticas. E tem um elemento... especialmente na praia, como a minha esposa diz, é quase um fato conhecido que as pessoas são ainda mais relaxadas e tranquilas. E, às vezes na Inglaterra, se você quer alguma coisa, você consegue receber na porta de casa no mesmo dia."
O Brasil desempenhou um papel fundamental na vida de Sykes e na maneira como o vocalista percebe as coisas mais simples do dia-a-dia: "Eu tive que me acostumar com um lugar que não se leva tão a sério. Lá você tem que ser pontual. Se não for pontual, é um problema enorme. Aqui é como se as pessoas fossem mais relaxadas. É simplesmente legal."
Como a música brasileira é percebida pelo Bring Me The Horizon
Ao relembrar o show de São Paulo, é impossível não citar as participações de MC Lan e Di Ferrero durante a performance de Antivist. Lançada no álbum Sempiternal (2013) a faixa é o momento no qual a banda costuma trazer alguém ao palco para que juntos apresentem a canção. O resultado é uma variedade de sons e estilos que, segundo Sykes, trata-se de algo que eles planejam sempre explorar.
"É simplesmente o que a gente sempre fez. A partir do momento em que tivemos os meios e a disponibilidade para isso, acho que sempre quisemos expressar e mostrar que, sim, somos uma banda de rock, uma banda de metal, uma banda de deathcore ou seja lá o que for. Mas também gostamos de outras coisas [...]. Acho que adoro criar pontes entre mundos diferentes".
Em 2022, em outra passagem do grupo, a escolhida para subir ao palco durante a execução da música foi Pabllo Vitar. "Minha esposa disse: 'Não sei como as pessoas vão reagir a isso'. A galera do rock aqui gosta de rock e a galera do funk gosta de funk e coisas desse tipo. E eu fiquei tipo: 'Tô nem aí'. Acho ela demais. Vai ser massa, vai ter uma vibe boa. As pessoas podem curtir ou não precisam curtir".
"Acho muito legal demonstrar apoio e dar essa visibilidade", continuou. "Eu nunca saberia que a Pabllo Vittar era nossa fã, e ela nunca saberia também éramos fãs dela. Então, só por esse sentimento de 'caramba, alguém que eu curto pra caramba gosta da minha música', já é algo muito legal por si só".
A paternidade mudou a vida de Oliver Sykes
"Acho que a principal coisa que aprendi sendo pai é que eu achava que era ocupado antes. Mas eu não era ocupado. Ocupado eu sou agora. Eu ficava enrolando. Eu era ocupado, mas tinha muito tempo para ficar de bobeira", diz o cantor.
O músico também refletiu sobre as mudanças que a paternidade trouxe para a forma como levava a sua vida, e como agora, o foco é outro: "Você deixa de ser o personagem principal da sua própria vida. Então isso com certeza muda todo o processo. E ainda é algo com o qual estou lutando para lidar e entender, porque minha prioridade agora é ser um bom pai, estar presente para eles e não perder esses momentos. A música, neste momento, ficou em segundo plano. Mas, ao mesmo tempo, a música é tudo para mim. Então ainda tem que ser a melhor coisa do mundo. Por isso está demorando muito mais, e é algo a que definitivamente ainda estou me adaptando".
Reconexão em regravação de 'Count Your Blessings'
Count Your Blessings é o álbum de estreia do Bring Me The Horizon, lançado em 2006. Vinte anos após seu lançamento original, a banda decidiu olhar para o passado e regravar o clássico em uma nova versão, intitulada Count Your Blessings | Repented. Para isso, foi preciso que Sykes retornasse a suas origens e acessasse uma visceralidade característica do começo.
Mesmo que anos mais tarde a sonoridade da banda navegue por outras searas, foi o deathcore que consagrou o grupo. Ao ser questionado sobre o impacto físico e mental de voltar a berrar de forma tão crua 20 anos depois, Sykes revelou que o processo superou suas expectativas e trouxe um sentimento de reconexão com as próprias raízes da banda.
"Na verdade, foi muito mais catártico, empolgante e divertido. Voltar para aquele mundo de puro gutural, de pura brutalidade", lembrou o vocalista. "Não estaríamos aqui se não fosse por ele."
Apesar de o álbum ser um marco importante na carreira do grupo, o artista sentia um forte distanciamento do material original de 2006 e raramente escutava ou tocava aquelas músicas, por acreditar que o grupo havia evoluído para composições superiores. No entanto, o projeto de revisitar esse trabalho acabou por mudar a sua percepção.
"Falando bem a verdade, eu estava completamente desconectado daquele álbum. Eu não o ouvia porque simplesmente achava que nós tínhamos músicas melhores. E só quando nós o gravamos de novo, refazendo tudo e fazendo soar do jeito que a gente realmente queria, foi que eu percebi o quanto eu na verdade amo essa música. Percebi o quanto ela ainda é algo que fala comigo. Não é mais algo estranho ou distante para mim".
Show do Bring Me The Horizon no Rock In Rio
- Quando: 5 de setembro;
- Onde: Palco Mundo;
- Horário: 21h20.