A música eletrônica é parte do Brasil

Em artigo para o 'Estadão', Claudio Da Rocha Miranda Filho, diretor artístico da Rock World, lembra como o gênero conquistou espaço no Rock in Rio

11 set 2026 - 11h21
Resumo
A música eletrônica consolidou-se no Brasil como uma força cultural e econômica madura. Promovendo união e bem-estar social por meio de sua efervescência coletiva, o gênero transformou o país no nono mercado fonográfico global, projetando astros mundiais e impulsionando o turismo. Essa relevância histórica e reputacional culmina no protagonismo da cena no Rock in Rio, com ingressos esgotados e presença no palco principal, celebrando um ecossistema que finalmente preserva sua própria memória.

Em um mundo dividido pela política, pelo medo do futuro e a fragilidade do diálogo, é preciso reconhecer os territórios que nos unem: a música eletrônica é um deles. Nos anos 80 e 90, ecoava nas pistas e cena marginais ao mainstream. Expandiu-se no país a partir das raves no início do século, e toda uma cadeia se profissionalizou - artistas, festivais, arenas - sem parar de ganhar fãs. Hoje é ecossistema estabelecido, alcançou um patamar reputacional antes inimaginável no ano em que o Rock in Rio celebra seus 25 anos no festival - e virou celebração nacional.

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Também é considerada uma espécie de cura, associada à conceitos modernos como a saúde social - que propõe a qualidade das relações humanas como crítica para a felicidade do homo sapiens. Mas ainda no século 19, o sociólogo francês Émile Durkheim já analisava tal estado de catarse como a "efervescência coletiva": o instante em que um grupo reunido em torno de um ritual deixa de ser soma de indivíduos e passa a vibrar como uma comunidade, compartilhando códigos e símbolos. Talvez por esse caráter tribal, a eletrônica carregue essa vocação universal - não pertence a um povo específico, pertence a quem está na pista, seja no Rio, em Ibiza ou em Tóquio.

O DJ Calvin Harris levou a música eletrônica ao Palco Mundo no Rock in Rio
O DJ Calvin Harris levou a música eletrônica ao Palco Mundo no Rock in Rio
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Essa vocação de unir explica também o sucesso brasileiro do gênero: é da natureza da eletrônica os remixes, os crossovers - a força das misturas -, e poucos países têm tanto repertório cultural para oferecer a elas quanto o Brasil. O recém-lançado Mapa da Música Eletrônica no Brasil, estudo que assinei ao lado do Camilo Rocha e Mauricio Soares, junto à UBC e ao BRMC, traz o retrato dessa potência: somos o nono mercado fonográfico do mundo, com setor maduro, público engajado e artistas de projeção global como Alok e Vintage Culture.

O fã de eletrônica é, entre todos os públicos de música, o que mais viaja buscando experiências: reencontrar algo que a rotina não oferece. Num tempo que demanda saúde mental, é um ativo de bem-estar emocional que a cultura eletrônica pratica há décadas, além de movimentar toda uma cadeia econômica do turismo.

Essa cultura, tratada por tanto tempo como efêmera, vem aprendendo a cuidar da própria memória, como em "O Barulho da Lua", da jornalista Claudia Assef, sobre a história do DJ Anderson Noise. Cultura que se preserva é cultura que se estabelece, e a eletrônica brasileira está, finalmente, escrevendo a sua. São inúmeros os projetos de preservação.

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Há exatos 25 anos, numa tenda alternativa do Rock in Rio 2001, a eletrônica conquistou seu lugar no maior festival de música e entretenimento do mundo - e em 2026 chega ao topo do Palco Mundo. Com um detalhe que não é pequeno: o show do DJ Calvin Harris foi o primeiro a esgotar entre todos os dias, confirmando o que os números da indústria já diziam. O New Dance Order, palco dedicado à eletrônica, apresenta projeto cenográfico inédito e o movimento "Dancing For A Better World", mobilizando artistas, fãs e indústria em torno de ideais que a cultura de pista sempre carregou: paz, amor, união, respeito, diversidade. Num país às voltas com tantas agruras, talvez não exista momento mais simbólico para o reconhecimento dessa grande história no Brasil, que há 25 anos este palco ajudou a construir. Let's RAVE!

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