Papatinho fala à RS sobre novo projeto com Black Eyed Peas: 'A ideia é misturar samba e funk, algo bem Brasil'

Produtor brasileiro detalha parceria com will.i.am para criar álbum inédito do Black Eyed Peas voltado para o Carnaval 2027

21 jan 2026 - 11h04

Você lembra a primeira vez que ouviu "I Gotta Feeling"? Ou de alguma vez cantando o refrão de "Boom Boom Pow", alternando entre a voz sintetizada de will.i.am com os vocais suaves da Fergie? Ou quando saiu o clipe de "Pump It"? E aquele momento em que você finalmente entendeu a letra de "Where Is The Love?" e percebeu a profundidade da mensagem? Com certeza lembra!

Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

O Black Eyed Peas sempre teve uma conexão especial com o Brasil, marcou uma geração inteira. Dos bailes funk às festas de formatura, das academias aos casamentos, o grupo sempre teve esse poder de se encaixar perfeitamente na energia brasileira, que mistura festa, animação e uma batida impossível de resistir.

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Eles estiveram aqui, pisaram no Rock in Rio 2019, arrebentaram em Copacabana, sentiram o calor da nossa recepção. E agora, essa história de amor está prestes a ganhar seu capítulo mais ambicioso: um álbum inédito, criado do zero, pensado especialmente para o Carnaval do Rio de Janeiro. Mas não qualquer álbum — um projeto que vai misturar samba, funk carioca e a essência do pop global que fez do Black Eyed Peas um fenômeno mundial.

E quem está no centro dessa história toda é Papatinho. O produtor carioca, que completa 20 anos de carreira em janeiro de 2026, acaba de ser escolhido por will.i.am, o cantor e rosto do BEP, para transformar esse sonho em realidade. O anúncio foi feito ao vivo durante a CES, em Las Vegas, e pegou até o próprio Papatinho de surpresa. Com carta branca para produzir e a promessa de um show na Sapucaí em 2027, o desafio é grande — mas a conexão entre os dois artistas vem de longa data e já provou que funciona.

Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Papatinho conta como tudo começou em 2019, revela os bastidores do convite e detalha como será o processo criativo de um álbum que promete celebrar o Brasil da forma mais autêntica possível.

"O primeiro contato foi meio por acaso, quando o Black Eyed Peas veio tocar no Rock in Rio. Depois teve uma festa na casa da Anitta, eu vi o will.i.am por lá, mas fiquei meio sem jeito de falar. Aí ele mesmo veio até mim, perguntou se eu era o Papatinho, pegou meu telefone, colocou o número dele e falou pra eu ligar pra gente ir pro estúdio. Eu quase não acreditei", contou.

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No dia seguinte, os dois já estavam trabalhando juntos. "Deu super certo. Chegamos a gravar com o Black Eyed Peas inteiro, fizemos uma música e até um clipe, mas acabou não saindo".

Mesmo com a primeira faixa não sendo lançada, a química entre os dois artistas estava estabelecida. Eles fizeram uma segunda música que quase entrou na trilha sonora de Bad Boys e continuaram trabalhando à distância. Em 2023, uma colaboração entre Papatinho e will.i.am finalmente foi lançada no EP Baile do Papato. "Foi tudo por chamada de vídeo, várias ligações no mesmo dia. A partir dali virou parceria de verdade".

https://www.youtube.com/watch?v=GpNWp1tr1gQ

A hora do anúncio

Com essa base sólida de colaborações, Papatinho e will.i.am já tinham uma química estabelecida. Mas nada preparou o produtor brasileiro para o que aconteceria em janeiro de 2026, durante a CES, a maior feira de tecnologia do mundo, em Las Vegas.

"Eu fui convidado pelo Will para participar de um bate-papo, meio entrevista, meio podcast, durante a CES. Fui sem saber exatamente o que ia acontecer e, logo no começo da conversa, ele contou ao vivo que tinha o sonho de fazer um álbum para o Brasil e lançar esse projeto no Carnaval do Rio. A notícia saiu na hora, porque a entrevista estava sendo transmitida ao vivo", conta Papatinho.

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O que aconteceu depois disso foi ainda mais surreal. No encerramento da feira, o Black Eyed Peas fez um show e will.i.am convidou alguns dos participantes da conversa para subir ao palco — entre eles, Papatinho, Ty Dolla $ign, Hit-Boy e outros produtores e artistas. "Ele me chamou para participar do show e foi simplesmente sensacional. Entrei sem nem saber direito o que fazer com a MPC, acabei mandando um freestyle e ele cantou algumas músicas do Black Eyed Peas por cima. Foi épico", relembra, com a voz ainda emocionada.

Mas o convite oficial veio depois, nos bastidores. "No camarim, já na hora de eu ir embora pro aeroporto, ele me chamou e disse: 'cara, me ajuda a fazer isso acontecer, esse é meu sonho. Vamos fazer isso acontecer'. Ali eu percebi que era sério mesmo".

Carnaval 2026, 2027!

A notícia do projeto viralizou rapidamente nas redes sociais. E não demorou muito para que Gabriel David, presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), entrasse em contato autorizando a ideia e oferecendo uma data para o show acontecer na Sapucaí no encerramento do Carnaval de 2026. O cronograma, porém, era apertado demais.

"Quando a notícia viralizou, o Gabriel David já entrou em contato autorizando e já dando a data pro ano seguinte, no encerramento do Carnaval. Passei isso pro Will e, na hora, ele já começou a desenhar o projeto: quer fazer um documentário, registrar todo o processo e envolver várias escolas de samba", revela Papatinho.

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"Não deu tempo de viabilizar para o Carnaval deste ano, então a ideia já ficou para o Carnaval do ano que vem. E, sinceramente, eu até gostei disso, porque ganhamos um ano inteiro para produzir com calma, que é do jeito que eu gosto de trabalhar".

E a ambição do projeto vai muito além de simplesmente fazer um show. will.i.am quer documentar cada etapa, criar um registro histórico desse encontro entre culturas. "A ideia é que o show aconteça na Sapucaí mesmo, do jeito que tem que ser", reforça Papatinho.

Samba, funk e identidade

Com o projeto confirmado e a data marcada, restava definir o mais importante: como seria, afinal, esse álbum? Papatinho conta que uma das primeiras perguntas que fez a will.i.am foi justamente sobre isso.

"Quando eu estava indo embora do show em Las Vegas, perguntei se a ideia era fazer versões dos clássicos do Black Eyed Peas em clima de Carnaval ou criar tudo do zero. Ele foi direto: quer fazer do zero, um álbum novo mesmo", conta o produtor.

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E a direção sonora já está bem definida: uma fusão entre samba e funk carioca, dois pilares da música brasileira. "A ideia é misturar samba e funk. Ele é apaixonado por funk desde que veio ao Brasil, foi a baile, quis viver a noite do Rio, e tudo que a gente já produziu junto também vem dessa referência. Mas ele faz questão de trazer o samba também, porque é a alma do Carnaval", explica Papatinho.

Para o produtor, essa escolha reflete exatamente o que will.i.am sempre buscou: autenticidade. "No fim, o projeto é isso: algo bem Brasil, bem Carnaval, valorizando a cultura local. É justamente essa identidade que chama a atenção dele como produtor — não copiar o que já existe lá fora, mas mostrar a nossa riqueza musical".

Equilibrar a própria assinatura com a identidade consolidada do Black Eyed Peas é um desafio que Papatinho encara com entusiasmo. "A parte mais legal desse desafio pra mim é justamente equilibrar a minha sonoridade com a dele. Isso já deu certo outras vezes no estúdio, então acho que naturalmente vai sair algo especial. Ele é um superproduto r, gosta de coisa pra cima, de vibe forte, e é muito aberto a novas sonoridades, como o funk".

Quando fala de referências, Papatinho não hesita em citar "Mas Que Nada", a colaboração icônica do Black Eyed Peas com Sérgio Mendes. "Se eu tivesse que citar uma faixa agora, com certeza falaria de 'Mas Que Nada', com o Sérgio Mendes. Aquela pegada brasileira sempre foi um ótimo exemplo de como o Will se conecta com o Brasil. O que eles fizeram juntos lá atrás mostra muito do que esse projeto pode representar hoje: essa ponte entre a música brasileira e o pop mundial".

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https://www.youtube.com/watch?v=ucD0gTr66ho

Brasil em alta

Para Papatinho, esse projeto com o BEP não poderia vir em momento melhor. A música brasileira vive um momento de reconhecimento internacional sem precedentes.

"Acho que o Brasil está muito em alta. A cultura brasileira, a música, tudo isso vem ganhando muito espaço. De um tempo pra cá, vários artistas lá de fora passaram a buscar referências daqui, seja no funk, na bossa nova", analisa o produtor.

Os exemplos dessa influência estão por toda parte. "Os maiores nomes do pop já colocaram funk em suas produções, como Beyoncé, Rihanna... até no Super Bowl rolou uma intervenção com esse clima. Hoje, produtores internacionais querem trabalhar com artistas brasileiros, assim como eu já trabalhei com alguns dos maiores produtores dos Estados Unidos. Tudo por causa da sonoridade do Brasil, que está muito valorizada", complementa.

Esse reconhecimento internacional tem um significado especial para Papatinho, que se vê como um representante dessa cultura lá fora. "E pra mim isso é muito especial, porque eu represento o Brasil, viajo bastante, então é muito bom ver essa cultura sendo reconhecida desse jeito".

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O que esperar? Vai ter a Fergie? Muitas dúvidas…

Se tem uma coisa que Papatinho tem certeza é que o público brasileiro vai abraçar esse projeto. A relação do Black Eyed Peas com o Brasil é antiga e intensa demais para ser ignorada.

"Ah, com certeza, o Black Eyed Peas é um grupo muito querido aqui no Brasil. No auge deles, isso ficou muito marcado. O próprio Will falou, nessa entrevista que eu fiz com ele, que um dos maiores shows da vida dele, se não o maior, foi no Réveillon em Copacabana", relembra Papatinho. "Então isso tudo ainda está muito enraizado na história do Black Eyed Peas aqui. Faz parte de uma geração inteira de fãs que viveu esse momento. Por isso, acho que eles vão ser muito bem recebidos nesse novo projeto".

Quanto às participações de artistas brasileiros, Papatinho deixa claro que há espaço — e vontade — para muitas colaborações. "Ah, com certeza. Acho que tem espaço para diversas participações de brasileiros. Eu gosto muito de produzir álbuns com bastante feat e, com certeza, ele também não vai pensar diferente".

Entre os nomes que Papatinho enxerga no projeto, Anitta aparece como uma escolha natural. "Acho que a Anitta tem tudo a ver. Ela é amiga dele também, e nem preciso definir o que ela representa no Brasil e lá fora", diz. Mas o produtor também pensa em artistas do samba. "Alguém mais da parte do samba também seria muito legal. Tem muita gente para somar. O Brasil é cercado de talentos e é tanta gente que agora nem consigo definir. Acho que isso tudo vai surgindo naturalmente quando o processo de criação e produção for acontecendo, e aí as ideias de feat vão aparecendo com certeza".

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Sobre a sonoridade geral do álbum, Papatinho acredita que, embora o projeto vá transitar por diferentes energias, o primeiro single deve trazer aquela vibe contagiante característica do Black Eyed Peas. "Eu acredito que isso seja por conta da energia que esse projeto transmite, pelo menos no papel. Ele já remete a esse tipo de vibe. Apesar de eu gostar muito de fazer música mais 'love', eu acho que, dentro de um álbum, dá pra transitar por várias sonoridades e também por várias energias. Se eu tivesse que definir agora uma música, escolher um single do projeto, eu apostaria com certeza em algo mais pra cima. Mas nada impede de ter também uma vibe mais calma em outras faixas, pelo menos na minha visão. E acredito que o Will concorde com isso também".

Um tema que naturalmente surgiu na conversa foi a Fergie, que deixou o grupo em 2018. Durante a entrevista na CES, will.i.am manifestou o desejo de que ela retorne, e Papatinho já está se preparando para essa possibilidade.

"Então, foi tudo meio de surpresa mesmo. No meio da entrevista ele já fez o convite e falou também que queria muito a volta dela. No final daquela entrevista, ele ainda mandou até um recado carinhoso pra Fergie", conta Papatinho. "Hoje ela não faz parte do projeto, mas nada impede que volte. E, se isso acontecer, vai ser sensacional marcar esse retorno justamente nesse trabalho, como ele pediu e como ele quer".

De qualquer forma, o produtor garante que a presença feminina está assegurada no projeto. "Acho que a parte criativa da produção, de qualquer forma, vai abrir espaço para versos pensados para uma voz feminina. Hoje eles já têm uma cantora que participa dos shows, então isso já existe dentro da formação atual. E, além disso, também tem a possibilidade dos feats. Então, na criação, a ideia é que sempre que der exista um verso ou uma intervenção feminina nas músicas. Pelo menos eu penso assim na hora de produzir".

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Próximos passos

A logística é o maior desafio prático. "O que normalmente me preocupa é prazo. Claro que me preocupa um pouco o fato de eu não morar nos Estados Unidos, porque, para um projeto tão grande e tão maneiro, estar mais perto ajudaria a adiantar muita coisa mais rápido", avalia Papatinho. Mas ele já tem viagem marcada e o cronograma desenhado. "Não vão faltar idas minhas pra lá. Inclusive, eu já estou indo agora, vou ficar bastante tempo, quase um mês. Então já dá pra dar esse primeiro start. Vou começar, a princípio, produzindo algumas coisas sozinho pra mostrar pra ele e, a partir daí, a gente vai ajustando, editando e construindo junto".

E se você achava que os dias de ouvir "Boom Boom Pow" no repeat tinham ficado para trás, prepare-se: os hits do Black Eyed Peas já têm data marcada para voltar a tocar no seu fone — só que dessa vez com o tempero do samba, a batida do funk carioca e toda a energia do Carnaval brasileiro. O sonho de will.i.am de celebrar o Brasil através da música agora tem um aliado à altura na figura de Papatinho, e com o Carnaval de 2027 como palco e a Sapucaí como cenário, a promessa é de um encontro histórico entre culturas. "Cresci ouvindo Black Eyed Peas. Poder trocar ideia com o will.i.am e pensar junto em algo que conecte o Carnaval do Rio com a música deles é surreal. Se isso se concretizar, quero que seja algo que represente o Brasil de forma forte, moderna e com identidade", finaliza Papatinho. E o Brasil, sem dúvida, estará assistindo — e dançando.

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