Joe Strummer, lendário líder do The Clash, teve sua visão de mundo moldada por um ecletismo sonoro que ia muito além do punk britânico. Uma seleção de seus cinco álbuns favoritos reúne o folk engajado de Bob Dylan ("Bringing It All Back Home"), o rap novaiorquino de Kool Keith e Lost Boyz, o dub jamaicano de Augustus Pablo e a música ancestral marroquina dos Master Musicians of Joujouka. Essa diversidade evidencia sua crença na música sem fronteiras como espelho social e reflexo de sua arte.
Joe Strummer foi uma das vozes mais singulares e politicamente engajadas do rock britânico. Nascido John Graham Mellor em 21 de agosto de 1952, em Ancara, na Turquia, era filho de um diplomata inglês e cresceu em diferentes países antes de se estabelecer em Londres. Foi na música que encontrou uma forma de expressar o que observava na sociedade. Cofundador, letrista e vocalista do The Clash — banda formada em 1976 e incluída postumamente no Rock and Roll Hall of Fame em 2003 —, Strummer ajudou a definir o punk britânico e, ao longo dos anos, incorporou ao gênero elementos de reggae, ska, dub, funk e rap. Em entrevistas e declarações, deixou pistas sobre os discos que moldaram sua visão de mundo. A Far Out Magazine reuniu essas referências em uma lista de cinco álbuns, que revela um músico muito mais eclético do que sua imagem punk poderia sugerir.
O disco mais esperado da lista talvez seja também o menos surpreendente: Bringing It All Back Home (1965), de Bob Dylan. O álbum, que apresentou ao mundo "Maggie's Farm" e "Subterranean Homesick Blues", além de consolidar a influência do rock com raízes na música folk de "Mr. Tambourine Man", marcou profundamente a maneira como Strummer via a canção como instrumento de reflexão social. Bruce Springsteen certa vez descreveu Dylan como a voz de sua geração — e, na visão de Strummer, o punk cumpria uma função semelhante: colocar um espelho diante da sociedade e retratar o tempo em que as pessoas viviam. Nesse sentido, ouvir Dylan enquanto escrevia sobre a Inglaterra dos anos 1970 não era um paradoxo, mas um método.
O que realmente surpreende é a escolha de Black Elvis/Lost in Space (1999), do artista de rap Kool Keith. Lançado sob a identidade artística "Black Elvis", o álbum mergulha em viagens espaciais, identidades fragmentadas e na sensação de estar perdido no cosmos, com letras notoriamente densas e labirínticas. A conexão com Strummer fica clara quando se ouve o disco: assim como o punk do The Clash, a obra de Kool Keith usa a música popular como veículo para ideias que ultrapassam as fronteiras do gênero. Na mesma lista está LB IV Life (1999), do grupo de rap Lost Boyz, outra escolha que reforça o interesse de Strummer pela cena do rap nova-iorquino do fim dos anos 1990, aparentemente distante do punk britânico dos anos 1970, mas menos do que parece.
Dois outros discos revelam a ligação de Strummer com músicas enraizadas em tradições muito mais antigas. King Tubbys Meets The Rockers Uptown (1976), de Augustus Pablo, é uma obra fundamental do dub jamaicano. Gravado no lendário estúdio de King Tubby, em Kingston, o álbum traz as melodias da melódica de Pablo sobre bases rítmicas pesadas e hipnóticas. Já Brian Jones Presents the Pipes of Pan at Joujouka (1971), do grupo Master Musicians of Joujouka, reúne séculos de música sufi marroquina em uma gravação feita pelo cofundador dos Rolling Stones na aldeia de Jajouka, no norte do Marrocos. Strummer nunca escondeu seu fascínio por músicas de outras culturas e épocas. Essa talvez seja a escolha mais pessoal da lista, justamente por não ter ligação evidente com sua produção: era simplesmente algo de que gostava de ouvir.
Ao observar os cinco discos em conjunto, é impossível traçar uma linha reta entre eles e o som do The Clash — e esse é justamente o ponto. Strummer acreditava que a música sem fronteiras era a única que valia a pena fazer. Música folk, dub, rap, música ancestral marroquina e o rock eletrificado de Dylan: tudo fazia parte do mesmo repertório emocional. Strummer morreu em 22 de dezembro de 2002, aos 50 anos, vítima de um ataque cardíaco, pouco antes de ser introduzido postumamente no Rock and Roll Hall of Fame ao lado do The Clash. A lista que deixou é um retrato fiel de quem foi.
Os cinco álbuns favoritos de Joe Strummer
Kool Keith — Black Elvis/Lost in Space
https://www.youtube.com/watch?v=Gh2yNTK619w&pp=ygUoS29vbCBLZWl0aCDigJQgQmxhY2sgRWx2aXMvTG9zdCBpbiBTcGFjZQ%3D%3D
Lost Boyz — LB IV Life
https://www.youtube.com/watch?v=GH9JPrf10ZE&pp=ygUYTG9zdCBCb3l6IOKAlCBMQiBJViBMaWZl
Master Musicians of Joujouka — Brian Jones Presents the Pipes of Pan at Joujouka
https://www.youtube.com/watch?v=LwEoDGeNyrE&list=PLz7TEbSQ6K2-xy9_kObVqi51zbeeNSSus&index=1&pp=iAQB8AUB
Augustus Pablo — King Tubbys Meets The Rockers Uptown
https://www.youtube.com/watch?v=wbCrYBWh62Y&pp=ygVFIyMjICoqQXVndXN0dXMgUGFibG8qKiDigJQgKioqS2luZyBUdWJieXMgTWVldHMgVGhlIFJvY2tlcnMgVXB0b3duKioq
Bob Dylan — Bringing It All Back Home
https://www.youtube.com/watch?v=oecX_1pqxk0&list=OLAK5uy_kE7qNEra9ki9Y5ujekyHQWWpEfp8n8d4w&pp=ygUnQm9iIER5bGFuIOKAlCBCcmluZ2luZyBJdCBBbGwgQmFjayBIb21l