Houve um tempo em que o nome de Vitor Kley era sinônimo de uma única estação, mas quem ficou parado na areia de 2018, perdeu a chance de ver o artista atravessar o equinócio e mergulhar em um outono de reflexões muito mais densas. O que Vitor apresenta agora não é apenas um novo repertório, é uma nova pele, uma nova vida, uma lavagem de alma.
Entre a calmaria de Santa Catarina e a efervescência de Portugal, nasceu As Pequenas Grandes Coisas. O projeto carrega o peso (e a leveza) de ser o seu primeiro passo fora das grandes engrenagens de gravadora, assumindo as rédeas da própria sonoridade. Ao lado de Marcelo Camelo e Paul Ralphes, Vitor trocou as fórmulas prontas pela imperfeição humana, permitindo-se flutuar entre o jazz, o soul e uma MPB que não tem medo de soar crua.
Se o álbum principal foi o encontro com o tal "pote de ouro" existencial, o recém-lançado EP deluxe, O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas, é o que acontece quando você olha para o bolso e percebe que as pedrinhas colhidas pelo caminho brilham tanto quanto o tesouro final. Com parcerias que transbordam alma, como Joyce Alane e Carol Biazin, Vitor encerra este ciclo azul olhando para a própria criança interior e afirmando: o risco vale a pena.
Sentamos com o cantor para uma conversa que, como sua música, começou no palco e terminou no coração. Um papo sobre luto, a "birra" de ser autêntico em tempos de algoritmo e o poder de cura de um bom disco de Guilherme Arantes. Chega mais e conheça um lado de Vitor Kley que vai além de suas obras!
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TMDQA! Entrevista - Vitor Kley
TMDQA!: Vitão, muito obrigado por receber a gente de novo, tô muito feliz em te entrevistar, cara! Na nossa última conversa, você mencionou que "Arco-Íris" era a música que você nasceu para fazer, representando um fim de jornada. Se o álbum era o encontro com o "pote de ouro", o que este EP representa para ti? Seriam as pedras preciosas que você esqueceu de tirar da mochila durante a subida?
Vitor Kley: Puta que pariu, Edu! Começou bem para caralho, velho. Nossa senhora. Eu não parei para pensar nisso, mas vou ter que pensar agora, porque você me fez a "pergunta de um milhão" [risos]. Eu acho que todo encontro com a nossa alma - que é como você definiu "Arco-Íris" - é algo profundo. Eu sigo pensando que aquela foi a música da minha vida, mas a gente tem que continuar, né? A vida não para porque você encontrou a música da sua vida. Não é como se o jogo tivesse acabado e eu fosse ficar sentado numa rede olhando o mar.
A real é que essas "pedras preciosas" que você falou estavam no caminho para o pote de ouro - elas estavam ali do lado, eu fui pegando e botando no bolso. De repente, quando cheguei ao destino e meti a mão no bolso, falei: "Caraca, ainda tem essas pedras aqui que estavam comigo o tempo inteiro". O EP é isso.
São pedras que eu fui encontrando - pedras preciosas, e eu não queria que elas ficassem guardadas só comigo. Como tudo o que faço na vida, quero que elas vão para o mundo, para as pessoas.
TMDQA!: Que resposta maravilhosa. Agora, sobre o título: "O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas". Em um mundo de descartes rápidos, como foi olhar para essas músicas e perceber que elas não eram "restos", mas uma espécie de reserva de emergência da sua alma?
Vitor Kley: Desde o princípio do projeto, percebi que nada seria em vão, nem o que "não serviu" inicialmente. Eu tenho uma birra da minha criança interior que é assim: "Ah, vocês não gostaram dessas músicas agora? Então eu vou lançar depois!". Eu gosto de fazer o contrário do que as pessoas esperam, então se eu não fizesse isso, minha alma não estaria preenchida. Essas músicas são tão boas quanto as que entraram no álbum e não seria justo elas ficarem perdidas no espaço sideral.
E tem algo engraçado: quando eu digo que são as músicas que "sobraram", parece que as pessoas prestam mais atenção. É como torcer para o time pequeno que joga contra um grande, como o Flamengo; o ser humano tem esse interesse pelo que vem pelas beiradas. O interesse por esse Deluxe está sendo enorme, e eu acho isso genial.
TMDQA!: Com certeza. E falando sobre parcerias, em "Abalo Psicológico" você divide a canção com a Joyce Alane e a composição com a Carol Biazin. Como foi equilibrar identidades tão fortes em uma faixa que fala justamente sobre algo instável como um "abalo"?
Vitor Kley: Essa música nasceu colada com a Carol. Escrevemos "terra de ninguém" (que foi para o disco dela) e "Abalo" no mesmo dia, a presença da Carol é tão poderosa que eu fiquei na dúvida de quem chamar para dividir a voz. Ela era para estar no álbum principal, mas guardamos por essa indecisão.
Aí conheci a Joyce pelo Instagram, vendo aqueles vídeos em que ela compõe com palavras que os fãs mandam.. achei ela poderosíssima! Quando surgiu o nome dela, a Carol amou.
E quando a Joyce entrou no estúdio, tudo fez sentido. Ela trouxe o Brasil no sotaque, trouxe um controle vocal absurdo e uns vocalizes diferentes. A música fala de um relacionamento inconstante, e para dominar essa "inconstância", precisávamos de alguém que dominasse a arte de cantar. A Joyce é o símbolo da música para mim.
TMDQA!: Temos também "O Vento", composta com a Priscilla Alcantara e o Giba Moojen. No álbum principal, os elementos eram o mar e o mergulho. O que o vento deste EP veio soprar para longe que o mergulho anterior ainda não tinha levado?
Vitor Kley: Caraca, bonito isso! Uma vez, em um momento de decisões difíceis, uma pessoa muito elevada espiritualmente me disse que as coisas não seriam fáceis no início, mas que uma hora os ventos soprariam as velas do meu barco para um caminho bom e eu encontraria terra firme. O vento é necessário para as marés e correntes se alinharem.
Essa música conta um pouco da história que passei e que as pessoas às vezes não sabem. Quando você "estoura", muita gente cai em cima, duvida da sua capacidade, acha que você é "só mais um". Com a maturidade desse projeto, senti que precisava dizer isso na lata, sem tantas metáforas. "O Vento" serve para soprar as coisas ruins para longe e inflar as velas para chegarmos a esse lugar maravilhoso, onde estão as pedras preciosas.
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TMDQA!: Sobre a faixa "Da Minha Natureza", ela soa como um manifesto. Após 10 anos em gravadora, agora como artista independente, o que é da sua natureza que antes precisava ser "podado" para caber em uma bolha?
Vitor Kley: Minha passagem pela gravadora foi necessária e incrível, tenho muito amor pelas pessoas de lá. Mas chegou uma hora em que eu queria experimentar coisas novas. O principal agora é a coragem de fazer o que eu acho que tem que ser feito. Antes, por respeito, eu colaborava com ideias que vinham de fora - agora é handmade, com nossas próprias mãos.
Essa liberdade de errar, acertar e experimentar é inegociável. Minha paz e minha liberdade hoje não têm preço. É como em filme de super-herói: o cara começa buscando dinheiro, mas termina descobrindo que a paz é a coisa mais incrível que ele pode ter. Eu encontrei esse lugar, vai ser difícil me tirar daqui!
TMDQA!: Nos bastidores, o Paul Ralphes teve a ideia de usar o mesmo microfone para todos os violões e vozes do álbum principal. Nesse EP, esse microfone continuou sendo seu "confidente" ou você sentiu que precisava de uma textura diferente para marcar o fim do ciclo?
Vitor Kley: Foi totalmente diferente! E obrigado por lembrar desse detalhe técnico. No EP, mudamos tudo. O microfone mudou, as pessoas mudaram, tivemos a dúvida se seguíamos a linha estética do álbum, mas decidimos: vamos fazer essas músicas valerem por si mesmas.
Na mixagem com o João Milliet, pedi "pancada". Bumbos e caixas pesadas, o ser humano tocando de verdade - bateria, baixo, guitarra, piano. É o último capítulo, e ele tem uma sonoridade diferente para mostrar que, embora faça parte da mesma história, é um momento novo.
TMDQA!: E qual foi o momento mais visceral desse processo no estúdio? Teve algum solo ou virada que fez vocês pararem e pensarem: "É por isso que a gente faz música"?
Vitor Kley: Teve uma confissão que pouca gente sabe! Tínhamos uma sexta música que acabou não entrando no EP. Quando o Guto gravou a bateria dela, parecia que a música já veio mixada, de tão perfeito que foi. Ficou um silêncio no estúdio.
Quando olhei para trás, minha mãe estava na sala chorando. Ela disse: "O risco vale a pena, né?". Foi o momento mais bonito, mas decidimos guardar essa música para o futuro, para que ela tenha a vida dela no tempo certo.
TMDQA!: Você sempre bate na tecla do "feito por gente". Em uma era de batidas programadas e IA, gravar esse EP foi uma tentativa de deixar as digitais humanas o mais visíveis possível?
Vitor Kley: Perfeito! Amo evidenciar isso. É um projeto feito por pessoas, desde a arte da capa até a escolha de qual guitarra usar no amplificador, com reverb de mola soando de verdade.
Eu sou aquele menino birrento que diz: "Tá todo mundo usando tecnologia Hi-Fi? Pois nós vamos fazer do jeito raiz". Eu consigo sentir o dedo do Guto na batera, do Léo no baixo, do Peter na guitarra. Somos artistas que fazem arte com as próprias mãos e queremos deixar isso claro para o mundo.
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TMDQA!: Vitão, para encerrar: a capa traz essa "última nuvem no céu". Se você pudesse olhar para baixo dessa nuvem e ver o Vitor de 14 anos, que debutou em 2009, qual dessas cinco músicas você tocaria para ele entender quem ele se tornaria?
Vitor Kley: Se eu olhasse para baixo agora, veria um mundo muito colorido e cheio de vida. Eu tocaria "Da Minha Natureza". Diria para aquele menino: "Cara, é isso. Às vezes vêm umas correntes, mas se desprende delas. Saiba ser como as águas de um rio. Seja livre". Essa música responde tudo o que as pessoas indagam sobre mim: eu sou assim mesmo, tenho meu jeito de ser.
O céu azul desse projeto já está mudando de cor. Eu não sei qual cor virá, mas sinto que é a última dança desse ciclo. A criança na capa olha para a porta e diz: "Chegou a hora de eu ir". Encerramos esse ciclo de forma madura e muito feliz.
TMDQA!: A entrevista tecnicamente acabou, mas eu não posso deixar de improvisar. Na nossa última conversa, você me disse que estava ouvindo muito Jorge Drexler e CA7RIEL & Paco Amoroso. O que o Vitor Kley está ouvindo exatamente agora e recomendaria para o mundo?
Vitor Kley: Nossa senhora, eu vou ser certeiro, nem vou rodar muito a lâmpada: Guilherme Arantes. Velho, eu estou fissurado no Guilherme Arantes. Desde que ouvi "Meu Mundo e Nada Mais" - aquele trecho "quando fui ferido, vi tudo mudar" - aquilo bateu de um jeito muito forte em mim.
E sabe o que aconteceu? Eu tirei essa música no violão e fui tocar na casa da minha mãe. Ela estava lá fazendo as coisas dela e, na hora, colou no piano e começamos a cantar juntos. Isso virou um ponto de conexão fortíssimo entre nós.
Eu levei ela ao show dele, conhecemos o Guilherme, e eu vi minha mãe ser feliz como há muito tempo não via. Ela pulava, abraçava gente que nem conhecia… Então, meu recado para a rapaziada da nova geração é: escutem muito Guilherme Arantes.
TMDQA!: Cara, que momento. Agora sim, para finalizar de vez: muito obrigado por nos receber. É impressionante porque, embora eu conhecesse sua carreira, eu não tinha tanto contato com a sua música antes da nossa primeira entrevista. Depois do nosso papo e de ouvir o álbum, eu me senti muito mais conectado, não só com o Vitor artista, mas com a pessoa que você é. Você transmite essa verdade no trabalho, falando de família e vida pessoal, e isso é espetacular. Obrigado pela oportunidade e saiba que, o que precisar de mim ou do TMDQA!, estamos aqui.
Vitor Kley: Caraca, Edu… brigadão, velho. Eu quase "beicoirei" (chorei) umas três vezes aqui agora. É muito especial encontrar pessoas mágicas como você. O mundo está perdendo um pouco da magia, e quando encontramos alguém com essa luz interior, é importante valorizar.
Você é um cara que me faz bem. Nossa entrevista começa com um assunto profissional, um lançamento, mas naturalmente entra em um negócio da alma, de vida. Fico muito feliz que você tenha se conectado pela pessoa antes das músicas, porque essa é a conexão mais sincera que existe: identificar-se com o ser humano e só depois ver o que ele faz da vida.
Conta comigo para o que precisar também. Manda um beijão para sua mãe e para o seu pai, espero de verdade que a gente se encontre logo para dar aquele abraço forte e verdadeiro.
TMDQA!: Digo o mesmo, irmão. Parabéns pelo lançamento e que esse EP voe alto. Valeu mesmo!
Vitor Kley: Valeu, Edu! Estamos junto, meu irmão! Tchauzinho!
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