Aos 35 anos do álbum Nevermind, do Nirvana, o biógrafo Michael Azerrad avalia que a música perdeu a força unificadora na cultura jovem diante da fragmentação digital. Contudo, o disco segue influente por sua autenticidade frente a conteúdos artificiais da era dos algoritmos. O autor ressalta que o sucesso arrebatador da obra alçou o rock alternativo ao topo global, mas cobrou um preço trágico na saúde mental de Kurt Cobain, despreparado para o trauma da fama repentina.
Quando Nevermind, obra prima do Nirvana, foi lançado, em 24 de setembro de 1991, a gravadora David Geffen Company (DGC) distribuiu apenas 46.251 cópias para as lojas nos Estados Unidos. A expectativa era de que, com uma boa divulgação, o álbum alcançasse o disco de ouro (500 mil à época) em um ano. A marca foi superada em apenas um mês e o disco chegou ao 1º lugar da parada Billboard 200 em janeiro do ano seguinte, desbancando Dangerous, de Michael Jackson, e virando o mercado de cabeça para baixo.
Após 35 anos, em uma era dominada por algoritmos e conteúdos artificiais, a busca do público jovem por algo que carregue "coração e alma" é o que mantém vivo o interesse das novas gerações em Nevermind. É o que avalia Michael Azerrad, jornalista com passagem por veículos como Rolling Stone e The New York Times que testemunhou a efervescência do movimento grunge em Seattle e a ascensão do grupo liderado por Kurt Cobain (1967 - 1994), em entrevista ao Estadão.
Autor de Come as You Are: A História do Nirvana, publicado seis meses antes da morte de Cobain — e que ganhou edição ampliada em 2024, nos 30 anos da morte do ícone da Geração X —, o biógrafo é enfático ao comparar o cenário daquela época ao atual. "A música simplesmente não é mais a força unificadora da cultura jovem que já foi um dia", diz o jornalista. Em contrapartida, canções como Smells Like Teen Spirit, Come as You Are, In Bloom e Lithium continuam a influenciar artistas da nova geração, dos mais populares ao underground.
Nevermind vendeu 30 milhões de discos no mundo todo e acumula cerca de 18 bilhões de reproduções nas plataformas de streaming, segundo estimativa do ChartMasters. A veia pop das melodias de Cobain, que alternam entre momentos de calmaria e fúria, somada a uma produção que tornou o disco mais acessível ao mercado, permitiu ao álbum se tornar um clássico atemporal ao mesmo tempo em que alçou o rock alternativo ao mainstream.
À reportagem, Azerrad analisa o impacto traumático da fama na saúde mental de Kurt Cobain, reflete sobre as previsões do vocalista a respeito da tecnologia, detalha a dinâmica criativa única entre Cobain, o baixista Krist Novoselic e o baterista Dave Grohl e explica por que transformações dessa magnitude dificilmente voltarão a acontecer no mercado musical fragmentado de hoje.
Trinta e cinco anos depois, 'Nevermind' continua apresentando o Nirvana a novas gerações. O que fez com que o álbum resistisse ao teste do tempo?
Grandes músicas perduram por muito tempo, e Kurt Cobain compôs várias delas. Ajuda o fato de Nevermind ter sido gravado de uma maneira que soa bem no rádio, em casas de shows, em fones de ouvido e até mesmo nos alto-falantes de notebooks. E há algo na voz de Kurt que é atemporal, que fala à condição humana de maneiras que as pessoas sentem profundamente, mesmo que não entendam a letra.
Artistas do mainstream, como Olivia Rodrigo, e bandas alternativas, como o Geese, buscam inspiração no rock dos anos 90. O que o legado de 'Nevermind' ainda oferece à música da juventude atual?
Há muitas coisas falsas no mundo hoje: não apenas música falsa, mas notícias falsas, comida falsa, vídeos falsos, políticos falsos. Nem todo mundo se importa com isso, mas muitas pessoas querem algo real, algo com coração e alma. É isso que o Nirvana representa. No final dos anos 80, quando o Nirvana realmente surgiu, a música popular estava se tornando cada vez mais um produto criado e promovido de forma cínica, que não comovia ninguém. O Nirvana lembrou as pessoas de que era possível retomar o poder catalisador da música e, por extensão, talvez retomar outras coisas também.
Em 'Come as You Are…', você relata que Kurt acreditava que a importância da música seria superada pela tecnologia. Hoje, com a IA criando músicas e as redes sociais transformando a música em algoritmos e trilhas sonoras de vídeos, você acha que a previsão dele se concretizou?
Para deixar claro, Kurt não estava falando de IA. O que ele previu foi que algum tipo de tecnologia conectada a computadores supriria o mesmo desejo de comunidade que o rock já supriu — e ele estava praticamente certo: os jogos multijogador realmente se tornaram uma forma muito popular de interação social, e a receita dos videogames hoje supera a da indústria musical. E as redes sociais são ainda maiores e muito mais poderosas do que isso.
Três décadas após 'Nevermind', o mercado está mais fragmentado, especialmente após a ascensão do streaming e a democratização da internet. O cenário atual ainda permite um movimento revolucionário como o grunge?
O grunge, como forma musical, não foi particularmente inovador. Era apenas uma combinação de punk e hard rock que já existia há alguns anos e, de repente, explodiu em popularidade. Em contrapartida, o hip-hop foi verdadeiramente inovador. Ninguém havia feito nada parecido antes.
Sempre haverá movimentos inovadores na música, pois inovações tecnológicas, eventos humanos, mudanças geracionais, movimentos intelectuais, etc, sempre criarão as condições para isso. No entanto, devido à fragmentação do público musical, e talvez da nossa sociedade em geral, não acredito que mudanças revolucionárias nos estilos musicais populares voltarão a ter o impacto de massa e a relevância que tiveram no passado.
Antes da explosão do Nirvana, o R.E.M. já havia deixado sua marca, e bandas como Sonic Youth, Dinosaur Jr. e Mudhoney contavam com bases de fãs significativas. Por que a indústria musical da época não previu que 'Nevermind' se tornaria um fenômeno grande o suficiente para destronar Michael Jackson do topo das paradas?
Não tenho tanta certeza de que a indústria musical não previa que, um dia, um novo tipo de música substituiria o que estava em alta. Afinal, isso vinha acontecendo desde o surgimento da música popular: o jazz, depois o rock & roll, depois os Beatles, depois o hard rock, a disco music, a new wave, o hair metal, e assim por diante.
No início dos anos 90, o R.E.M. já estava se tornando muito popular, assim como o Faith No More e o Jane's Addiction. Não era difícil perceber o que estava para acontecer. A indústria musical apenas não sabia que seria o Nirvana a mudar tudo — e a mudar de forma tão rápida e decisiva.
A gravadora DGC estava preocupada em tornar o som do disco acessível, e Andy Wallace conferiu a 'Nevermind' uma sonoridade mais polida. Lá em 1977, alguns fãs dos Sex Pistols reclamaram que 'Never Mind the Bollocks' soava comercial demais. Como 'Nevermind' foi recebido na cena underground da época?
Não foi apenas o engenheiro de mixagem Andy Wallace quem deu a Nevermind um som polido. O produtor Butch Vig também contribuiu para isso, utilizando samples para encorpar a bateria, dobrando vozes, repetindo trechos através de cortes e emendas na fita magnética, e assim por diante. Kurt provavelmente considerava tais técnicas desonestas — ou, no mínimo, pouco "punk" —, nem que fosse apenas pelo fato de que muitas das bandas que ele idolatrava simplesmente não tinham condições financeiras de gravar daquela maneira.
Alguns puristas da cena indie underground reclamaram que Nevermind era excessivamente polido e que o Nirvana havia se vendido. No entanto, essas críticas foram rapidamente abafadas pela enorme popularidade do álbum: milhões de pessoas, inclusive fãs de indie rock, adoraram o Nevermind.
Ainda assim, Kurt era muito sensível às críticas sobre a abordagem comercial da gravação. Ele não queria afastar o público original da banda nem desagradar aos árbitros da estética indie, como o falecido músico e produtor Steve Albini. Por isso, ele fez questão de que o álbum seguinte (In Utero) fosse produzido de uma forma muito mais indie, gravando-o com Albini, conhecido por criar discos crus e sem concessões comerciais.
Você acredita que algo da identidade da banda se perdeu nesse processo?
Na verdade, ela foi amplificada e consolidada. Nevermind estabeleceu o Nirvana como a banda símbolo de uma nova geração de jovens alienados, a Geração X, e Kurt como seu santo padroeiro atormentado.
O que havia na dinâmica criativa entre Kurt, Krist e Dave que tornava o som deles diferente das outras bandas da cena de Seattle?
Grande parte do que diferenciava o Nirvana de tantos de seus contemporâneos do Noroeste era o fato de Kurt não ser um guitarrista virtuoso. Por isso, ele compunha músicas muito simples, que conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo. Outras bandas da região, como Alice in Chains e Soundgarden, tocavam músicas relativamente sofisticadas, e seus vocalistas geralmente não tocavam instrumentos.
Krist criava linhas de baixo excelentes e belas, que equilibravam a forma rudimentar de tocar de Kurt. E Dave ancorava tudo isso com um poder incrível, mas também com uma musicalidade extraordinária. Mesmo que você ouvisse apenas a bateria, saberia imediatamente qual música ele estava tocando.
Falar sobre saúde mental já não é o tabu que costumava ser. De que maneira o sucesso de Nevermind contribuiu para o desgaste emocional de Kurt Cobain?
Uma das maiores conquistas de Kurt, para além da música, foi chamar a atenção para a pressão imensa que a fama pode exercer sobre a saúde mental de um artista. Esse era um assunto raramente abordado, como aconteceu com Judy Garland e Marilyn Monroe, muitas décadas antes.
Algumas pessoas são criadas para o sucesso. Geralmente, elas pertencem a uma classe socioeconômica muito mais elevada do que aquela em que Kurt vivia. Quando pessoas de classes privilegiadas alcançam o sucesso, elas já estão preparadas para isso em vários níveis.
Mas Kurt não era uma dessas pessoas. Ninguém jamais esperou que ele tivesse sucesso em qualquer coisa. Além disso, ele sofria de depressão, tinha uma autoimagem negativa e estava a caminho de se tornar dependente de heroína. Tornar-se mundialmente famoso em questão de poucos meses é uma experiência traumática que pouquíssimas pessoas conseguem suportar. Mais uma vez, Kurt não era uma dessas pessoas raras capazes de lidar com isso. E todos nós sabemos o que aconteceu.