MV Bill lançou na última semana o álbum MV30 - 30 Anos em Movimento. São 20 faixas que revisitam sucessos de três décadas de carreira, com duas inéditas: "Milicítico", que mistura política e religiosidade em uma base drumless, e a versão instrumental de "Só Se For D", gravada com Chorão em 2002.
A ideia é simples: compilar as músicas que mais marcaram gerações — aquelas que as pessoas procuram, mas não sabem em qual disco estão —, reunindo tudo em um só lugar. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Bill refletiu sobre essas três décadas em movimento:
Quando você decidiu criar este projeto?
Na verdade, como se trata de um disco de compilação e eu tenho uma carreira longa, com muitos álbuns lançados, quis reunir, nesses 30 anos, as faixas que mais fizeram sentido e mais marcaram a minha história. Algumas delas também tiveram impacto na história do rap nacional.
Decidi juntá-las em um disco comemorativo. Incluí duas faixas inéditas, mas todas as outras já haviam sido lançadas. Acho que, às vezes, o público ainda não consegue encontrar em qual álbum está determinada música. Reunindo tudo em um só lugar, uma atrás da outra, fica mais fácil na hora da busca.
Como foi o processo de selecionar essas 20 faixas entre mais de 500 músicas?
Essa parte foi bem difícil mesmo. Tinha muita música que eu queria incluir, mas eu também não queria fazer um disco de 30 faixas, sabe? Eu precisava escolher e sabia que algumas ficariam de fora. Mas nem lamentei, porque, na verdade, eu agradeço: sou muito privilegiado por ser um artista nesse nível, a ponto de ter que escolher entre tantas músicas para separar só 20.
Quando você olha para esses 30 anos de carreira, o que passa pela sua cabeça?
A primeira coisa é a longevidade. Eu venho de um contexto social muito violento, que é a minha vivência na Cidade de Deus. Nesse cenário, a expectativa de vida é baixa. Para a gente, era normal ver pessoas com 28, 30 anos morrendo.
Então, quando você passa dos 40, chega aos 50, ainda com relevância, fazendo show e vendo gente prestando atenção nos lançamentos, eu me sinto muito privilegiado e muito agraciado por estar nesse grupo seleto que ainda consegue se comunicar com tanta facilidade.
E, ao ouvir os seus próprios clássicos de 30 anos atrás, o que você sente?
A minha relação com eles tem mudado bastante. Tem versos de que eu não me envergonho — e nem mudaria — porque fazem parte do contexto daquele momento, do que eu vivia na época. Mas também existem coisas com as quais eu já não me identifico mais.
Por exemplo, tem "Soldado do Morro", em que, nos shows, eu mudo algumas frases; não são mais iguais. E tem outras ideias que eu simplesmente não penso mais daquele jeito. Nessa, eu canto na perspectiva de alguém que levou vários tiros, mas não morreu imediatamente: está de olhos abertos, como se a consciência ainda estivesse funcionando, vendo tudo acontecer ao redor, mas sem conseguir se ver. É o pensamento da pessoa falando.
É uma música que eu ouço e fico pensando muito na escrita, de onde veio aquela inspiração. Às vezes são coisas inexplicáveis; eu procuro a resposta e não encontro. E o grande culpado disso é o Bill do passado.
Naquela época, com 14, 15 anos, eu não era muito aceito nas rodas de jovens da minha idade. Eu era um adolescente rejeitado, sem muita inserção em nada. Quando eu conheci a cultura hip hop e o rap, foi a primeira vez que alguém da minha idade me elogiou por alguma coisa: "Olha, ele sabe rimar". Eu pensei: "Vou me agarrar a isso", porque foi a única coisa que as pessoas reconheceram em mim. Eu queria fazer disso uma ponte para mudar de vida.
E aí foi o grande estopim para me tornar outra pessoa. Eu agradeço demais ao Bill do passado, porque, no meio de tantos outros ritmos musicais muito mais fáceis de se inserir, eu escolhi o rap — que nunca foi um caminho fácil. Até hoje, ainda é uma música difícil de entrar em certos lugares. Eu escolhi esse ritmo e bati de frente com todo mundo para fazer a minha trajetória. Então: obrigado, Bill do passado.
Mas também, por outro lado, músicas mais politizadas, como "Só Deus Pode Me Julgar", ainda me chamam atenção porque vários versos continuam representando a política brasileira de hoje. Isso mostra como o Brasil, quando se trata de contexto social, é repetitivo, a ponto de uma música de 2001 ainda ser, infelizmente, muito atual.
Isso é por conta do amadurecimento como pessoa?
Sim, é o amadurecimento mesmo. Ele te faz olhar para o mundo de outra forma. Até pensamentos que eu defendi no passado foram mudando e, sem vergonha nenhuma, mudar e reconhecer que as coisas ficaram diferentes faz parte.
Para mim, isso é uma dádiva: reconhecer o amadurecimento e entender que a mudança é algo totalmente natural.
Você começou com Tiro Inicial em 1993, considerado o primeiro disco de rap do Rio de Janeiro. O que era o rap brasileiro naquele momento?
Naquela época, o rap era muito concentrado em São Paulo; praticamente só São Paulo fazia rap. Fora de lá, havia uma cena forte em Brasília e em Belo Horizonte. No resto do país, eram nichos muito pequenos.
Existiam células de rap pelo Brasil, mas nada comparado à cena paulista, que já tinha circuito de shows, gravadoras, gravações, cachês e artistas vivendo dessa arte. Era outra realidade.
Quando a gente gravou Tiro Inicial, que era uma coletânea — da qual também fazia parte o Gabriel Pensador, que hoje é meu parceiro e camarada —, a gente não tinha muito horizonte. A referência ainda era São Paulo. E a gente nem sonhava que o rap chegaria à grandiosidade que tem hoje.
E a cena mudou muito nesses 30 anos. Tem alguma coisa que continua do mesmo jeito?
Depende de qual cena você olha. Existe a cena "hypada", no auge dos streams, e existe outra que acontece em paralelo.
Talvez seja uma cena que as pessoas precisem procurar, porque essas músicas nem sempre aparecem de primeira. Por isso, nesse lançamento, em parceria com a Symphonic, eu estou tendo resultados que, havia tempos, eu não conseguia com a distribuidora anterior — lá, tinha muitos outros MCs e artistas do hype.
Com o rap virando mainstream, isso fortalece a mensagem dele ou dilui?
Acho que acabou diluindo, porque o rap ganhou contornos de cultura e música pop. Isso não é ruim, mas existe um público que ainda sente falta do rap original, cru.
Às vezes, não só do boom bap, mas de rap sendo rap, sem medo de ser rap, falando do que sempre falou: questões do dia a dia — pessoais, existenciais, sociais, raciais —, os nossos conflitos cotidianos. Esses temas sempre estiveram presentes nas letras, mas, de um tempo para cá, diminuíram um pouco com essa vertente do trap e com a perda de conteúdo lírico — que sempre foi uma das riquezas do rap. Mas isso não é o rap como um todo.
Isso acontece quando você olha só para a cena "hypada". Mais "embaixo", as pessoas continuam fazendo música de coração. Esse nicho nunca parou de existir. O que acontece é que alguns jornalistas e blogueiros repetem a frase clássica: "O verdadeiro rap morreu". Mas, muitas vezes, o acesso dessas pessoas é só a essa cena, e falta disposição para procurar o que não está estourado. Então eu digo: garimpem. Garimpem, porque tem gente fazendo música de verdade no Brasil.
Como você lida com um catálogo tão grande, com mais de 500 músicas lançadas?
Eu estou tendo que revisar tudo. Como o catálogo é muito grande, alguma coisinha às vezes passa batida. Então eu estou olhando música por música, composição por composição, para ver se as divisões estão certas — porque pode acontecer de algum autor não estar no ISRC e acabar não recebendo. E isso sou eu que preciso fazer.
Mas, de novo: em vez de reclamar do trabalho, eu agradeço pela capacidade de fazer tanta rima e tento me repetir cada vez menos. Agradeço demais ao universo por esse dom.
E como tem sido revisitar tudo isso?
Cada vez que eu entro num disco antigo — e, para fazer esse projeto de 30 anos, eu precisei ouvir muita coisa que eu não ouvia havia muito tempo —, em vários momentos eu me emociono. Às vezes, pelo conteúdo lírico; às vezes, por lembrar o que me levou a escrever aquela composição; às vezes, por lembrar onde eu estava quando criei determinada letra.
Hoje eu vou para o estúdio e escrevo lá dentro, já gravo na hora. Mas, naquela época, eu não tinha isso.
Eu escrevia sentado na beira da cama, no quartinho, olhando para a janela. A janela virava uma tela de cinema: eu via gente indo para a escola, gente indo para o baile, gente armada passando, polícia correndo… tudo aquilo virava inspiração.
Por isso, às vezes, alguns fãs dizem: "Você tinha que fazer música como antigamente". Mas aquilo era o momento — e eu não vivo mais daquela forma.
Agora, falando da música inédita do álbum: misturar religião e política, como você fez em "Milicítico", não é perigoso?
Política social e partidária são temas que sempre estiveram nas minhas músicas. Nesse disco, por exemplo, "Só Deus Pode Me Julgar" fala disso o tempo inteiro.
Não é um tema fácil, e não são muitos artistas que se propõem a falar sobre isso. E eu não tenho rabo preso com corrente política, pensamento partidário ou qualquer corrente: eu posso falar o que eu quiser. Eu sempre briguei por essa liberdade.
Mesmo sabendo a qual povo eu pertenço, a quem eu dou voz e a qual raça eu faço parte, eu preciso ter liberdade para falar do que eu quiser — inclusive para criticar os meus quando eu achar necessário.
E sobre a versão instrumental de "Só Se For D"? Por que relançá-la assim?
No passado, a gente não tinha tanta cultura de lançar versões instrumentais das músicas. Mas essa é especial: a gente gravou em São Paulo, no mesmo dia em que gravamos com o Chorão, em 2002.
Antes de colocar voz em "Só Se For D" — que é um trocadilho incrível —, a gente ficou ouvindo a base instrumental por muito tempo. O Chorão entrou no estúdio numa das sessões e falou: "Caraca, que beat legal". E a gente continuou ouvindo só o instrumental.
A gente colocou as vozes no disco, mas a gente gostava mesmo era do instrumental. E agora, anos depois — mais de duas décadas depois —, depois de ouvir a versão vocal muitas vezes, eu decidi disponibilizar esse instrumental para o público. Tomara que a galera aprecie tanto quanto eu, o DJ Luciano, que produziu, e o Chorão, lá em 2002.
Quando você sentiu que seu trabalho estava realmente tendo esse efeito nas pessoas?
Foi mais recentemente. Na época, eu não tinha tanta noção disso. Acho que passei a perceber agora, mais velho, porque o meu público também envelheceu.
Já deu tempo de muita gente casar, se formar, ter família. Nos eventos que eu faço hoje, às vezes vai mãe e filho; no show de sábado, na Virada Cultural, tinha mãe com filho na plateia. E eu recebi no camarim relatos de uma geração passando meu som para a outra. Isso é muito f*da, porque mostra que o rap consegue chegar a um ambiente familiar — e mostra que a gente está vivo.
Eu só comecei a ouvir esse tipo de feedback há pouco tempo. E são relatos fortes: "Sua música me ajudou a sair da depressão", "me ajudou a escolher um caminho melhor", "me levou para a positividade", "me ajudou a sair de uma tentativa de suicídio". Eu não faço ideia de qual música especificamente a pessoa está falando, nem de que forma aquilo aconteceu. Mas, se aconteceu, é muito bom.
É um feedback humano, que mostra que você não está só levando entretenimento, mas também abrindo possibilidades de mudança. Dinheiro é importante — é preciso para pagar as contas —, mas esse retorno humano vale muito.
Seu catálogo passou para a Snafu Records em parceria com a Symphonic Brasil. Como você imagina que o seu rap vai ser recebido internacionalmente?
Eu tenho novos lançamentos e alguns discos programados, que vão dialogar com outras musicalidades e outros ritmos. Talvez este seja um bom momento para o meu trabalho chegar a pessoas de outros lugares. Porque, no rap mais tradicional, a grande diferença para os americanos está muito na letra, não tanto na questão rítmica.
Uma música ou outra eu usei elementos brasileiros, mas agora eu tenho três EPs sendo preparados ao mesmo tempo e estava esperando um bom momento para lançar. Com a Symphonic e a Snafu, com essa mentalidade de dar atenção e importância ao meu trabalho e tentar internacionalizá-lo, acho que este é um bom momento. Pode ser uma boa junção.
Você mencionou três EPs. O que você pode contar sobre eles?
É muito em breve. Como eu sou independente, eu não tenho gravadora. Sou eu que banco o meu trabalho; eu que monto planilha, pago os custos de gravação. Então, sou eu que decido o melhor momento.
Claro que eu sempre peço ajuda para quem entende, para pensar no timing. Mas ter autonomia e a palavra final sobre a direção do meu trabalho me dá uma independência muito grande — e isso me permite pensar em projetos que eu não poderia pensar se tivesse gravadora.
Eu venho de uma época em que se faziam discos grandes, de 16, 17 faixas. Hoje, tudo é mais dinâmico; as pessoas estão mais rápidas e, às vezes, não têm tempo para ouvir um disco tão longo.
Com EP, cinco ou seis músicas, a galera ama e chega mais fácil. Todas as faixas recebem atenção; senão, às vezes, só duas se destacam e um monte de música boa passa batida. Por isso, trabalhar singles é importante. Eu estou fazendo três EPs — ainda não posso dizer com quem eu vou misturar o meu rap, porque, em cada um, eu misturo com alguma coisa diferente. E, nos intervalos desses EPs, eu vou lançar singles com a minha irmã, Kmila CDD.
Para fechar, como você quer que as próximas gerações se relacionem com a sua obra?
Puts, essa é difícil. Mas eu penso que a relação que eu construí com a galera de hoje é a mesma coisa que vai se transferir para o futuro, assim como aconteceu com o Bill do passado.
Hoje eu encontro, no presente, as pessoas do "futuro". Elas me mostram isso. E essa conexão verdadeira, construída lá atrás sem eu ficar pensando tanto nisso, fez com que elas me acompanhassem até hoje. Parece clichê, mas é real: eu acho que é só manter a mesma toada — de realidade, de verdade — sem pensar demais. E eu espero que isso siga sendo passado adiante, como tem sido até aqui.
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