Aos 84 anos, Gilberto Gil retornou ao Rock in Rio em 2026 para um show histórico em tom de celebração e possível despedida. Com mais de quatro décadas de ligação com o evento, o artista conectou gerações ao reunir clássicos como "Aquele Abraço", homenagens a Rita Lee e Barão Vermelho, e a participação de Liminha em "Vamos Fugir". Emocionante e aberto sobre o futuro de sua carreira, Gil transformou o Palco Mundo em um grande coro, passeando do tropicalismo ao reggae com maestria singular.
Poucos artistas conseguem atravessar décadas de música popular brasileira mantendo a capacidade de dialogar com diferentes gerações. Gilberto Gil é um deles. Aos 84 anos, o cantor e compositor retornou ao Rock in Rio nesta edição de 2026 para uma apresentação que funcionou como retrospectiva, celebração e, talvez, uma despedida.
A relação de Gil com o festival começou ainda em 1985, na primeira edição do Rock in Rio. Mais de quatro décadas depois, ele voltou ao mesmo palco carregando um repertório capaz de conectar o tropicalismo, o reggae, o rock, a música nordestina e a cultura pop brasileira.
A possibilidade de aquela ser sua última participação no festival pairou sobre a apresentação. Sem transformar o show em um anúncio definitivo de aposentadoria, Gil deixou a questão aberta e preferiu fazer da noite uma celebração de sua trajetória.
Uma viagem no tempo em forma de música
A abertura com "Cérebro Eletrônico" foi uma das escolhas mais simbólicas do repertório. Lançada originalmente em 1969, a música continua surpreendentemente atual ao abordar a relação entre humanidade e tecnologia.
Logo depois, "Pela Internet" ampliou essa conversa. A faixa, lançada em 1997, mostrou como Gil sempre esteve atento às transformações tecnológicas e culturais de seu tempo.
O encontro entre essas duas músicas criou uma espécie de linha do tempo: de um mundo começando a imaginar as possibilidades da tecnologia até uma sociedade completamente conectada.
A partir daí, Gil conduziu o público por uma sequência de clássicos. "Andar com Fé", "Toda Menina Baiana", "Realce" e "Palco" transformaram o Palco Mundo em um grande coro.
O reggae que atravessa fronteiras
A influência da música jamaicana na obra de Gil também ganhou espaço.
"Rebel Music", de Bob Marley, apareceu no repertório, reforçando uma conexão artística que acompanha Gil há décadas. O cantor foi um dos principais responsáveis por aproximar o reggae do grande público brasileiro, especialmente a partir de sua relação com a obra de Marley.
A escolha também funcionou como lembrete de que a música de Gil nunca esteve limitada às fronteiras brasileiras. Sua obra sempre absorveu diferentes ritmos e culturas para devolvê-los ao público com uma identidade própria.
Homenagens que também contam a história do Brasil
O repertório ainda abriu espaço para outros nomes fundamentais da música brasileira.
Gil interpretou "Ovelha Negra", de Rita Lee, em uma homenagem carregada de significado. Rita e Gil pertencem a gerações diferentes, mas compartilharam uma trajetória marcada pela liberdade artística e pela disposição de romper fronteiras.
Outro momento especial foi "Pro Dia Nascer Feliz", do Barão Vermelho. A música carrega uma ligação direta com a história do Rock in Rio e ajudou a criar uma ponte entre diferentes momentos do rock brasileiro.
Ao colocar essas canções ao lado de seus próprios clássicos, Gil transformou o setlist em uma espécie de mapa afetivo da música brasileira.
Liminha e "Vamos Fugir"
A apresentação ganhou um capítulo especial com a participação de Liminha.
O músico e produtor subiu ao palco para tocar baixo em "Vamos Fugir", um dos grandes sucessos da carreira de Gil. A presença de Liminha trouxe ainda mais peso histórico à execução da música, originalmente lançada em 1984.
Foi um daqueles encontros em que o palco deixa de ser apenas espaço para uma performance e passa a funcionar como arquivo vivo da música brasileira.
"Aquele Abraço" e a força de uma trajetória
Na parte final do show, "Aquele Abraço" ganhou uma dimensão ainda maior.
A música, uma das composições mais emblemáticas de Gil, carrega décadas de memória e se tornou praticamente um patrimônio afetivo da música brasileira. No Rock in Rio, a canção encontrou um público formado por pessoas que cresceram ouvindo Gil e por uma nova geração que descobriu sua obra por meio de diferentes caminhos.
O verso "Quem sabe de mim sou eu" também ganhou força diante das especulações sobre o futuro do artista.
Aos 84 anos, Gil já encerrou a turnê "Tempo Rei", apresentada como sua última grande turnê. Mas o fim de uma turnê não necessariamente significa o fim da música. E, no Rock in Rio, ele pareceu deixar essa porta aberta.
Um show sobre passado, presente e futuro
O encerramento com "Atrás do Trio Elétrico" completou uma apresentação que atravessou diferentes territórios sonoros.
Mais do que reunir sucessos, Gil construiu uma narrativa. "Cérebro Eletrônico" e "Pela Internet" olharam para o futuro. "Rebel Music" mostrou sua conexão com o reggae internacional. Rita Lee e Barão Vermelho representaram encontros com outras gerações da música brasileira. E "Aquele Abraço" trouxe a própria história de Gil para o centro da noite.
Se esta foi realmente sua última passagem pelo Rock in Rio, o artista saiu do palco deixando uma despedida sem ponto final.
E talvez seja justamente essa a melhor forma de encerrar uma trajetória como a de Gilberto Gil: com reticências, porque enquanto suas músicas continuarem sendo cantadas, sua história continuará encontrando novos públicos.
Setlist de Gilberto Gil no Rock in Rio 2026
- "Cérebro Eletrônico"
- "Pela Internet"
- "Andar com Fé"
- "Toda Menina Baiana"
- "Rebel Music (3 O'Clock Roadblock)"
- "Vamos Fugir"
- "Realce"
- "Palco"
- "Super-Homem, a Canção"
- "Ovelha Negra"
- "Pro Dia Nascer Feliz"
- "Esperando na Janela"
- "Maracatu Atômico"
- "Divino, Maravilhoso"
- "Aquele Abraço / Funk-se Quem Puder"
- "Atrás do Trio Elétrico"